Secos e Molhados: Novo documentário é mais uma vítima do mal que assola a história da música

Secos e Molhados: Novo documentário é mais uma vítima do mal que assola a história da música

O Canal Brasil estreia dia 31 de outubro a minissérie Primavera nos Dentes – A História do Secos & Molhados. Baseada no livro homônimo do jornalista Miguel de Almeida – que assina o roteiro e a direção do especial –, ela conta o nascimento, ascensão e dissolução de um dos maiores fenômenos do showbiz nacional.

Para quem passou os últimos 50 anos em Marte, eis uma explicação de alguém que, aos seis anos, tinha o pôster desses sujeitos na sala de casa. Formado por João Ricardo, Gerson Conrado e Ney Matogrossoó Secos & Molhados era uma combinação bem urdida de rock e folk, nas quais muitas letras eram saídas de poesia – que iam de Vinícius de Moraes e Manuel Bandeira a Solano Trindade e João Apolinário, pai de João Ricardo.

O toque especial era dado pelo rebolado e pela voz de contratenor de Ney, e as maquiagens que remetiam ao glam rock. Entre 1971 e 1974, o grupo lançou dois discos, emplacou canções como O Vira, Sangue latino, Fala, Flores Astrais e Rosa de Hiroximaentre outras, e se dissolveu por causa de problemas de gerenciamento financeiro.

Primavera nos Dentescontudo, padece de um mal que assola grande parte dos documentários: a recusa de um de seus personagens em embarcar no projeto. E que personagem… João Ricardo foi o mentor do grupo, seu principal compositor e detentor da marca. Ele não deu entrevista e não liberou suas criações para serem tocadas no episódio (como consolação, resta assistir a Secos & Molhadosdocumentário de 2021 dirigido por Otávio Juliano, no qual Ricardo dá sua versão para a história do grupo).

Juridicamente, o cantor e autor está correto. Eu até recorri a duas especialistas em direitos autorais para ver se haveria condições de burlar esse veto. Mariana Mello, consultora jurídica da Associação Brasileira de Música e Artes (Abramus), e Deborah Sztajnberg, membro efetivo da comissão de direitos autorais do Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB), são unânimes em explicar que o direito do autor é protegido por lei e que este pode vetar o uso de sua obra caso não concorde com seu conteúdo. Mas até onde a nossa história musical será brecada por um caminhão de mágoas?

Um dos maiores clichês a respeito de nosso País é que não temos memória. No caso dos documentários musicais, por exemplo, trata-se de uma vertente que ainda caminha a passos pequenos (louve-se, no entanto, a atuação do Em ediçãofestival de produções musicais do mundo inteiro e que tem aberto espaço para a criação brasileira).

Muitas vezes, nos deparamos com histórias contadas pela metade porque um ou mais envolvidos não quiseram colaborar com o projeto. É o caso de Sepultura Endurance (2017), com direção do mesmo Otávio Juliano do filme de João Ricardo. Max e Iggor Cavalera, respectivamente guitarrista e vocalista e baterista do grupo mineiro (além, claro, de fundadores) se recusaram a dar depoimentos e liberar suas músicas.

O que se tem é um jogo de empurra-empurra. Os Cavalera alegam que não tiveram acesso ao material filmado. Os outros remanescentes da formação clássica (Andreas Kisser, guitarrista, e Paulo Jr., baixista), além do próprio Juliano, sustentam que, na verdade, houve uma demora dos dois dissidentes em assistir ao que havia sido feito e para em seguida querer reeditar o filme à sua maneira.

A lambança prossegue. Histórias sobre o Clube da Esquina saem sem a participação de Milton Nascimento – uma ausência que nem sequer foi explicada. Rita Lee: Mania de Vocêbelo documentário sobre a primeira dama do rock brasileiro, omite a participação dela nos Mutantes simplesmente porque não houve interesse do guitarrista Sérgio Dias (que integrou o grupo ao lado do irmão, Arnaldo Baptista, e da própria Rita) em liberar as imagens do grupo e suas composições.

O caso de Renato Russo é ainda mais doloroso. Em 2021, Giuliano Manfredini, filho do líder da Legião Urbana, vetou um documentário a respeito do pai que seria veiculado pela Globoplay. E ele tem nada menos que um dos últimos registros de Elza Soares, morta em 2022: uma versão lancinante de Que País é Esserock emblemático do grupo brasiliense.

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O veto a documentários não é exatamente uma jabuticaba: há exemplos de produções internacionais paradas por causa de problemas com o documentado e seus herdeiros. A Netflix engavetou a história do cantor, compositor e multi instrumentista Prince e o produtor Pharrell Williams arquivou um especial biográfico que teria direção do francês Michel Gondry – de Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças. A solução, nesse caso, foi criar um outro especial, dirigido por Morgan Neville (que ganhou um Oscar de Melhor Documentário por 20 pés do estrelatode 2014), no qual a história de Williams é contada por figuras de Lego.

Primavera nos Dentespor seu turno, não traz figuras de Lego. Mas dá voz a co-protagonistas da história de sucesso dos Secos & Molhados. Caso do Willy Verdaguer (o autor da sinuosa linha de baixo de Sangue latinoque gruda no cerebelo do ouvinte) e o pianista Emílio Carreraque faziam parte da banda que dava apoio a João, Gerson e Ney.

Na falta das músicas originais, Verdaguer e Carrera criaram temas inspirados no repertório do trio, que podem até surgir como novas canções do conjunto. Primavera nos Dentes é uma história bem contada e que ajuda a compreender a razão do sucesso do grupo (mas vale muito a pena ler o livro de Miguel de Almeida, que traz depoimentos do queixoso).

Há, no entanto, algumas considerações. Muitas vezes, as revelações de Ney saem mais do fígado do que do cérebro – quando bate na tecla do modo grosseiro que João Ricardo tratava as pessoas. A segunda formação dos Secos & Molhados, de 1978, na qual Lili Rodrigues tentava emular a voz de Ney, também ganha uma dose de muxoxos e falas de desdém, embora tenha resultado num grande disco (além do primeiro solo de João Ricardo, de 1975, que trazia Roberto de Carvalho na guitarra). E é preciso parar de uma vez por todas com essa lenda urbana de que o quarteto americano de rock Kiss “roubou” a concepção de cantar maquiado dos Secos & Molhados. Tá vendo como você fez falta nesse documentário, João Ricardo?

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