O cérebro nunca para de mudar
O neurocientista Fernando Gomes fala da capacidade que esse órgão tem de passar por modificações da infância à velhice. Crédito: Dr. Fernando Gomes | TV Estadão
Feche os olhos e imagine um dinossauro rosa se equilibrando sobre uma bola verde. Para grande maioria das pessoas uma imagem clara e distinta do dinossauro aparecerá na sua mente. Aristóteles acreditava que essa imagem era vista por um terceiro olho, capaz de ver imagens de objetos internos da mesma maneira que nossos olhos observam objetos externos. E denominou essas imagens e o olho que as observa de fantasia. Vem daí a palavra fantasia.
Faz aproximadamente 20 anos que conversando, diversos cientistas descobriram que nem todos eles possuíam a capacidade de observar imagens internas. Aproximadamente 4% da população simplesmente não enxerga essas imagens ou as veem de maneira pouco clara ou descolorida. Essa característica foi denominada de afantasia. Como essas imagens aparecem de forma consciente, essa variabilidade tem chamado a atenção dos pesquisadores que se interessam pelo estudo da consciência.

Nem todo mundo consegue observar imagens formuladas com a imaginação Foto: Arndt Vladimir/Adobe Stock
Alguns anos atrás foi descoberto um método para identificar pessoas com afantasia que independe do relato subjetivo das pessoas. Em todos nós, quando cada olho é exposto a uma imagem diferente (olho esquerdo a listras verde e o direito a quadrados amarelos) o que aparece na nossa visão consciente é, de forma alternada, uma das imagens, depois a outra, listras ou quadrados. Elas não se misturam. Na maioria das pessoas que enxergam com o terceiro olho, se você tampa um olho, a imagem do terceiro olho (o dinossauro rosa por exemplo) se alterna com a imagem do outro olho (quadrados amarelos). Nas pessoas com afantasia só aparece a imagem do olho externo (quadrados amarelos). Esse método permite identificar facilmente as pessoas com afantasia e estudar suas peculiaridades.
Comparando grupos de pessoas com e sem fantasiaos cientistas descobriram que entre artistas visuais, como pintores por exemplo, existe uma maior porcentagem de pessoas com fantasia enquanto os afantasistas predominam em profissões em que o pensamento abstrato é dominante. Pessoas com afantasia também têm mais dificuldade de representar em desenhos precisamente o que viram em uma fotografia.
Quando os cientistas compararam o funcionamento do cérebro dessas pessoas usando ressonância magnética funcional (um método capaz de verificar que áreas estão ativadas ou desativadas durante uma atividade cerebral), descobriram que nos dois tipos de pessoas, as áreas do cérebro responsáveis pela criação de imagens são ativadas da mesma forma quando estimuladas. A diferença é que nas pessoas com afantasia essa imagem não chega ou não se apresenta na consciência. Um exemplo é fazer as pessoas ouvirem um latido de cachorro. Em ambas as pessoas a parte do córtex cerebral que representa imagens de cachorro é ativada, ambas as pessoas comunicam que é um latido de cachorro, mas somente nas pessoas com phantasia a imagem de um cachorro aparece na consciência. Os com afantasia identificam o cachorro, são capazes de lidar com a informação, mas a imagem não aparece, ficando no inconsciente.
O próximo passo é entender por que isso ocorre. E quando compreendermos o motivo teremos uma das primeiras evidências de como a consciência se forma no cérebro: uma das grandes questões em aberto na biologia.

Nem toda pessoa conseguirá formular, com a imaginação, a imagem de um dinossauro colorido sobre uma bola Foto: anatolir/Adobe Stock
Fora essas pequenas diferenças, pessoas com afantasia não apresentam nenhuma outra dificuldade mental ou na vida cotidiana. Por esse motivo, durante milênios, não foram identificadas. A afantasia é considerada parte da diversidade humana. Uma diferença na apresentação da consciência. Da mesma forma que cabelos lisos ou crespos fazem parte da nossa diversidade física. Se você é uma pessoa com afantasia, não se preocupe. E tem mais, a afantasia pode ser uma vantagem. Um cientista com afantasia comentou que tem menos dificuldade em ficar longe dos entes queridos pois suas imagens não ressurgem constantemente no seu cérebro. Pensando bem, eu preferiria que ao ouvir um latido de um cão agressivo, sua imagem não aparecesse na frente do meu terceiro olho. Talvez sem a distração da imagem eu tivesse menos medo e não ficasse paralisado.
Mais informações: As pessoas sem visão mental. Natureza 650:23 2026