Malala: ‘Demorei para entender o que significa ser ativista. Achava que não podia ser amada’

Malala: ‘Demorei para entender o que significa ser ativista. Achava que não podia ser amada’

Foto: Tracy Nguyen/Divulgação

Malala YousafzaiAtivista

“Nunca saberei quem eu estava destinada a ser”. A frase que abre o livro No Meu Caminho, nova autobiografia da ativista paquistanesa Malala Yousafzai, resume bem: ao sobreviver a um atentado do Talibã aos 15 anos, perseguida apenas por defender seu direito de ir à escola, ela foi colocada em uma vida de discursos diante de câmeras, encontros com líderes mundiais e quase nenhuma privacidade. Ela tinha um futuro antes, e outro completamente diferente após o atentado.

Malala deixou o Paquistão para morar no Reino Unido (em 2012), foi laureada com o Nobel da Paz com apenas 17 anos (em 2014) e virou um exemplo e símbolo pela educação de jovens garotas em todo o mundo. Mas, enquanto isso, ela também era apenas uma adolescente tentando se encontrar em um novo país, uma nova escola, uma nova vida.

A garota por trás daquela imagem estoica – hoje uma mulher de 28 anos – é quem Malala quer apresentar em No Meu Caminho. No livro, ela revela algumas de suas histórias mais íntimas a partir do período em que ingressou na Universidade de Oxford (ela se formou em 2020 em Filosofia, Política e Economia), incluindo como experimentar maconha a levou a ter um ataque de pânico e então descobrir que sofria de ansiedade e estresse pós-traumático, e o início de seu romance com o atual marido, Asser Malik, com quem se casou em 2021.

Na conversa abaixo, editada para melhor clareza, Malala fala ao Estadão sobre o livro, sua relação com os pais e a apreensão com a repercussão no Paquistão, seu casamento, saúde mental, esperança e mais. Confira.

Algumas das coisas que você conta neste livro são muito vulneráveis. Isso foi difícil para você? Por que valia a pena se expor desta forma?

Foi definitivamente difícil considerar me abrir sobre tantas coisas pessoais, desde saúde mental até as dificuldades em fazer amigos na escola e como eu queria que minha vida fosse diferente a partir da faculdade. Decidi compartilhar essas reflexões no meu novo livro porque sabia que haveria alguns jovens, especialmente jovens mulheres, que poderiam estar passando pelo exato mesmo sentimento, que poderiam estar inseguros e navegando por decisões difíceis sobre amizade, amor, saúde mental. Espero que (o livro) possa chegar neles. Eu gostaria de ter tido livros como este que pudessem ter me ajudado, mas sei que nunca é tarde demais.

Você menciona muitas discussões com seus pais por conta do medo que eles têm sobre escândalos envolvendo a sua imagem no Paquistão. Você conversou com eles sobre o conteúdo do livro? Ficou nervosa com isso?

Sim, meus pais estão sempre preocupados com o que as pessoas vão dizer, especialmente na nossa comunidade no Paquistão. Nossa cultura é muito diferente da cultura do Reino Unido. Durante toda a minha vida, senti que as mulheres eram observadas: como se vestem, o que dizem. Até as mulheres que eram respeitadas e valorizadas como ativistas eram informadas de que são as embaixadoras desta marca cultural, que elas têm que atender às expectativas culturais. Meus pais, vez ou outra, me confrontaram sobre coisas que eram consideradas controversas na nossa comunidade no Paquistão, desde usar jeans ou meus comentários sobre simplesmente questionar o casamento a até mesmo decidir que tipo de fotos eu posto e quais roupas eu visto. Isso ainda continua. Eu entendo o ponto de vista deles, que cresceram em uma época muito diferente.

Minha mãe, especialmente, é mais sensível do que meu pai, em parte porque ela realmente viu como as mulheres eram tratadas por desobedecerem às expectativas culturais. Ela nunca quis colocar a filha dela em apuros. Sua intenção era garantir que sua filha não enfrentasse críticas e comentários maldosos e que a sociedade a respeitasse. Mas, ao mesmo tempo, eu a lembrava de que para nós não há esperança se apenas ficarmos em silêncio e desistirmos. Temos que viver nossa vida da maneira que queremos, seja na maneira de nos vestir, trabalhar ou na nossa vida amorosa. Todas essas coisas são parte da nossa libertação pessoal. Mas esta é uma conversa que minha mãe e eu temos o tempo todo. Às vezes, concordamos. Em outras, concordamos em discordar.

Temos que viver nossa vida da maneira que queremos, seja na maneira de nos vestir, trabalhar ou na nossa vida amorosa. Todas essas coisas são parte da nossa libertação pessoal.

Malala Yousafzai

Você sente medo das possíveis críticas que receberá com o lançamento do livro?

Vou ser sincera: é realmente difícil dizer qual será a reação, pois as críticas que enfrentei no passado foram tão inesperadas e ocorreram por coisas tão bobas e pequenas que nunca fez sentido para mim. Da história dos jeans até os comentários sobre casamento em um artigo da Vogue britânica, foram tão ridículos que eu pensei: ‘Ok, isso significa que você apenas nunca deve dizer nada e apagar-se da vida pública e remover sua existência’. Talvez essa seja a única opção restante, porque as pessoas criticarão até mesmo sua existência. Então, você tem que permanecer fiel a como você quer viver sua vida.

Quando o livro for lançado, espero que as pessoas realmente o leiam e entendam todas as coisas que estou compartilhando, que há uma razão pela qual estou contando essas histórias. Quando falo sobre o incidente com o bong pela primeira vez, estava preocupada que as pessoas pudessem transformar isso em toda uma história controversa, mas acho importante compartilhar isso porque pensei que seria uma noite divertida com meus amigos, mas tomou um rumo inesperado.

Tive uma experiência ruim naquela noite e o ataque que havia acontecido sete ou oito anos antes parecia estar se repetindo. Me senti congelada e perdi a noção da realidade ao meu redor. Estava com muito medo de fechar os olhos porque pensei que morreria. Achei que tinha esquecido o incidente e não me lembrava de nada, mas naquele momento parecia que eu tinha visto coisas horríveis.

Você simplesmente nunca sabe o que poderia disparar os flashbacks, o que poderia disparar o trauma. Então espero que isso ajude as pessoas. Eu espero que as pessoas leiam o livro antes de comentar.

Em um dos trechos do livro, você diz: ‘Fosse qual fosse a ideia fixa que eu fazia de mim mesma, por mais rígidos que fossem meus planos futuros — ficar solteira e dedicar a vida ao trabalho —, minha humanidade continuava se manifestando e me conduzindo em direção à conexão, à amizade e ao amor’. O que a palavra humanidade significa para você?

Quando falo sobre humanidade, falo sobre nós como uma única espécie. Nós nos dividimos em diferentes identidades e, na maior parte das vezes, porque não acreditamos que somos iguais. Acho que as identidades deviam ajudar uns aos outros a se conhecer mais e a ter essas culturas diversas e a viver em uma sociedade mais multicultural, mas aconteceu o contrário: as pessoas usaram a identidade para causar divisões, trazer ódio e causar dano na sociedade.

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Humanidade significa que nos voltamos contra essa narrativa de divisões e de desumanizações de outras pessoas e da opressão de certos grupos, especialmente mulheres e meninas, que nos lembramos de que somos todos um e precisamos ser tratados de forma justa e igualitária e todos merecemos as mesmas oportunidades na vida.

No final do livro, você fala muito sobre a situação no Afeganistão. Não só o mundo está muito assustador, mas parece que estamos vendo um aumento de líderes mundiais que têm uma política violenta em relação às mulheres. Com o seu trabalho, imagino que você não tenha escolha a não ser sentir esperança. Mas em que você se apoia para sentir esperança, para seguir em frente?

Eu admiro a resiliência e a coragem das próprias mulheres e meninas afegãs. Ninguém pode entender a dor melhor do que elas. Elas estão testemunhando a opressão sistemática sob o Talibã. Elas perderam todos os direitos. Uma menina afegã não pode ir à escola. Uma mulher afegã não pode trabalhar. Elas não podem estar no parlamento. Elas não têm representação política. Elas nem mesmo podem ir a um parque. Elas não podem nem ir ao médico se não estiverem acompanhadas por um membro masculino de sua própria família. Elas são apagadas da vida pública. E, apesar de todas essas injustiças que enfrentam, elas são resilientes. Elas estão lutando por seus direitos. Elas estão protestando nas ruas de Cabul. Elas estão defendendo seus direitos em palcos globais.

Precisamos apoiá-las e precisamos pedir aos líderes que ouçam as mulheres afegãs, para incluí-las nas salas onde as decisões sobre o futuro delas são feitas. Os direitos das mulheres e a educação das meninas têm que ser uma condição inegociável em qualquer conversa com o Talibã. Precisamos de mais pressão. Já demos tempo suficiente ao Talibã. Quatro anos é tempo suficiente. E o Talibã provou e nos mostrou que eles não estão reabrindo as escolas. Eles estão piorando a situação para as mulheres. Agora, eles estão até limitando a internet. Todos os dias, quando você olha, o Talibã está anunciando novas regras draconianas e ridículas sobre mulheres e meninas.

Precisamos que os líderes nos mostrem o que querem quando dizem que estão comprometidos com a igualdade de gênero, que são feministas e acreditam que as mulheres devem ter direitos iguais. Essas palavras não significam nada se, na realidade, você está falhando em fazer algo por mulheres que estão sendo oprimidas agora.

Palavras não significam nada se, na realidade, você está falhando em fazer algo por mulheres que estão sendo oprimidas.

Malala Yousafzai

Em uma entrevista internacional recente, um jornalista disse que as pessoas ainda te tratam como uma ideia. Como você se sente sobre isso? Você quer que esse livro mude isso?

Espero que mude porque, assim como todo mundo, eu não tenho resposta para tudo. Levei três anos para entender o que o casamento significa para mim. Demorei muito tempo para entender o que significa ser uma ativista pela educação de meninas quando você pode fazer uma mudança real acontecer.

Me tornei uma ativista tão jovem, me deram todos os prêmios e todos os títulos incríveis, sendo chamada de a garota mais corajosa, mais valente, mas não havia um caminho que me ajudasse a entender o que isso realmente significa. Eu estava sob a suposição de que isso significa que você não pode ter uma vida normal, você não pode ser amado, você não pode ter amigos, que você está destinado a estar neste mundo irreal de ativismo e que você, sozinho, pode fazer a mudança acontecer.

Mas essa é uma compreensão completamente errada do ativismo. Mesmo que você se autodenomine ativista 24 horas por dia, 7 dias por semana, a realidade é muito diferente em como você pode trazer mudança. Ela não acontece dando um discurso ou se juntando a um protesto. Ativismo é um compromisso para a vida toda.

Você precisa ser verdadeiro consigo mesmo, precisa cuidar de si também. Você precisa de bons amigos ao seu redor porque, quando você está feliz e saudável, você pode ser um ativista melhor. Você precisa de amor ao seu redor para ser um ativista melhor. Eu aprendi isso por meio de uma jornada difícil e longa.

Como você entendeu isso?

Especialmente a parte da saúde mental, quando comecei a ter flashbacks e ataques de pânico. Eu estava assustada, eu estava com medo, e não conseguia explicar isso. Eu sobrevivi a uma tentativa de assassinato do Talibã, estou desafiando o Talibã, não tenho medo de lutar essa missão.

Ainda assim, em meus momentos de solidão e quietude, eu estava tendo ataques de pânico. Pequenas coisas, até mesmo ver as palavras ‘assassinato’ ou ‘matar’, poderiam me assustar em um segundo. Mas isso me ajudou a repensar sobre como definimos coragem e bravura.

Eu não acho que seja uma definição verdadeira de coragem quando dizemos que uma pessoa nunca tem medo. Isso não é verdade. Acho que a verdadeira bravura e coragem é quando você passa pelos seus momentos mais fracos, quando você passa pelo medo, e ainda assim, continua sua luta, não desiste, você ainda se levanta. Isso para mim é a verdadeira coragem.

A verdadeira bravura e coragem é quando você passa pelos seus momentos mais fracos, quando você passa pelo medo, e ainda assim, continua sua luta.

O seu casamento também é um grande tópico no livro.

É, eu achava que o casamento causava tantos problemas. Vi minhas próprias primas e amigas casando quando tinham apenas 11 anos de idade. Tiveram filhos quando ainda eram crianças. Eu era tão contra o casamento, eu simplesmente pensava que a melhor maneira era nunca se casar, já que consertar essa instituição seria uma jornada completamente diferente.

Mas quando me apaixonei por Asser, percebi que para vivermos juntos na nossa cultura no Paquistão, teríamos que nos casar. Não podemos morar juntos sem casamento. Caso contrário, seria uma controvérsia completamente diferente. Eu não estava pronta para enfrentar essa luta. Não posso convencer meus pais. E eles também diziam que o casamento era o único caminho.

Ao mesmo tempo, eu tomei meu tempo, estava conversando com meus amigos e perguntando o que o casamento significava para eles. Comecei a ler muitos livros de autoras sobre casamento e como elas falam sobre a instituição, sua história, o patriarcado atrelado a ela, e como as mulheres estão recuperando essas tradições e redefinindo-as. No fim das contas, o mais importante era como meu marido e eu tínhamos um entendimento mútuo, semelhante, do que o casamento deveria ser. Eu me considero sortuda, mas nem todo marido vai ser um cara legal.

Quando as pessoas me perguntam sobre casamento, eu lembro a elas que não é porque agora estou casada que estou dizendo que toda garota deve considerar o casamento. Também não estou dizendo que casamento é uma coisa errada e ninguém deveria jamais se casar. Tudo o que estou dizendo é que devemos questionar essas tradições e essas instituições. Mulheres deveriam estar tendo essas conversas novamente para que, no fim das contas, seja sobre o respeito mútuo, tratar um ao outro com dignidade e ter uma vida mais feliz.

O que você aprendeu sobre si escrevendo o livro que as pessoas não necessariamente esperariam?

Ah, muitas coisas. Uma coisa que eu quero que as pessoas levem deste livro é que eu sou uma pessoa engraçada. Eu uso humor e piadas para viver uma vida que tem muitos altos e baixos e momentos difíceis. O humor realmente me ajudou. Ao mesmo tempo, eu falei abertamente sobre os momentos difíceis também porque eu queria ser honesta sobre como me sentia naqueles momentos.

Quando eu conto a história agora, eu faço piada sobre isso, mas na época eu estava me sentindo completamente diferente. Eu abri meus diários, conversei com meus amigos e me lembrava do que eu realmente sentia e compartilhei isso abertamente no livro. Eu espero que, se alguém está lutando ou passando por um momento difícil, saiba que não está sozinho. Acredito que sempre há um caminho a seguir. Espero que, por meio deste livro, mais pessoas encontrem seu caminho.

No Meu Caminho

  • Autora: Malala Yousafzai
  • Tradução: Berilo Vargas e Lígia Azevedo
  • Editora: Companhia das Letras (320 págs.; R$ 69,90 | E-book: R$ 29,90)

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