Museu de Ciências da Terra divulga descoberta do maior dinossauro do Brasil
Cientistas anunciaram uma nova espécie do animal, chamada deAustroposeidon magnificus, encontrada na década de 1950 mas que não havia sido analisada ainda. Crédito: TV Estadão | 05.10.2016
Um conjunto de ossos de saurópodes, como são chamados os dinossauros pescoçudos, encontrado no município de Ibirá, no interior de São Paulo, revela que a região favoreceu uma doença óssea mortal para esses animais.
Pesquisadores apoiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) encontraram em fósseis de seis indivíduos do Cretáceo, de cerca de 80 milhões de anos atrás, marcas de osteomielite, doença óssea que pode ser causada por bactérias, vírus, fungos ou protozoários.

Fósseis com marcas de doença óssea eram de saurópodes, da mesma ordem do Tambatitanis Foto: ilustração: Palaeotaku/Wikimmedia Commons
Os ossos não contêm sinais de regeneração, o que aponta que os animais morreram com a doença ainda em curso, provavelmente em decorrência dela. O estudo foi publicado na revista O registro anatômico.
“Existiam poucos achados de doenças infecciosas em saurópodes, o primeiro publicado recentemente. Os ossos que analisamos são muito próximos entre si no tempo e de um mesmo sítio paleontológico, o que sugere que a região ofereceu condições para que patógenos infectassem muitos indivíduos naquele período”, conta Tito Aureliano, primeiro autor do estudo e pesquisador da Universidade Regional do Cariri (Urca), no Crato, Ceará.
Uma das lesões ficou restrita à medula. Os outros ossos, também encontrados entre 2006 e 2023 no sítio Vaca Morta, contêm marcas de lesões que vão da medula até a parte externa.
As lesões têm textura esponjosa, que apontam vascularização da região e as diferencia de outras patologias que podem ser detectadas nos ossos, como osteossarcoma e neoplasia óssea, dois tipos de câncer que afetam esse tecido.

No osso fossilizado de cerca de 80 milhões de anos, as setas indicadas por BL apontam a lesão causada por osteomielite. HB é a parte não lesionada e MB é a medula óssea. Foto: Tito Aureliano et al./O registro anatômico
Não foram encontrados, ainda, sinais de cicatrização, quando o tecido ósseo perdido na lesão é substituído por um novo. No registro fóssil, esse sinal de regeneração é bastante comum em ossos atingidos por mordidas de outros dinossauros, por exemplo.
Répteis que morriam atolados
O estudo contou com apoio do Instituto de Estudos dos Hymenoptera Parasitoides da Região Sudeste Brasileira (IEHYPA-Sudeste), um Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) apoiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Fapesp.
No IEHYPA-Sudeste, coordenado por Angélica Maria Penteado Martins Dias, professora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), os pesquisadores analisaram os ossos por meio de microscópio eletrônico de varredura (SEM) e estereomicroscópio.
Três manifestações de osteomielite ainda desconhecidas foram identificadas nos fósseis. Um conjunto continha pequenas protrusões, elevações do osso ou “calombos”, em formato circular.
Outras protrusões tinham padrão semelhante ao de impressões digitais, num formato de elipse. Por fim, um terceiro conjunto tinha marcas redondas e largas maiores do que todas as outras. “Essas lesões podiam se conectar com músculos e pele e ficarem expostas, vertendo sangue ou pus”, explica Aureliano.
Não foi possível identificar quais eram exatamente os ossos analisados, apenas que um era uma costela e os outros eram da parte inferior dos membros, tanto de espécies pequenas quanto de gigantes. Também não foi possível identificar uma possível causa para as infecções.
Em trabalho publicado em 2021 na Pesquisa Cretáceaos pesquisadores haviam descrito o primeiro caso de infecção óssea causada por um parasita sanguíneo e que também resultou em osteomielite. Os ossos, naquele caso, eram de um pequeno saurópode, freguesiaencontrado no mesmo local dos fósseis analisados agora.
A região, conhecida como Formação São José do Rio Preto – por englobar municípios como o de mesmo nome –, tinha clima árido, com rios rasos e lentos, além de grandes poças de água parada. Nesses ambientes, muitos dinossauros ficavam atolados e morriam, gerando os fósseis.
“Esse ambiente provavelmente favoreceu patógenos, que podem ter sido transmitidos por mosquitos ou pela própria água que era ingerida pela fauna, que incluía dinossauros, tartarugas e animais similares aos crocodilos atuais”, diz Aureliano.
O autor aponta ainda que as evidências trazidas pelo estudo podem ser úteis tanto em futuros trabalhos de paleontologia como de arqueologia, ao apresentar as diferentes manifestações de uma mesma doença nos ossos e diferenciá-la de outras.