A coluna de hoje é mais pessoal que as demais: meu filho entrou há pouco tempo na puberdade e, repentinamente, começou a ter um cheiro de suor vencido. O que exatamente aconteceu com meu garoto?
É um mecanismo muito interessante. Precisamos, antes de tudo, entender o que é suor e de onde ele vem. Temos dois tipos de glândulas sudoríparas: as écrinas e as apócrinas – e cada uma produz um tipo específico de suor.
As écrinas estão distribuídas por todo o corpo e liberam o suor diretamente na superfície da pele, através dos poros. Este tipo de suor é constituído quase totalmente por água e por uma pequena porcentagem de sais minerais – uma receita pouco nutritiva para as bactérias que habitam sobre nossa pele. É um suor inodoro tanto quando liberado quanto após algum tempo (pois não há reação química). Funciona basicamente como regulador de temperatura (ao evaporar, reduz a temperatura da pele e, consequentemente, do corpo).
Já as glândulas apócrinas estão ligadas aos folículos capilares e liberam o suor sobre os pelos, principalmente nas axilas e na região dos genitais.

Diferente das glândulas écrinas, o suor produzido por estas glândulas é viscoso e com grande concentração de nutrientes para bactérias: proteínas, lipídios e carboidratos. Vale notar que o suor apócrino não tem papel relevante na regulação térmica do corpo. Mais intrigante ainda: em outros mamíferos, ele tem uma função de gerar atração sexual (pois carrega feromônios), mas não é o que ocorre em humanos – em nós, seu papel não é totalmente compreendido. De qualquer maneira, este tipo de suor também é uma mistura inodora.
Adicionalmente, há o sebo produzido pelas glândulas sebáceas (que, assim como as glândulas apócrinas, também estão ligadas aos folículos capilares). Acima de 30ºC, ele se liquefaz e se mistura ao suor – mais alimento para as bactérias.

Repentino aparecimento do cheiro forte em jovens púberes é fruto da revolução ocorrendo no corpo. Foto: Adobe Estoque
Falando em bactérias, todos nós temos uma enormidade de tipos que vivem na pele, mas alguns gêneros específicos delas têm um apreço peculiar pelos nutrientes do suor:
- Staphilococcus: se alimentam de uma molécula complexa e impronunciável (Cys-Gly-3M3SH) e liberam um componente com cheiro que remete a cebola e ovo podre
- Corynebacterium: se alimentam dos lipídios e suas excretas são descritas com cheiro de cominho e almíscar.
- Propionibacterium: se alimentam de aminoácidos e suas excretas têm cheiro de vinagre
Simplificando: bactérias quebram moléculas inodoras presentes na mistura de suor e sebo, se alimentam de uma parte e liberam o restante. Estas excretas bacterianas são voláteis, rapidamente saem da pele para o ar – e viram o cheiro que conhecemos tão bem e que tanto nos incomoda.
Para piorar, um detalhe adicional: nossas roupas, quando produzidas com fibras sintéticas (especialmente poliéster) são hidrofóbicas (não absorvem água), mas lipofílico (atraem gordura) – motivo pelo qual há uma tendência de acúmulo desta rica mistura do suor apócrino (com ácidos graxos) sobre sua superfície, que adere de forma tão tenaz que mesmo após lavagem em máquina ela continua lá, junto com a colônia de bactérias, que passa a ser um biofilme persistente. Ou seja: o mecanismo gerador de odor pode estar não apenas na pele, mas ter se impregnado também no vestuário.
Voltando ao início: todas as glândulas sudoríparas estão presentes desde o nascimento, mas as apócrinas (as que contêm nutrientes para bactérias) ficam dormentes até a puberdade. Neste momento, ocorrem mudanças hormonais que despertam a sua atividade (junto com o crescimento dos pelos).
Ou seja: o repentino aparecimento do cheiro forte em jovens púberes é fruto da revolução ocorrendo em seu interior. É um sinal menos conhecido do fim da infância e do início do (sofrido) processo para se tornar adulto – incluindo os seus cheiros.
Adendo: outro motivo desta coluna ser pessoal é o fato de minha primeira formação ser em engenharia têxtil e eu lidar profissionalmente justo com apresentações técnicas de produtos bacteriostáticos e redutores de odor de suor sobre tecidos.