
Homem morre após entrar na jaula dos leões em João Pessoa; zoológico é interditado para investigação Foto: @vox_pb via Instagram
“Quando a gente foi levar o Vaqueirinho pra família, a avó disse que não tinha condições de ficar com ele. Ninguém da família queria. A avó não queria, o pai não queria, ninguém queria”, relatou em um vídeo nas redes sociais Edmilson Alves, o Selva, diretor da Penitenciária Desembargador Flósculo da Nóbrega (Presídio do Róger).
Selva conheceu e conviveu com Gerson de Melo Machado, de 19 anos, que morreu no domingo, 30ao ser atacado por uma leoa depois de invadir a jaula de um zoológico, em João Pessoa (PB). Chamado de “Vaqueirinho de Mangabeira”o rapaz era esquizofrênico e tinha sintomas psicóticos ativos, segundo laudos de perícias determinadas pela Justiça.
Leia mais:
“A gente sabia que era uma tragédia anunciada. Vaqueirinho sem o devido tratamento, na rua, estão está aí o resultado. Infelizmente, a gente via que o raciocínio dele era de uma criança de 5 anos”, afirmou Ivison Lira, chefe de disciplina do Presídio do Roger, que também acompanhou o garoto.
Em um vídeo publicado em suas redes, ele afirmou que a relação com Vaqueirinho se estabelecia a base de trocas para que o jovem não se rebelasse. “Tudo era condicionado a troca, com bombons ou algo do tipo, pra poder ele não se rebelar”, disse. O chefe de disciplina e o diretor do presídio concordaram que o lugar de Vaqueirinho não era na prisão.

Homem morto por leoa após invadir recinto em zoológico de João Pessoa – A morte de um homem, de 19 anos, após invadir ao recinto de uma leoa no Parque Arruda Câmara, conhecido como Bica, em João Pessoa, no domingo (30), desencadeou uma série de questionamentos sobre a segurança do local e as circunstâncias que permitiram o acesso ao recinto do animal. Gerson de Melo Machado, de 19 anos, morreu após entrar na jaula de uma leoa na Paraíba. Foto: Reprodução/TV Globo
Transtorno mental era visível
Dos 10 aos 18 anos, o jovem teve acompanhamento por parte do Conselho Tutelar de Mangabeira. Segundo a conselheira Verônica Silva de Oliveira, que também foi às redes sociais falar do caso, por muito tempo foram solicitados laudos psiquiátricos sobre o rapaz, mas alegava-se somente problema comportamental.
“Era visível o transtorno mental. O estado dizia que ele só tinha um problema comportamental. Será que alguém com problema comportamental entra na jaula do leão, joga paralelepípedo no carro da polícia? Não. Isso não é só um problema comportamental. Gerson precisava de tratamento, que não foi oferecido a Gerson”, desabafou.
A conselheira disse nunca ter se calado “diante dos absurdos de violações de direitos” que o rapaz sofreu.
“O meu sentimento hoje é de revolta”, afirmou. “Era para ele estar em tratamento e não estava. Ele não precisava estar atrás das grades, ele precisava de um tratamento psiquiátrico”, apontou.
Em entrevista ao Metrópoles, ela contou que Vaqueirinho, que viveu em pobreza extrema, na infância tinha o sonho de ir à África para “domar leões”.
Janaia D’Emery, diretora do Caps Caminhar, de João Pessoa, disse que o jovem tinha muita dificuldade em aderir aos tratamentos.
“A gente acredita que a falta dessa rede de apoio dificultava o seu tratamento. Então, não tinha adesão”, explicou. “Na semana passada, ele veio ao serviço, onde o acolhemos novamente e ofertamos o tratamento. Infelizmente, esse fato aconteceu no domingo. Na quinta foi o último dia que ele esteve aqui”, recordou-se.