Startup diz ter criado o ‘santo graal’ das baterias para veículo elétrico – cientistas têm dúvidas

Startup diz ter criado o ‘santo graal’ das baterias para veículo elétrico - cientistas têm dúvidas

CEO de startup finlandesa anuncia veículos movidos a bateria sólida para março deste ano

Cientistas estão céticos: empresário não apresentou provas do desenvolvimento da nova tecnologia há tanto tempo buscada. Crédito: Imagens: Donut Lab via Youtube | Edição: Júlia Pereira

Por mais de uma década, baterias sólidas vêm sendo apontadas como o próximo grande salto do mercado de veículos elétricos. Mais rápidas no carregamento, com duração significativamente maior e mais seguras, elas seriam a peça que falta para que os motores a combustão sejam totalmente deixados de lado.

Mas o desenvolvimento desses novos modelos (com capacidade de produção em escala e razoável custo-benefício) tem se mostrado bem mais complexo do que o próprio mercado automotivo e as fabricantes de bateria apostavam. Há alguns anos, cientistas no mundo todo tentam desenvolver os modelos sem sucesso.

Em janeiro, pouco antes do início do CES Technology Show – um dos maiores eventos de tecnologia do mundo -, a montadora de motocicletas elétricas Verge Motorcycles e a companhia de motores Donut Lab prometeram entregar até março os primeiros veículos elétricos movidos por uma bateria sólida.

Os cientistas da área, entretanto, estão céticos sobre esse “Santo Graal” das baterias. O Estadão procurou as duas empresas, mas não obteve retorno.

Até hoje, pelo menos oficialmente, nenhuma empresa conseguiu desenvolver uma bateria dessa e, muito menos, produzi-la em larga escala. O último artigo científico publicado sobre o tema, no fim de 2025, lista uma série de problemas a serem resolvidos antes de se pensar na produção e na venda.

As versões sólidas são muito parecidas com as baterias de lítio-íon (“líquidas’), encontradas hoje em telefones, laptops e carros elétricos. Mas em vez de eletrólitos líquidos, são feitas com materiais sólidos, o que, teoricamente, traria todos os benefícios de carregamento e segurança.

Por outro lado, entre os problemas mais frequentemente apontados pelos cientistas estão o tipo de material usado, os custos e a capacidade de produção em larga escala.

A despeito do anúncio ambicioso, a Verge e a Donut Lab não apresentaram nenhuma evidência científica e revelaram pouquíssimos detalhes sobre a suposta nova bateria. As provas, eles dizem, virão quando os clientes começarem a receber, em março, as suas motos elétricas de US$ 30 mil (pouco mais de R$ 155 mil) que já estão sendo vendidas.

Mesmo que algum cientista já tenha feito isso em laboratório, as empresas automobilísticas ainda teriam de passar mais alguns anos (e gastar bilhões de dólares) adaptando as fábricas de baterias para a produção em massa do novo modelo.

Gigantes da produção de baterias, como Samsung, Panasonic e CATL, além de algumas startups de peso, como a QuantumScape e a Solid Power, também trabalham no desenvolvimento da tecnologia, mas ainda sem prazo definido.

“Nas últimas décadas, a indústria vem prometendo a mesma coisa, baterias sólidas; mas a verdade é que até hoje não há um único veículo em produção movido a bateria sólida”, afirmou o CEO da Donut Lab, Marko Lehtimäki, no vídeo em que anunciou a novidade.

“Hoje a Donut Lab está anunciando uma bateria sólida. Não híbrida, não semi-sólida, não “tipo sólida”. Sólida.” A Donut Lab é uma startup finlandesa com menos de 100 empregados e criada há pouco mais de um ano.

“A bateria de estado sólido ainda não existe comercialmente porque a ideia é maravilhosa, mas há problemas de engenharia de difícil solução”, diz o professor Roberto Torresi, do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP).

“Todo mundo sabe quais são esses problemas, isso não é segredo, mas daí a encontrar a solução são outros quinhentos”, acrescenta o professor.

Segundo Lehtimäki, a nova bateria armazena duas vezes mais energia do que as demais, é completamente carregada em menos de dez minutos, sobrevive a mais de 100 mil carregamentos praticamente sem perder sua capacidade, mesmo no frio intenso ou no calor escaldante.

“Esta é a única bateria sólida que combina todas as vantagens que a indústria vem buscando: alta densidade energética, carregamento rápido, ciclos praticamente ilimitados, segurança extrema, e custo mais baixo do que o da bateria de lítio”, prometeu.

Além disso, ele conta no vídeo de lançamento, o novo modelo não utiliza nenhum material raro ou oriundo de áreas conturbadas do ponto de vista geopolítico.

“É um superdesafio tecnológico que muita gente vem buscando no mundo todo. O problema é que ele não apresenta nenhuma evidência, não fala dos materiais, da ciência envolvida”, afirma Victor Martins, do Instituto de Química da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

“Além disso, no vídeo ele diz claramente que a bateria seria feita com materiais que não são caros e não vêm de áreas com problemas geopolíticos”, diz. Isso indica, segundo o cientista, que ele não está falando de lítio nem cobalto. “Mas do que estamos falando, então?”

A startup já levantou cerca de US$ 60 milhões (aproximadamente R$ 320 milhões) com investidores como Risto Siilasmaa, o antigo CEO da gigante finlandesa de telefonia celular, Nokia. Siilasmaa atualmente faz parte da diretoria da Donut Lab.

“Alegações extraordinárias demandam provas extraordinárias”, disse o professor Paul Braun, diretor do Laboratório de Pesquisa de Materiais da Universidade de Illinois (EUA) ao jornal americano Washington Post. “Embora, aparentemente, nenhuma lei da Física tenha sido desafiada, preciso de muito mais informação para estar convencido de que essa tecnologia é real.”

Lehtimäki se recusou a revelar informações técnicas ou qualquer tipo de detalhe sobre a bateria, sob a alegação de que a Donut Lab precisa proteger sua nova tecnologia. No entanto, ele disse, muitas empresas estão testando as baterias, sob a condição de não revelar informações, e validarão suas alegações ao longo das próximas semanas.

Nesse meio tempo, a Verge está aceitando encomendas dos Estados Unidos e da Europa para o novo modelo de moto elétrica — cujo preço começa em US$ 29 mil – capaz de carregar de 0% a 80% de sua bateria em menos de dez minutos e viajar mais de 300 quilômetros sem recarga. Um modelo um pouco mais sofisticado, cujo preço começa em US$ 34 mil, promete uma viagem de 600 quilômetros sem recarga.

A favor da Verge, pesa o fato de que ela comercializa desde 2022 uma moto elétrica na mesma faixa de preço, cuja bateria é bem mais pesada e leva 35 minutos para ser carregada. O modelo, no entanto, ganhou registro no Guiness, o livro dos recordes, como a motocicleta que viaja mais longe com só uma carga: 300 quilômetros.

“Se me perguntassem em 2005 se teríamos carros movidos a bateria de lítio, eu diria que seria muito difícil”, afirmou Roberto Torresi, lembrando que, pouco tempo depois, os carros já circulavam em todo o mundo. “Então, não posso carimbar que é mentira, mas nem dizer que é verdade. Vamos ter de esperar para ver.”

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