No último dia 3 de outubro, o governo federal publicou uma matéria que dizia que “pela primeira vez desde 2020, o avião superou o ônibus como meio de transporte mais usado em viagens pelo Brasil”. Como de praxe, fiquei curioso e chequei os dados. Já aviso que foi um pouco diferente…
A matéria é baseada no questionário anual da PNAD Contínua, que é mais detalhado que o questionário trimestral, e contém também um módulo com uma série de perguntas sobre turismo. O dado divulgado se refere ao item “Viagens realizadas pelos moradores dos domicílios no período de referência dos últimos três meses, por principal meio de transporte utilizado”. Notem que o número não se refere ao ano inteiro, mas apenas aos três meses mais recentes.
Meu primeiro estranhamento é terem considerado apenas o período a partir de 2020, já que este módulo está disponível desde 2019. Conceitualmente, considero inadequado analisar e/ou plotar uma série histórica de qualquer indicador começando na pandemia, o grande atípico dos últimos 100 anos. Mais correto seria considerar o ano inicial em 2019.

Movimentação de passageiros no Aeroporto Internacional de Guarulhos. Foto: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO
O segundo ponto que chama a atenção é que a matéria fala apenas em “ônibus” – que, a rigor, incluiria todos os subtipos de deslocamentos ônibus (de linha e fretado). Mas, ao checar os dados, vemos que, na verdade, se refere apenas às viagens em ônibus de linha.
Vejam no gráfico:
A omissão dos ônibus fretados acaba deixando a mensagem confusa.
Algo inusitado: pelos dados da PNAD, o número de viagens de avião foi maior que o de viagens de ônibus (de linha) já em 2023! Será que o governo federal não percebeu naquela ocasião e decidiu noticiar só agora, e dizendo que foi em 2024?
Aproveitando a oportunidade, decidi checar quais dados a ANAC e a ANTT disponibilizam sobre transporte de passageiros. Vejam só: para viagens interestaduais de longa distância, os passageiros de avião superam os de ônibus já há muito tempo, desde a década de 2000 (inclusive foi durante o segundo mandato de Lula).
Reparem que o total de passageiros por ano supera em muito o que é captado pela PNAD (já anualizando esta, pois os números representam um trimestre apenas). Por que? Não significa que o resultado da PNAD contínua é falso, mas o número baixo pode ser devido ao tipo de coleta de dados (questionário, que recorre à memória do entrevistado), algo muito menos preciso que a forma de coleta da ANAC e ANTT (por passagens emitidas). Se quisermos entender o fenômeno, é melhor recorrer à fonte mais exata.
Afinal, a postagem do governo pode ser classificada como desinformação?
Sim e não. Em português, infelizmente o termo não faz diferença entre a informação que é propositalmente falseada (que em inglês é o desinformação mesmo) e uma interpretação equivocada (que em inglês é desinformação). Me parece que este exemplo se encaixa no segundo caso (uma desinformação por imprecisão, mas sem dolo de falsear dados).
Alguns podem considerar que este é um excesso de preciosismo. Já eu considero que isto é necessário, sim, num tempo de tantos questionamentos sobre veracidade de relatos.
E aproveito para deixar aqui um dos meus mantras prediletos: “Mais rigor, por favor!”