O que é metanol? Bebidas alcoólicas adulteradas com a substância causaram mortes em SP
Utilizado na fabricação de tintas e vernizes, produto pode gerar sequelas graves e óbitos quando ingerido. Crédito: Amanda Botelho/Estadão e Motion Array
O Estado de São Paulo investiga cinco mortes e 15 casos de suspeita de contaminação com o metanol. O tratamento nesses casos pode ser feito com antídoto, hemodiálise, etanol puro e até vodca, apontam pesquisadores do Centro de Informação e Assistência Toxicológica (Ciatox) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
A Polícia Federal e autoridades paulistas investigam a venda de bebidas adulteradas com o metanol. O governo de São Paulo prevê fechar bares com suspeita de comercialização de produtos adulterados.
“O antídoto mais adequado é o fomepizol, mas ele ainda não está disponível no Brasil, aponta Camila Prado, pesquisadora do Ciatox.
“Nos casos mais graves, é necessária a hemodiálise, porque ela retira do sangue tanto o metanol quanto o ácido fórmico formado pelo metanol, que é a substância de fato tóxica para o organismo”, acrescenta a médica.
“O fomepizol é um antídoto considerado essencial pela Organização Mundial de Saúde. É muito mais fácil de ser utilizado. Não precisa fazer infusão contínua e o tempo de tratamento é mais curto”, afirma o médico Fábio Bucaretchi, coordenador associado do centro.
Segundo ele, a Sociedade de Toxicologia e a Associação Brasileira de Centros de Informação e Assistência Toxicológica já haviam solicitado, em conversas com o ministério, a aquisição de fomepizol antes da atual crise de bebidas adulteradas.
“Isso tem de ser uma urgência do Ministério da Saúde e da Secretaria da Saúde de São Paulo”, defende.

Polícia investiga a venda de bebidas adulteradas em bares de São Paulo; cinco pessoas morreram no Estado. Foto: Estoque de Pavel /Adobe
Sem o produto, a alternativa é o etanol puro por sonda ou infusão. “O etanol represa o metanol”, diz Bucaretchi. O álcool absoluto restringe a transformação de metanol em ácido fórmico. Mas quando já há ácido fórmico no paciente, é necessária a hemodiálise para retirá-lo do corpo, explicam.
Camila Prado ainda destaca que o álcool absoluto é só um adjuvante — ou seja, ajuda a aumentar a eficácia do tratamento. “Nesse meio tempo, os órgãos da pessoa estarão em sofrimento. Por isso, ela precisa ser hospitalizada na UTI”, alerta.
Na ausência de etanol puro: vodca
Especializado em casos de intoxicação, o Ciatox da Unicamp mantém em seu estoque quantidade de etanol puro suficiente para tratar ao menos dois casos graves de consumo de metanol, afirma Bucaretchi.
“Zeramos nosso estoque cedendo para os hospitais com casos de intoxicação.” Segundo ele, são necessárias, em média, 70 ampolas de 10 ml de etanol para tratar um paciente.
“Os profissionais de saúde têm de estar capacitados, tanto para diagnosticar quanto para tratar esses pacientes. Mas, principalmente, o Ministério da Saúde tem de preparar os hospitais para que esses pacientes tenham tratamento adequado, porque eles têm de ter recursos para isso”, avalia Camila.
Bucaretchi afirma que o álcool absoluto é produzido apenas em farmácias de manipulação. “Não é fácil encontrar. Só podem produzir farmácias cadastradas na Anvisa, que são poucas”, explica.
“Se o hospital não tiver, a alternativa realmente é usar um destilado por sonda”, aponta ele, explicando que se utiliza principalmente vodca nesses casos.
“Não é para ninguém se automedicar com vodca. Isso precisa ser feito no hospital em condições adequadas”, frisa Bucaretchi. É necessário fazer diluição adequada para cada paciente, conforme o peso e a presença de metanol no corpo.
“A quantidade de etanol é ajustada conforme a quantidade de metanol no sangue. Então, às vezes, precisa aumentar, às vezes, diminuir, para manter naquela faixa eficaz como antídoto. O tempo dessa infusão também vai variar de paciente para paciente”, completa Camila Prado.

O Centro de Informação e Assistência Toxicológica (Ciatox) do Hospital das Clínicas da Unicamp é responsável por analisar as amostras e confirmar se houve ingestão de metanol. Foto: Caius Lucius / HC Unicamp
“Nossa arma é o diagnóstico precoce”, disse o secretário estadual da Saúde, Eleuses Paiva. “O tratamento depende do estado em que a pessoa chega. Mas, inicialmente, o antídoto funciona de forma eficaz.”
O que é metanol?
Também chamado de álcool metílico, o metanol é um biocombustível altamente inflamável, que pode ser obtido por meio da destilação destrutiva de madeiras, processamento da cana-de-açúcar ou de gases de origem fóssil. Suas propriedades químicas são semelhantes ao etanol, mas com nível mais elevado de toxidade.
Utilizada como solvente em indústrias químicas, a substância também é aplicada para a fabricação de plásticos e para a produção de biodiesel e combustível.
A ingestão acidental ou intencional de metanol provoca intoxicações graves e pode levar à morte. De acordo com o governo, a adulteração de bebidas aumenta a gravidade da situação, já que, do ponto de vista de saúde pública, pode causar surtos epidêmicos com casos severos e alta taxa de letalidade.
Desde o sábado, 27, a Secretaria da Saúde de São Paulo recomendou que bares, restaurantes e locais que fazem a venda de bebidas chequem com atenção a procedência dos produtos oferecidos pelos fornecedores.
A pasta alerta ainda para que a população compre somente bebidas de fabricantes legalizados e que possuam rótulo, lacre de segurança e selo fiscal, evitando opções de origem duvidosa para prevenir casos de intoxicação que podem colocar a vida em risco.