Em 20 de dezembro está prevista a assinatura do acordo econômico-comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul, que terá validade provisória até que o acordo completo seja aprovado por um mínimo de 15 dos 27 países membros do bloco europeu, um processo que pode tomar vários anos. O Parlamento Europeu também precisa aprovar o acordo.
Mas o acordo provisório já dá a partida ao processo de desgravação tarifária entre os dois blocos, e é um marco em termos de negociação comercial num momento em que o mundo tende a se fechar no protecionismo, e em que o prestígio da Organização Mundial do Comércio (OMC) está em baixa.
A economista Lia Valls, especialista em comércio internacional do FGV-IBRE, nota que, no acordo UE-Mercosul, o bloco europeu se abre mais rapidamente na indústria e mais lentamente (e com exceções) na parte agrícola; exatamente o oposto do que ocorre com o Mercosul.
O acordo UE-Mercosul foi “fechado” inicialmente em 2019, mas de uma forma em que ambas as partes mantiveram muitas insatisfações em relação ao que foi acertado. Em dezembro de 2024, após muitas negociações, esses impasses foram resolvidos, com mudanças negociadas em relação à versão de 2019.
Algumas das modificações mais importantes são relativas à abertura do setor automotivo do Mercosul. A produção de veículos é muito importante nas duas maiores economias do bloco sul-americano, Brasil e Argentina, sendo um item de grande peso no comércio intrarregional. Assim, trata-se de um setor especialmente sensível para o Mercosul.
No acordo de dezembro de 2024, o prazo para a desgravação gradativa (até zerar a tarifa) de automóveis convencionais e elétricos foi esticado de 15 anos (do acordo de 2019) para 18 anos. No caso de veículos a hidrogênio, o prazo foi para 25 anos e, em relação a “novas tecnologias”, para 30.
Adicionalmente, explica Valls, o acordo prevê que, caso haja um surto de importações de veículos europeus para os países do Mercosul, estes podem retornar à tarifa de 35% durante três anos, renováveis por mais dois anos, e sem necessidade de compensação para a UE.
A pesquisadora nota que o acordo UE-Mercosul “vai ser a maior abertura comercial que o Brasil fez desde a reforma tarifária dos anos 90 (no governo Collor)”.
Ainda assim, ela ressalva, não se deve esperar um impacto tão intenso quanto o da abertura dos anos 90, exatamente porque o acordo tem prazos relativamente longos (e com carências) para a desgravação tarifária.
Segundo Valls, em termos geopolíticos, o acordo UE-Mercosul é importante num momento em que os Estados Unidos ainda mantém uma ofensiva tarifária contra o Brasil, apesar dos recuos de Trump em vários itens. Adicionalmente, com a forte polarização global entre EUA e China, a aproximação com a UE é uma alternativa que pode trazer ganhos para o Brasil, sem melindrar as duas grandes potências.
Em termos econômicos, Valls assinala que duas visões conflitantes continuam a debater o tema. De um lado, há a visão de que o acordo pode até fortalecer a indústria nacional, pelo maior acesso a insumos, máquinas e equipamentos, além de facilitar a operação das multinacionais europeias instaladas no Brasil. Essa visão hoje predomina, tanto que o atual governo, de esquerda, concluiu o acordo, e entidades como CNI e CNA o apoiam.
Do outro lado, existe o temor de que o livre comércio com um bloco bem mais desenvolvido que o Brasil possa acelerar a chamada “primarização” da pauta de exportações brasileiras, com o agronegócio se beneficiando da abertura de mercados na Europa e a indústria sofrendo a competição de produtos europeus mais competitivos.
Valls lembra que as consequências de acordos comerciais muitas vezes surpreendem. No México, antes do Nafta ser assinado, também havia medo da competição industrial americana, mas a desvalorização do peso combinada ao forte crescimento dos EUA tornou o México uma plataforma de manufaturas voltada ao mercado americano. Mas adiante, um fator extra-acordo, o choque das exportações chinesas, veio a ser o maior problema do setor de manufaturas no México.
Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)
Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 25/11/2025, terça-feira.