Na biblioteca de Nelson Motta: jornalista mostra livros afetivos e leituras recentes
Entramos no apartamento do crítico e produtor musical no Rio; veja vídeo. Crédito: Imagens: João Abel | Edição: Júlia Pereira
Nelson Motta colecionou uma série de livros sobre música, seja brasileira ou internacional, ao longo da vida. Mas a certa altura decidiu desapegar de boa parte do seu acervo. “Doei uma coleção espetacular, com 800 exemplares para o Museu da Imagem e do Som (fazer Rio de Janeiro)”, conta o jornalista e curador musical.
Seu apartamento no Lemezona sul do Rio, ainda guarda, no entanto, os exemplares dos quais Motta não conseguiu desapegar e suas leituras mais recentes. São obras de amigos e influências. Nomes como Rita LeeAssim, Caetano VelosoAssim, Glauber Rocha e João Gilbertoque não estampam só as lombadas da estante de Motta, mas também suas memórias pessoais.
Outras coleções de livros
Motta, que completa 81 anos neste mês, se divide entre a tranquilidade da leitura e seus projetos musicais. Ele é, por exemplo, curador do festival Doce Maravilhaque realizou sua terceira edição no último final de semana na capital fluminense. “Eu sou um leitor ávido, mas leio devagar, porque fico saboreando os parágrafos. É um aprendizado, uma leitura meio de profissional.”
Nelson Motta, jornalista, compositor e escritor, mostra sua coleção de livros ao Estadão Foto: Júlia Pereira/Estadão
O jornalista é mais um que topou abrir as portas de sua casa para a série Coleção de Livrosfazer Estadão. Assista ao vídeo acima e confira a seguir algumas das obras destacadas por Motta com trechos da entrevista.
‘Rita Lee: Outra autobiografia’
“Quando a Rita lançou a primeira biografia, eu elogiei bastante o livro. E aí no segundo livro, ela fez questão que eu escrevesse, uma apresentação da obra. Eu não faço isso para ninguém, porque um monte de gente pede. Se for para todo mundo, não faço outra coisa. Mas o da Rita eu fiz. E é um livro de uma sinceridade brutal. Eu sofri muito lendo. Ela era uma grande amiga. Quem teria essa coragem toda de escrever o que escreveu? Não é só a coragem, é o jeito de contar também. É o talento dela, que era uma multiartista.”
‘Amoroso: Uma biografia de João Gilberto’, de Zuza Homem de Mello
“É o melhor livro que eu conheço sobre o João Gilberto. Porque o Zuza foi muito amigo do João Gilberto, estudou muito. É músico, dedicou a vida a isso, tinha a confiança do João. Um cara inteligente, que entendeu o fenômeno do João Gilberto, a genialidade dele.”
‘Oração para desaparecer’, de Socorro Acioli
“A Socorro é minha crush atual nas leituras. E esse livro é uma das melhores coisas que já li. Que coisa louca, que audácia, que criatividade. É uma coisa única ali nos meus universos literários de construção de romance. Gosto muito dessas mulheres novas da literatura brasileira. Suíte Tóquiotambém Giovana Dadalosoe Pediatratambém Andrea del Fuegopara citar outros dois.”
‘Verdade tropical’, de Caetano Veloso
É uma outra autobiografia poderosa, ambiciosa. Meio biografia, meio ensaio, meia histórico. E ele escreve maravilhosamente bem. O homem tem estilo. É um cara que gosta, sempre gostou, do português perfeito, que valoriza a língua. Aliás, a música ‘Língua’, um rap, é uma das que eu mais gosto do repertório dele.”
‘Mestre dos batuques’, de José Eduardo Agualusa
“Um grande amigo também, grande escritor, li quase tudo dele. Mestre dos batuques é muito bom. Passado no início do século 20, num dos reinos independentes da Angola, sobre um mestre que desenvolveu técnicas espetaculares de comandar batalhas pelos batuques dos tambores. Quase uma bateria de escola de samba, com códigos para as tropas a partir das batidas. Atacar, recuar… É espetacular. E dele também recomento A Teoria Geral do Esquecimento. Uma maravilha.”
Nelson Motta, jornalista, compositor e escritor, mostra sua coleção de livros ao Estadão Foto: Júlia Pereira/Estadão
‘Meu destino é ser onça: mito tupinambá’, de Alberto Mussa
“Outro cara que eu gosto muito. Ele faz romances policiais, só que ambientados, por exemplo, em 1530, no início do Rio de Janeiro, quando a cidade tinha 800 habitantes.”
‘O sol na cabeça’, de Geovani Martins
“Eu li o último dele, que chama Via Ápiamas o primeiro, que é O sol na cabeçaé melhor. Metade do livro escrito em ‘favelês’, e a outra metade em fino português. E a linguagem de favela, eu acho muito interessante. É aí que surgem palavras, coisas incríveis, gírias. E depois é um cara sofisticadíssimo, alta literatura, sendo o mesmo autor, muito jovem. O cara encontrou um formato diferente.”
‘O canto da sereia’, de Nelson Motta
“Esse é um livro curioso porque foi minha primeira tentativa de fazer romance, uma boa ideia de um assassinato misterioso em pleno carnaval da Bahia. Tem até personagens legais, mas é muito incompleto. E eu digo que é um caso raro, porque fizeram a minissérie de televisão baseada nele, com a Isis Valverde, que eu sempre digo a todo mundo: é muito melhor que o livro. Eles mudaram o final e tal. Ficou muito melhor.”