Muitas doenças infecciosas surgiram com a domesticação dos animais

Muitas doenças infecciosas surgiram com a domesticação dos animais

Até 1850, metade das crianças morria antes dos 15 anos. Dessas, 50% das mortes eram causadas por doenças infecciosas. Foram os antibióticos e as vacinas que reduziram brutalmente esses números.

Faz décadas que os cientistas acreditam que grande parte das doenças infecciosas surgiu a partir de nossa interação com animais. Até hoje, novas doenças infecciosas como a AIDSa COVID 19 e o Ebola são causadas por vírus oriundos de animais que se tornam capazes de infectar seres humanos.

Na pré-história, quando os grupos humanos eram pequenos e migravam caçando e coletando vegetais, nossas interações com animais eram esporádicas e de curta duração. Foi a partir de 12 mil anos atrás, com a descoberta da agricultura, que trocamos o nomadismo pelas cidades. Com as cidades vieram os ratos, as pulgas e suas doenças. Foi também nesse período que domesticamos cachorros, gatos, cavalos e vacas.

Doenças infecciosas como a covid-19 são causadas por vírus oriundos de animais. Foto: Produção de estoque de perig/Adobe

Finalmente, 5-6 mil anos atrás, estávamos convivendo intimamente com animais. Essa intimidade e o comércio entre as cidades teriam propagado doenças como a peste e a tuberculose pelo planeta. Algo parecido ao que ocorreu com a covid-19 a partir de Wuhan, na China, EM 2019.

Essa teoria tem muitos adeptos, mas carece de evidências diretas, pois o que sobrou dessa época são ruínas e esqueletos. Como saber quando as doenças surgiram e se propagaram?

Faz algumas décadas que foi descoberto que é possível sequenciar o genoma de nossos ancestrais a partir do DNA extraído de ossos e dentes. Atualmente, existem sequências genômicas de milhares de indivíduos que morreram nos últimos 50 mil anos. No DNA extraído desses esqueletos, os cientistas encontraram fragmentos de DNA de outros seres vivos que geralmente são descartados nas análises do genoma dessas pessoas.

A novidade é que agora eles resolveram analisar as sequências de outros organismos presentes nos esqueletos de cada uma dessas pessoas. A maioria das sequências é de organismos vindos do solo onde o cadáver foi enterrado ou de organismos que normalmente habitam nosso corpo, como os da flora intestinal. Quando essas sequências são eliminadas, sobram as sequências de patógenos, como dos organismos que causam a tuberculose e a peste.

Esse trabalho foi feito para cada amostra de um total de 1.313 esqueletos cuja morte ocorreu entre 1.000 e 37.000 anos atrás. O resultado é uma lista de 1.313 seres humanos que viveram em diferentes períodos nos últimos 37.000 anos, com sua data de morte aproximada e a localização exata onde foram encontrados.

Todos os esqueletos são originários da Eurasia, de Portugal até a Indonésia. Dos 1.313 seres humanos analisados, 1.005 continham sequências de patógenos humanos.

Quando isso é colocado num mapa da Eurasia ou em uma linha do tempo os padrões ficam claros. Exemplos: a bactéria da leptospirose só aparece em esqueletos europeus e somente a partir de 2.500 anos atrás. Já a da peste, aparece a partir de 5.000 anos atrás e se espalha rapidamente por toda a Eurasia. No caso de uma bactéria patogênica transmitida por piolhos ocorre o mesmo padrão: aparece 5.000 anos atrás e logo se espalha. São dezenas de patógenos analisados.

O interessante é que não foram encontrados patógenos importantes nos esqueletos de pessoas que morreram antes de 5.000 anos atrás, apesar desses esqueletos apresentarem amostras abundantes das bactérias que vivem normalmente em nossos intestinos. Ou seja, parece que a coisa ficou feia por volta de 5.000 anos atrás.

Tomados como um todo, esses resultados indicam que as doenças que existem até hoje surgiram por volta de 5 a 6.000 anos atrás, exatamente quando os seres humanos deixaram a vida nômade em pequenos grupos, criaram as cidades e domesticaram os animais.

Esses resultados comprovam a teoria de que as doenças infecciosas recentes começaram a nos atacar quando descobrimos a agricultura, domesticamos os animais e passamos a viver aglomerados em cidades. E foi provavelmente o comércio entre cidades que espalharam as doenças pelo planeta.

Da mesma forma que portugueses e espanhóis trouxeram para a América as doenças que existiam na Europa, milhares de anos antes foram o comércio e as guerras que espalharam pela Eurasia os patógenos que adquirimos dos animais.

Mais informações: The spatiotemporal distribution of human pathogens in ancient Eurasia. Nature https://doi.org/10.1038/S41586-025-09192-8 2025

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