Todos já ouvimos falar em expectativa de vida – e que ela aumenta constantemente. Mas sabemos mesmo o que o termo significa? Nunca havia refletido profundamente sobre este tema e, inicialmente, não compreendi o gráfico a seguir:
Notem o ponto de inflexão na pandemia. É de amplo conhecimento que a expectativa de vida caiu – mas por que caiu mais em recém-nascidos que em idosos? Te convido a mergulhar no tema.
Para começar: o termo mais conhecido é a expectativa de vida ao nascer. Como ela é determinada? É a média das idades ao falecer. Há dois métodos principais para calculá-la.

Brasil e o mundo tiveram uma brutal queda na mortalidade infantil ao longo das décadas. Foto: Anastasia Havelia/Adobe Stock
O método longitudinal acompanha uma população nascida num ano determinado até o fim da vida de todos seus membros e, a partir daí, calcula a média dos anos de vida deste grupo. É um método preciso, mas retrospectivo.
Portanto, é mais comum utilizar a chamada expectativa de vida transversal, calculada com base nos indicadores de mortalidade de um intervalo de tempo curto (geralmente, um ano). É uma fotografia do momento, não considera as reduções de mortalidade esperadas ao longo dos próximos anos (não é uma previsão). Para o ano de 2023, a fotografia das mortalidades por faixa estava assim:
Os óbitos não estão concentrados numa faixa etária apenas ou de maneira uniforme por todas as idades – eles se distribuem de forma desigual: começa com uma taxa relativamente alta na primeira infância, cai em seguida, para subir novamente no início da vida adulta e vai subindo gradualmente e sobe acentuadamente na velhice.
Mas o que aconteceu na pandemia? Um aumento explosivo na taxa de óbitos – não apenas entre os idosos, mas significativo já a partir dos 30 anos.
Mas como isto afetou a expectativa de vida das crianças – já que sua mortalidade não aumentou? Aí entramos na metodologia: no método transversal, a expectativa de vida é o esperado de anos de vida dentro de determinado intervalo temporal e grupo etário somado ao esperado de anos de vida no grupo etário acima. Ou seja, um bebê nascido em 2021 teve sua expectativa de vida calculada como se hipoteticamente toda a sua vida futura fosse afetada pela mortalidade daquele ano – com chances muito maiores de morrer, por exemplo, aos 30 e poucos anos que em anos normais. Então estes hipotéticos anos a porvir puxaram a expectativa de vida dos recém-nascidos para baixo. Já em anos normais, há uma contínua redução de mortalidade e consequente aumento da expectativa de vida.
Falando nisto, não há como não citar a brutal queda na mortalidade infantil ocorrida no Brasil e no mundo ao longo das décadas – pois este é o principal componente responsável pelo enorme aumento da expectativa de vida ao nascer:
E lembremos que há como calcular a expectativa de vida para qualquer idade, não apenas aquela ao nascer – vejam aqui a expectativa para quem tem 80 anos, que parece inusitada: ela não mudou muito na última metade de século (se comparada à dos recém-nascidos). Quem chegava aos 80 então tinha uma expectativa de anos de vida restantes muito próxima à de quem tem 80 anos hoje. Como assim?
A principal mudança não foi tanto no aumento da sobrevida deste grupo, mas sim que agora muito mais pessoas chegam aos 80 – fruto da menor mortalidade nas faixas etárias abaixo. O grande influenciador do passado eram as mortes de crianças e adultos relativamente jovens.
Concluindo: há muitos anos, vínhamos numa tendência de aumento de expectativa de vida, mas a pandemia causou uma ruptura inédita – mesmo para crianças. Felizmente saímos deste período de exceção e voltamos ao esperado, com avanços nas condições de vida e na medicina alavancando a expectativa de vida consistentemente, em todas as faixas etárias e no mundo inteiro.
Nota: para quem quiser se aprofundar no tema, recomendo explorar os gráficos para diferentes países no Our World in Databem como este artigo das Nerdy Girls e o tutorial de cálculo da expectativa de vida faça a avaliação da medida.