Um homem está ajoelhado à beira de uma cova cheia de corpos. Ele sabe que, em alguns momentos, estará morto. Seu rosto exaurido revela um olhar desafiador. Atrás dele, de pé, um uniformizado soldado nazista. Em seu braço direito estendido, o soldado aponta uma pistola a poucos centímetros da cabeça da vítima. Um grupo de outros alemães observa a cena com curiosidade, mas sem sinais de perturbação.
A angustiante imagem, capturada em uma foto de 1941, ficou conhecida como “O último judeu em Vinnitsa” e se tornou uma das imagens mais icônicas do Holocausto pela forma com que consegue capturar a banalidade da selvageria dos assassinatos em massa perpetrados pelos nazistas. Por décadas, entretanto, ninguém conseguia responder a mais básica pergunta imposta pela imagem: quem eram esses homens?
O mistério foi parcialmente resolvido há dois meses por Jurgen Matthaus, recentemente aposentado do cargo de chefe de pesquisa do Museu Memorial do Holocausto, em Washington, nos EUA. Em pesquisa publicada na edição de setembro da revista científica Revista de Estudos Históricosuma publicação em língua alemã, o assassino foi identificado como Jakobus Onnen, de 34 anos, um professor na cidade de Tichelwarf, localizada perto da fronteira com a Holanda.
Um parente vivo de Onnen enviou a Matthaus várias fotos de família e, com a ajuda de uma ferramenta de Inteligência Artificial, foi possível identificar o soldado nazista com 99,9% de certeza.
A foto surgiu em 1961, durante o julgamento de Adolf Eichmann, em Jerusalém. A imagem estava com Al Moss, um sobrevivente do Holocausto que contou tê-la adquirido em 1945, mas não sabia nada sobre seu contexto. Moss contou que estava tornando a imagem pública para que o mundo soubesse “o que estava acontecendo na época de Eichmann”. Com uma clareza que permanece intacta mesmo depois de décadas, a foto coloca o espectador na terrível cena.

Foto foi revelada por um sobrevivente do Holocausto durante o julgamento do oficial nazista Adolf Eichmann. Foto: Assessoria de Imprensa do Governo de Israel
“É impressionante”, afirmou Christopher R. Browning, autor de diversos livros sobre o Holocausto. Segundo Browning, é raro que fotos do Holocausto apresentem tantos detalhes sobre os assassinos e suas vítimas.
“Por isso essa imagem é tão poderosa.”
Onnen morreu em 1943, possivelmente pelas mãos de partisanos soviéticos. As identidades da vítima, do soldado e do fotógrafo permanecem desconhecidas.
“Na cena dos estudos sobre o Holocausto, é uma grande notícia”, afirmou Katja Hoyer, uma especialista em história alemã que escreveu sobre a descoberta de Matthaus em sua newsletter. “Saber a identidade do assassino é um grande passo para dar contexto à foto, tornando-a mais do que apenas uma relíquia macabra.”
Em uma pesquisa publicada em 2024 na revista científica Estudos sobre Holocausto e GenocídioMatthaus explicou que durante muito tempo acreditou-se que a foto teria sido feita em Vinnitsa, uma cidade ucraniana na época parte da União Soviética, onde Hitler pretendia construir o complexo “Wehrwolf”. Na verdade, a foto foi tirada em Berdichev, 80 quilômetros ao norte.
Matthaus chegou a essa conclusão depois de descobrir o diário de Walter Materna, um soldado austríaco, no Museu do Holocausto em Washington. Uma versão da imagem foi encontrada entre as páginas do diário. No verso da foto, Materna escreveu detalhes: o massacre tinha ocorrido em 28 de julho de 1941, dentro dos muros da cidadela de Berdichev.
O massacre foi perpetrado por um dos mais letais esquadrões da SS, formado por Hinrich Himmler, a mais poderosa figura do Terceiro Reich depois de Hitler, e seu subordinado imediato, Reinhard Heydrich.
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Seguindo o exército alemão em seu avanço em direção a São Petersburgo (na época, Leningrado), Moscou e Kiev, esses esquadrões aterrorizaram o interior da Rússia, matando centenas de milhares de judeus, entre eles mulheres e crianças
Onnen nasceu em 1906, em uma família abastada. Seu pai, um educador, morreu em 1924, o que se revelou um “evento crucial”, escreveu Matthäus em seu novo artigo. Onnen ingressou no Partido Nazista em 1931, dois anos antes da ascensão de Hitler ao poder, e tornou-se membro da SS em 1932. Durante vários anos na década de 1930, lecionou línguas e educação física na Escola Colonial de Witzenhausen.
No verão de 1939, ele se juntou ao esquadrão assassino da SS no campo de concentração de Dachau. Berdichev caiu na mão dos alemães no início de julho de 1941, conforme o exército alemão se preparava para tomar Kiev. A matança de judeus aconteceu durante todo o verão e o outono, mas a máquina de guerra alemã acabou sendo paralisada pelas diversas unidades de partisanos, o terrível inverno russo e a infinita capacidade soviética de substituir seus soldados. Onnen foi morto em 12 de agosto de 1943, conforme o Exército Vermelho avançava sobre o front oriental.
Este artigo foi publicado originalmente no The New York Times .
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