A Fórmula 1 era mais concorrida nos anos de Senna e Piquet? Veja o que dizem os dados

A Fórmula 1 era mais concorrida nos anos de Senna e Piquet? Veja o que dizem os dados

Como muitos fãs de Fórmula 1frequentemente me pergunto: será que as corridas de outras épocas – principalmente nos anos de ouro de Piquet e Senna – eram realmente melhores e mais emocionantes? E há alguma maneira de quantificar isto?

Para isto, mergulhei nos dados históricos e escolhi alguns indicadores que ajudam a esclarecer a dúvida – ou não?

Começando com o número de vencedores por temporada – um indicador de alta competitividade e imprevisibilidade: notem que era um pouco mais alto no início dos anos 80 (incluindo aí a peculiar temporada de 82, com 11 vencedores diferentes – na qual Keke Rosberg foi campeão tendo vencido apenas uma corrida). Já a partir de meados dos anos 80, há uma certa constância.

Mas, a meu ver, esta série histórica não mostra nada muito categórico ou destoante entre as épocas. Talvez checando outros dados, como a quantidade de pilotos que concluem provas?

Aqui, sim, temos uma diferença grande: há 4 décadas, apenas em torno de 50% dos pilotos conseguiam concluir as provas – um índice que hoje está em 90%. No meu entender, o grande número de pilotos que abandonavam as provas no passado era um tempero que prendia o espectador. Tudo podia acontecer.

E como ficavam as distâncias entre os pilotos? Isto realmente me surpreendeu: nos anos 80, o segundo colocado cruzava a linha de chegada mais longe do vencedor que em corridas de anos recentes.

Mas a informação do gráfico anterior não satisfez minha curiosidade. Queria entender melhor quando havia mais chegadas emocionantes, daquelas nas quais o segundo poderia vir a ultrapassar o líder no final da prova. Para tanto, filtrei apenas aquelas corridas nas quais a diferença entre os dois ponteiros era de dois segundos ou menos.

Isto acima me surpreendeu: no início dos anos 80, chegadas apertadas eram raras, na casa de 10% das corridas (uma ou duas por ano apenas). Aumentou um pouco, hoje está em torno de 20% (este indicador teve o apogeu em torno da virada do milênio). E não tem como não reparar no campeonato de 2002 (vencido por Schumacher), no qual 2 em cada 3 corridas terminava com o segundo colocado grudado no primeiro.

E continuando a exploração dos dados: houve um consistente aumento do número de concluintes das provas na mesma volta do vencedor. Para quem se lembra das provas dos anos 80, era bem comum o líder da prova colocar volta em cima de pilotos do top 10. Já hoje, o pelotão de chegada é mais compacto – algo que eu atribuo ao maior controle e confiabilidade dos carros.

Se isto contribuiu ou não para a emoção? Ao menos em teoria, carros relativamente próximos do líder deveriam ajudar nisto.

E algo que os fãs da categoria não costumam gostar: quando já se conhece o campeão bem antes do fim da temporada. Não era comum no passado (lembrando que então existia o estranho sistema que obrigava o descarte dos 5 piores resultados). Houve alguns casos extremos: o campeonato de Mansell em 92, definido já em fins de agosto, o campeonato de Schumacher de 2002 (faltando 6 corridas para o final) e o de Verstappen em 2023, definido a 5 corridas do fim. Vale lembrar que o campeonato de 2002 foi justamente aquele no qual houve a menor distância média entre vencedor e segundo colocados nas provas – para mostrar que não necessariamente este é um dado que indica competitividade no campeonato.

E o último infográfico, mas não o menos importante – principalmente para nós brasileiros: a presença de pilotos brasileiros no pódio. Não há como resistir à emoção de ter um compatriota lá – e isto acontecia com uma frequência impressionante no final dos anos 80 e início dos anos 90. Entre 80% e 90% das provas tinham Piquet ou Senna (às vezes ambos) no top 3.

Infelizmente, agora faz 10 anos desde a última subida ao pódio de um piloto brasileiro (a 3ª colocação de Massa no GP da Itália em 2015) – e entendo que muitos dos fãs de outrora deixaram de acompanhar a categoria em função disto.

Obviamente, há uma imensidão de outros dados que também podem ser explorados para tentar correlacionar a emoção e o interesse gerados por este esporte – e não é a ideia encerrar a questão com estes exemplos que mostrei aqui. Muitos hão de pensar em obter o número de ultrapassagens por corrida – algo que, a meu ver, seria o ideal. Mas infelizmente, ao menos nos bancos de dados que consultei, não está disponível para corridas antigas.

Com base no que vi, não necessariamente os dados quantitativos conseguem traduzir o quão interessante (ou não) a Fórmula 1 é para os espectadores. Anos tidos como emocionantes podem ter tido poucos vencedores – ou grandes diferenças de tempo entre os ponteiros. No fundo, é o grande desafio dos estudiosos do comportamento humano: como medir e quantificar nossas emoções?

Por fim, algo pessoal que outras leitoras e leitores da minha faixa etária (sou de 1973) hão de entender: não é possível transmitir em palavras o que um adolescente nos anos 80 sentia com as vitórias (e campeonatos) de Piquet e Senna. Era mágico. Sou cabeça-de-planilha, mas admito que o abordagem quantitativo não se aplica a tudo.

Nota: como fonte, usei o banco de dados compilado por Ega Octavina disponibilizado no Kaggle.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Notícias Recentes