Maria Bethânia faz show potente, com belezas e mazelas do Brasil

Maria Bethânia faz show potente, com belezas e mazelas do Brasil

Maria Bethâniapelo amor que tem ao seu ofício — é assim que ela gosta de chamar sua profissão de cantora —, jamais desperdiçou a oportunidade de estar em cena. Na turnê Maria Bethânia – 60 anos de Carreiraque ela apresentou em São Paulo pela primeira vez em São Paulo neste sábado, 4, não faz diferente.

Com sua arte moldada por grandes mestres do teatro brasileiro, como Augusto Boal, Fauzi Arap, Bibi Ferreira e Naum Alves de Souza, Bethânia, também diretora do show, costurou um roteiro que precisa ser observado em atos. É dessa forma que ela passa seu recado. E ainda tem muito a dizer. “Quero subir ao palco e falar sobre tudo o que me interessa”, disse ao Estadãoem junho deste ano.

Em um show comemorativo, muitos talvez esperassem que a cantora enfileirasse seus grandes sucessos, inclusive, Carcarádo emblemático e contestador show Opiniãomarco que ela utiliza para contar as seis décadas de atividade.

Seria um espetáculo fácil. Não para Bethânia. Ela prefere ainda o salto, o giro, as elevações e as inversões do trapézio – lugar onde, ainda menina, sonhou estar. Apoiada pelos músicos Jorge Helder (baixo e bandolim), Thiago Gomes (teclados e guitarra) e Pedro Guedes (teclados), que fazem a direção musical do show, Bethânia canta com sonoridade atualizada, mais próxima do que se viu na turnê Caetano & Bethâniamas com roteiro mais coeso, para poucos e não para muitos. É assim que a cantora sente que tem as rédeas em suas mãos.

O show de Maria Bethânia

No centro do primeiro ato, depois de reafirmar o prazer de estar no palco com Sete Mil Vezes (uma das grandes surpresas dessa turnê) e Canções e Momentosestá o espetáculo Para um jantar silenciosode 1974, dirigido por Arap. Naquele tempo, Bethânia provocou: “O que muda? A sua cena? Ou a cena está muda?” Eram anos difíceis para o País.

Bethânia, então, com canções como o sufocante protesto de Gonzaguinha em Gás Neon, alerta novamente, neste 2025: “Ai de quem mergulhar nesse mar de veneno/Nessa lama enfeitada, nesse sangue das taças”. Desse brinde, ela não participa.

Não à toa, emenda com o rock Podres Poderesde Caetano Veloso, que questiona “ridículos tiranos”, e Baioquede Chico Buarque, que fala sobre um canto seco, como o do sertão, capaz de abrir uma fenda no chão.

Copie por Clarice

Amparada pelo texto A queda do céude Davi Kopenawa e Bruce Albert, Bethânia mostra com outras duas canções, Ty e Kirimurêonde está sua rede de proteção – e ela a estende a todos que estão dispostos a não cair no buraco da ignorância. “Águas salgadas e mansas que mergulham dentro de mim”, diz trecho de Kirimurê.

Recorrendo, desta vez, a Clarice Lispector, com um fragmento de Água Vivaa dona da noite retorna à lembrança de Para um jantar silencioso ao cantar em sequência Encouraçado, Resposta, Demoníaca e Taturano, essa última, com melodia de Caetano para os versos do dramaturgo Chico de Assis – uma crítica à miséria física e intelectual do ser humano.

Em mais um salto, reafirma sua porção mulher com O Lado Quente do Ser para entrar em um bloco em que canta suas paixões e desejos ainda ardentes, com Olha e Cheiro de Amor. A novidade é o fado ligeiro Se Não Te Vejodo compositor português Pedro Abrunhosa, já bem acomodado na voz de Bethânia.

Após sair de cena para retornar com um adereço dourado por cima do figurino todo branco, Bethânia aparece quase didática ao cantar Tocando em Frentetoada de Almir Sater, que virou grande hit de carreira. Fala sobre seu canto e do Brasil no qual acredita, com mar, rios, matas e orixás.

Homenagem a Angela Ro Ro

E Bethânia se desnuda em cena como talvez nunca tenha feito antes. Relembra o samba Diz Que Fui Por Aído roteiro do show Opiniãodo boêmio que vai por aí a procura da amada. Vai dar em Mares da Espanhacomposição de Angela Ro Ro que nunca havia cantado. “Nem que eu caminhasse até o Leblon/Não iria encontrar/Você navegando os mares da Espanha/Tecendo pra outra seu corpo com manha”.

Mudanças em relação aos shows no RJ

Mas o fato é que Bethânia, após as duas canções de Ro Ro, no roteiro original do show, abria espaço para Mar e Luade Chico Buarque. A canção fala do amor entre duas mulheres, com um final trágico. A tensão é reforçada com a subsequente Balada do Lado Sem Luzque fala em subterrâneos, labirintos, mundo da sombras, cavenas escuras onde, por falta de opção e puro preconceito, não é permitido “viver feliz e cantar” – e onde muitos ainda precisam se esconder.

Já na segunda semana de apresentações no Rio, Bethânia trocou Mar e Lua por Olhos nos Olhostambém de Chico, sucesso em sua voz. Mesmo que a substituição tenha diluído em parte a intenção da sequência de músicas, ela está clara: a cantora fala sobre toda forma de amor, sem qualquer véu ou meias palavras que pode ter usado antes, no palco ou entrevistas.

Uma música de Rita Lee

Como boa “bruxa” que sempre foi, Rita Lee acertou em endereçar sua última letra inédita a Bethânia. Musicada por Roberto de Carvalho, Palavras de Rita vestiu muito bem na cantora. “Na velha que estou, menina”, delicia-se Bethânia diante do inevitável. Mas ela ainda é a senhora que carrrega a “lata” na cabeça de A Força na Cabeçaa canção seguinte no roteiro.

Antes do final, Bethânia sobe novamente a temperatura política do show ao cantar Vera Cruzsamba inédito de Xande de Pilares e Paulo César Feital que tem trecho que fala contra qualquer tipo de subserviência: “Chefe de outra pátria não induz quem vai me guiar”.

As quase duas horas na companhia de Bethânia fazem valer o Brasil – a quem ela chama de “pátrias de exus”, e verso da canção Vera Cruz.

Presença do presidente Lula no show de Bethânia

Na plateia desta noite estavam o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a primeira-dama, Janja da Silva, a ministra da Cultura, Margareth Menezes – a quem Bethânia chamou de “querida amiga” -, o ministro da Economia, Fernando Haddad (PT), e o ministro do Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso.

Antes de saudar “as ilustres presenças”, Bethânia disse ser grata a cada um dos espectadores, que louvou com música e apuro musical e cênico.

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