Surpresa nas ruas de São Paulo em 1976: um carro a álcool

Surpresa nas ruas de São Paulo em 1976: um carro a álcool

— Mas é verdade? Este carro anda mesmo a álcool?

Essa foi uma das muitas manifestações de espanto diante do Dodge Dart que andou quarenta quilômetros, ontem, pelas ruas da cidade. A inscrição Motor Dodge 100% Álcool, pintada no carro, chamava a atenção de todos. Pedestres olhavam, curiosos, e faziam comentários. Motoristas observavam e faziam perguntas das janelas de seus carros, esquecendo-se às vezes de verificar se sua fila já estava andando. Guardas de trânsito paravam seu trabalho para ver.

Jornal da Tarde, 20/11/1976

“Mas é verdade? Este carro anda mesmo a álcool?” Com essa pergunta, uma das várias que ouviu durante um passeio com um carro movido a álcool, o repórter Francisco Santos começou o texto de sua reportagem publicada no Jornal da Tarde de 20 de novembro de 1976, intitulada “Surpresa nas ruas: um carro a álcool no meio do trânsito” .

Era uma baita novidade na época, pois o primeiro carro movido a álcool produzido no Brasil só sairia de uma fábrica três anos depois, em 1979. O carro que causou o espanto em 1976 era um modelo Dodge Dart, adaptado pela fabricante Chrysler, para ser uma das atrações do Salão do Automóvel daquele ano.

Naquela década o mundo viu estourar a crise do petróleo e a procura por soluções para substituir os combustíveis fósseis na propulsão dos motores de carros tornou-se uma necessidade na indústria automobilística.

Naquele dia de 1976, a equipe do Jornal da Tarde saiu às ruas de São Paulo acompanhada por um engenheiro da montadora. A inscrição “Motor Dodge 100% Álcool” pintada no carro provocou curiosidade e admiração de motoristas e pedestres. “Isso anda mesmo?”questionou um vendedor ao repórter. Leia mais abaixo a íntegra da reportagem, que foi à oficina do ex-piloto Menino Landi testar o carro.

Ó primeiro carro a álcool produzido comercialmente no Brasil seria um Fiat 147. A primeira unidade de série com esse combustível saiu da fábrica em 2 de julho de 1979.

Jornal da Tarde – 20 de novembro de 1976

Jornal da Tarde – 20 de novembro de 1976

Surpresa nas ruas: um carro a álcool no meio do trânsito

Francisco Santos

— Mas é verdade? Este carro anda mesmo a álcool?

Essa foi uma das muitas manifestações de espanto diante do Dodge Dart que andou quarenta quilômetros, ontem, pelas ruas da cidade. A inscrição Motor Dodge 100% Álcool, pintada no carro, chamava a atenção de todos. Pedestres olhavam, curiosos, e faziam comentários. Motoristas observavam e faziam perguntas das janelas de seus carros, esquecendo-se às vezes de verificar se sua fila já estava andando. Guardas de trânsito paravam seu trabalho para ver.

O percurso incluiu uma visita à oficina de Chico Landi, o velho piloto, que aos 69 anos é uma das grandes figuras do automobilismo brasileiro, o primeiro piloto a dar uma vitória à Ferrari num Grande Prêmio. Chico é um entusiasta pelo problema mecânico do álcool.

Antes de começar o passeio do Dart movido a álcool, o engenheiro Sérgio Beiancardi, da Chrysler, que acompanharia os jornalistas que testariam o carro, fez uma demonstração.

Mas seria assim tão diferente dos carros a gasolina?

— Não, é apenas um pouco diferente. A primeira diferença é na partida: não é preciso acelerar para o motor pegar logo.

O motor pegou na hora, de primeira. Para o passageiro, a única diferença notável é o maior silêncio e a suavidade deste motor, características que lhe são conferidas pela maior taxa de compressão (11,7:1).

O automóvel é absolutamente idêntico ao carro da série, um Dodge Dart, quatro portas, com câmbio de três marchas de comando na coluna da direção. O motor, sim, é bem diferente. Embora retenha a mesma capacidade de 5.200 cc em seus oito cilindros dispostos em V, a taxa de compressão foi aumentada significativamente com o uso de pistões de cabeça mais alta. Carburação, admissão e ignição foram também alterados para que o carro tivesse um desempenho muito semelhante ao do carro a gasolina com seus 198cv (SAE) de catálogo.

Em seu atual estágio de desenvolvimento — pouco haverá a fazer — o motor a álcool desenvolve 195cv (SAE) a 4.400 rpm, o que é considerado excelente. Que o digam os motoristas que olhavam para o carro, espantados com as perfeitas retomadas do Dart, mesmo largando de baixas velocidades.

Este motor requer o uso mais progressivo do acelerador, como se fosse (sem o ser) um motor “brabo”, com um comando de válvulas mais aberto. No entanto não se pense que se trata de um motor difícil em condições de trânsito difíceis. Embora este modelo tenha um câmbio de três marchas, com grandes diferenças de escalonamento, o carro tem uma dirigibilidade suave, graças, sobretudo, à elevada cilindrada que lhe confere uno torque muito bom.

Sob o aspecto de consumo, nesta curta viagem através da cidade ficou confirmada a informação dos engenheiros da marca. Num percurso de quase quarenta quilômetros, todo urbano, com tráfego intenso, o Dart fez aproximadamente 6 Km/l, o que é muito bom para um carro de seu tamanho.

— Mas, por que tanta polêmica em torno dos motores a álcool? — perguntou Chico Landi em sua oficina no Itaim. — No princípio da guerra, quando já havia racionamento, o governo proibiu uma corrida na Gávea. Mas, nós, nessa época, não ficamos parados. Resolvemos que a corrida seria mesmo realizada, mesmo que não fosse a gasolina. Foi então decidido organizar a prova a álcool. Como tudo foi tratado em cima da hora, foi mais fácil para mim usar uma fórmula de combustível já estudada pela Alfa Romeo — 85% de álcool, 5% de gasolina, 5% de éter de petróleo e 5% de acetona. No entanto como não podia gastar gasolina, substituía-se por benzol.

E o Alfa Romeo P2, de 3.200cc com 8 cilindros, e compressor, andou muito bem, lembra o velho piloto.

Chico Landi foi dos primeiros a aderir à idéia da realização, há dois meses, dos 500 milhas de Interlagos, totalmente a álcool, que seriam patrocinados pela Copersucar, mas não foram aprovados pelo governo. Orgulhoso de seu trabalho ele mostra aos engenheiros da Chrysler os pistões de liga de alumínio que mandara fazer na Metal Leve para aumentar a taxa de compressão de um Dart para 14:1.

— O álcool não tem qualquer problema para nós — diz o ex-piloto.

Mas Chico não se limita a ver um carro. Ele gosta mesmo é de dirigir, de ouvir o motor ganhar giros. Por isso dá uma volta à quadra, ora acelerando forte em segunda, ora engrenando a terceira marcha a baixa velocidade depois acelerando para sentir a flexibilidade do motor. Regressando, ele continua sentado ao volante do carro. Acelera o motor a regimes altos. Não encontra vibrações. Volta-se para Sérgio Beiancardi e dá-lhe os parabéns.

— Mas — repete ele — isto do álcool não é nenhum mistério. Eu Já fazia isto há muitos anos. Querem ver?

E levou todo o mundo para seu pequeno escritório, abriu uma gaveta de sua mesa e tirou um bloquinho velho com fórmulas que continuam sendo válidas. E mostrou a todos, orgulhoso, saudoso.

Outro pioneiro do automobilismo brasileiro, Eduardo Santalucia, com a mesma idade de Chico Landi, trabalha há quarenta anos na organização de provas desportivas. Ele conhece todos os carros. De todas as épocas.

— Este carro é mesmo a álcool? Ninguém diria. Parece igual ao de gasolina.

Eduardo não achara qualquer diferença no carro depois de andar meia dúzia de quilômetros na cidade. Ficou admirado com a potência do motor e com sua flexibilidade.

À nossa frente, Firmino Freire, que trabalha no departamento imobiliário de uma construtora. Vendo o Dart, ele tira a cabeça para fora de seu Corcel e pergunta. — Isso anda mesmo? Ainda bem.

Rui Araújo, um gerente bancário que passava pela Rua Tabapuã, apontou para o carro e mostrou-se também satisfeito com a concretização de um projeto que acha de grande interesse e que segue atentamente pela imprensa. Ele gostaria de ter dado uma volta no carro, mas já estava atrasado. Não era importante. Ele sabe que o álcool motor vai dar certo, disse, olhando de novo para o carro.

— Mas, vocês vão mesmo manter os pistões de alumínio? Não seria melhor usar pistões de ferro?

Chico Landi continuava interessado no assunto.

— E as partidas no inverno? Não vão aquecer a admissão? Eu penso em usar uma resistência. Sem isso vai ser difícil o motor pegar nas manhãs frias.

Não, que não haverá problema coma pistões de liga de alumínio. Que, sim, Chico estava previsto o aquecimento da mistura ao álcool para facilitar a partida com temperaturas baixas.

Tudo isto Sérgio Beiancardi garantiu. Ele é um profundo admirador de Chico Landi, a quem já encomendou, há tempos, um cabeçote para motor Dodge. Sérgio foi, inclusive, alue do Professor Stumpf, do Centro Tecnológico da Aeronáutica, na Faculdade Mauá. Ele também é, como não podia deixar de ser, um aluno de Stumpf, um apaixonado do problema do álcool.

— E o álcool quando vem? — pergunta Chico Landi.

JORNAL DA TARDE

Por 46 anos (de 4 de janeiro de 1966 a 31 de outubro de 2012) o Jornal da Tarde deixou sua marca na imprensa brasileira.

Neste blog são mostradas algumas das capas e páginas marcantes dessa publicação doGrupo Estadualque protagonizou uma história de inovações gráficas e de linguagem no jornalismo. Um exemplo é a históricacapa do menino chorandoapós a derrota da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1982, na Espanha.

ACERVO ESTADÃO

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Notícias Recentes