No último mês de dezembro, o Ministério da Saúde publicou a consolidação dos dados de mortalidade no Brasil em 2024. Com base nesses dados, eu encontrei algumas causas de óbito que tiveram um enorme aumento. O que está por trás disso? Devemos nos preocupar?

Causas mais frequentes de óbito, de modo geral, mantêm um padrão consistente ao longo do tempo. Foto: Alexandre Brum/Estadão
Considerando os 10 maiores aumentos (exceto doenças transmissíveis dos códigos CID-10 A00 a B99), temos algumas com 300, 500 ou até 600% de aumento. Por exemplo: transtorno de outros nervos cranianos, doença da polpa e dos tecidos periapicais e pneumoconiose. Mas algo que chama a atenção: em todos eles os números absolutos são baixos. São aumentos altos em cima de uma base baixa.
O mesmo ocorre quando consideramos as maiores quedas. Há casos de doenças que tiveram redução de mais de 80%, como transtornos dos órgãos genitais masculinos, deficiência de outras vitaminas do grupo B e linfadenite aguda. E, de novo, algo que apareceu nos maiores aumentos percentuais: a base sempre é pequena (5 a 15 óbitos em 2023).
Por outro lado, para as dez maiores causas de óbito em números absolutos, as variações são pequenas. Por exemplo, infarto agudo do miocárdio: 0% de variação entre 2023 e 2024. Para pneumonia, uma variação maior, de 19%, mas bem menor do que aquelas causas pequenas, com grande aumento percentual mencionadas anteriormente. Para outras doenças pulmonares, 15% de aumento; diabetes, 3% a menos. Quando a base é alta, as variações são menores.
E isto fica evidente também quando comparamos os gráficos com a série histórica. Considerando aqui os últimos 10 anos daquelas causas que tiveram o maior aumento em 2024, percebe-se que não existe um padrão. Há grandes aumentos e quedas o tempo todo.
Isto não acontece nas causas mais frequentes. Analisando o top 10 de causas em números absolutos, as variações são bem menores (mesmo considerando que para algumas houve variações positivas ou negativas atípicas em função da pandemia). De modo geral, elas mantêm um padrão consistente ao longo do tempo.
Um paralelo com algo do nosso dia a dia: os resultados de jogos de futebol (comparados com pontuações no basquete). No futebol, as pontuações são baixas. Um time faz um gol, dois gols, às vezes três. Mas é sempre uma base baixa. Mas as variações são altas: então, de um para dois gols é 100% a mais; se fez um gol num jogo e não fez nenhum no outro, é 100% a menos. Já no basquete, as pontuações são geralmente bem mais altas, de várias dezenas de pontos. Chegam a 100 pontos ou até mais. As variações que acontecem para um determinado time, de um jogo para o outro, tendem a ficar na ordem de 10 ou 20%, não muito mais que isto.
Em suma, quando você for defrontado com números muito chamativos de aumento de óbitos (com exceção de doenças transmissíveis, como influenza, dengue ou covid, que podem ter variações bruscas), pode ter certeza que é um dos dois casos: ou se refere a doenças muito raras, ou se refere a um período mais longo; não de um ano, mas sim de 5, 10 anos acumulados. Esta é uma maneira simples e rápida de checar a verossimilhança da informação.