SAF, gramado sintético e cannoli: futebol raiz no Juventus resiste e abraça a modernidade

SAF, gramado sintético e cannoli: futebol raiz no Juventus resiste e abraça a modernidade

Quando o Juveum dos mais tradicionais clubes de São Paulo, oficializou sua SAF, houve torcedores que acreditavam ser o único caminho para o futebol se manter sustentável na Mooca. Por outro lado, também havia desconfiança sobre o futuro do clube quanto à modernização e manutenção de tradições.

Após pouco mais de 100 dias da nova gestão, o gramado do Estádio da Rua Javari virou sintético e as expectativas são pelas metas de retorno às elites paulista e nacional. O cannoli foi mantido, mas ganhou companhia de mais barracas de lanches. Os ingressos estão mais caros.

Tudo isso foi ouvido e visto pela reportagem do Estadão na arquibancada antes do empate entre Juventus e Linensepela Série A2 do Campeonato Paulista. A nova gestão quer mostrar ao torcedor que manterá tradições do clube e espera que o time já esteja na principal divisão paulista no próximo ano.

A mudança mais radical foi a instalação do gramado sintético, por acreditar-se que o campo natural não daria conta do volume de jogos e treinos. Foi preciso solicitar um “destombamento” do gramado, mantendo o restante do estádio como patrimônio histórico.

“O time está mais organizado. Eu acredito que o projeto é válido. Claro que, quando você vê o lado da torcida, o lado raiz, acho que o preço do ingresso, para uma comunidade da Mooca, ficou um pouco salgado”, disse André Francisco de Lima, que interrompeu seu comentário para comemorar o gol que abriu o placar para o Juventus, no que terminou em um empate por 2 a 2.

Ele percebe a mudança do “gramado raiz” para o artificial, mas considera ser bom para o futebol. “Eu acho que tudo tem prós e contras, só o tempo vai dizer o que foi bom e o que foi ruim. Mas: ‘Vai, Juventus’.”, finalizou.

Em 10 jogos, o Juventus fez 14 gols e sofreu 15. É um ponto destacado pelo torcedor Maurício Mantovani. “O time não está ainda… a defesa está tomando muito gols, mas acredito que, no decorrer do tempo, vai acertar. Vai se classificar”.

Para Mantovani, o Estádio da Rua Javari não teve grandes mudanças. “A tradição aqui é o alambrado, o cannoli de sempre. E é isso, a torcida sempre. A gente vem aqui até para conversar também, tem muitos amigos aqui. A tradição, acho que se manteve, sim”.

A visão é reiterada por Adilson Estevam de Melo. “Ah, eu acho que isso (virar SAF) não vai mudar muita coisa não. A tradição continua, O estádio continua tradicional. Eu acho que a tendência é melhorar”.

Mas há quem mantenha desconfianças. “A SAF prometeu mil coisas, mas assumiu muita burocrática. O elenco, no papel, é bom, mas, na prática, a gente não vê os jogadores tendo uma identificação com a torcida”, critica Juliana Costa.

“A gente espera que a SAF cumpra com o mínimo que prometeram, principalmente o acesso. Mas do jeito que esse elenco está indo, não sei. Vai dar sorte porque o futebol tem dessas coisas, né?”, completa.

Ela também critica o preço praticado no ingresso. Na partida que a reportagem do Estadão acompanhou, os valores variavam de R$ 60 (arquibancada) a R$ 90 (cadeira coberta).

Comparando os cinco primeiros jogos em cada do Juventus na A2 de 2025 e os cinco de 2026, é possível verificar as médias de público e arrecadação por partida. Ambas caíram, mas em proporções diferentes.

Em 2025, a média de público nos cinco primeiros jogos em casa foi de 1.612 torcedores. Em 2026, o número é de 1.384, 14% menor.

Já a média de arrecadação nas cinco primeiras partidas de 2025 foi R$ 49.639, enquanto, em 2026, o dado é de R$ 45.818, 7% menor.

Organizada se dissolve após Juventus virar SAF, e novas surgem

O Setor 2 era a maior torcida organizada do Juventus. Ela anunciou que não acompanharia mais o time após a efetivação da compra da SAF. “O Setor 2 não fará parte desta autodeclarada ‘nova fase’. A reconstrução só poderia vir por meio da institucionalidade do clube, o verdadeiro detentor dessa história, e não pela entrega do patrimônio a alguém que vai explorar a estética, com foco em buscar unicamente resultados financeiros”, disse o grupo, em nota.

No mesmo lugar, atrás de um dos gols no Estádio da Rua Javari, veio La Banda Grená. “A gente continua porque as cores do Juventus são as mesmas, o símbolo é o mesmo. Uma torcida não pode abandonar um clube porque ele foi vendido para uma empresa”, disse um integrante, que preferiu não se identificar.

O grupo é crítico à SAF, mas mantém-se fiel ao Juventus. O torcedor cita a situação do Vasco, que foi vendido à 777 Partners, mas, por crise financeira da empresa, voltou ao controle do clube associativo. “A torcida continua presente e atuando na arquibancada para que, se houver uma nova mudança, que estejamos aqui”, falou.

O que mais mudou e o que vem por aí na SAF do Juventus

Segundo pessoas da gestão da SAF ouvidas pela reportagem do Estadãoo objetivo é “mostrar para a Mooca o respeito ao futebol” e criar organicamente a confiança do torcedor com o clube.

O Estádio da Rua Javari será transformado em uma arena multiuso para receber também shows. A reforma vai manter a estrutura tombada como patrimônio histórico. O projeto envolve aumentar o estádio “para cima”, levando a capacidade de 3,8 mil a 15 mil lugares.

Outra mudança foi a reforma no alojamento das categorias de base. A SAF juventina ainda projeta criação de novos ambientes e serviços, como restaurantes temáticos, centro de fisioterapia, spa, academia e até um hotel para atletas.

O primeiro patrocínio foi fechado com a Pátria Cidadania, especializada em conduzir processos de dupla cidadania, com sedes no Brasil, Itália e Portugal e relação com herança cultural ítalo-brasileira.

O contrato contempla um ano de exposição na posição master da camisa de jogo e de treino, inserções no backdrop de entrevistas, placas no estádio, cotas de camisas oficiais, ingressos e ativações digitais nos canais do Juventus. Junto de mais acordos, o Juventus soma R$ 3 milhões em patrocínios.

No futebol, o clube terá foco na formação de atletas, com entendimento de que há apelo em estar no centro do País. Isso também é refletido em algumas contratações, esperando por retorno financeiro no futuro.

É o caso do atacante Elkin Muñoz, de 20 anos, contratado junto ao Emelec, do Equador. Ele tem três gols e é o artilheiro do time, junto de Paulinho e Maycon Douglas.

O elenco também foi formado para um “nível acima da A2″, com jogadores que disputavam competições nacionais em 2025. Alguns exemplos são Daniel Cruz e Madison, vindos, respectivamente, de Chapecoense e Remo, que subiram para a Série A do Brasileirão.

SAF teve processo polêmico e saída de parceira após escândalo na Faria Lima

A efetivação da transformação do futebol do Juventus em SAF foi a terceira tentativa desde 2022. Naquele ano, o grupo italiano Almaviva foi barrado. Em 2024, a mesma empresa e outras duas apresentaram novas propostas, também sem avanço. No ano passado, três novas propostas haviam sido inscritas.

Nas três ocasiões, houve protestos de torcedores contra à venda. O último processo teve acusações por parte de duas empresas interessadas sobre suposta falta de transparência. Integrantes do Conselho contrários à SAF acabaram temporariamente afastados por razões alheia ao tema.

O grupo Almaviva era um dos que, mais uma vez, tinha proposta pelo futebol do Juventus neste último processo. Outra oferta era da Total Player, do ex-jogador Paulo Jamelli. As duas se recusaram a apresentar suas ideias, em protesto ao que chamaram de “processo de cartas marcadas”.

Quem de terno a apresentou proposta foi a Contea Capital, na época, junto à Reag Capital Holding. O projeto previa R$ 20 milhões ao clube social e reforma da sede em até seis meses. O investimento no futebol pode chegar a R$ 480 milhões até 2035, a partir do desempenho esportivo.

O projeto tem ambição de recolocar o Juventus na elite do futebol paulista em 2027; na Série D, também em 2027; e, na Série A, já em 2035. A proposta ainda cita a disputa de um torneio internacional com a base em 2033.

Apesar de ter o nome da Reag, o projeto foi conduzido pela Contea, que tem os fundos da P&P Sport Management, que gere a SAF. A Reag, que, segundo a gestão, não tinha participação direta, deixou a parceria sem atuar de fato.

A saída se deu por causa dos desdobramentos da Operação Carbono Oculto. A gestora é investigada pela Polícia Federal por suspeita de lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC).

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