Exercícios e alimentação são menos importantes para a longevidade do que acreditávamos

Uma boa notícia para quem não gosta de academia

Nós, ao contrário dos outros animais, aprendemos ainda crianças que um dia vamos morrer. E, com essa descoberta, vem a preocupação com a longevidade e os comportamentos que podem aumentar ou diminuir a duração de nossa vida.

Como qualquer outra característica de um ser vivo, a longevidade depende dos genes que herdamos de nossos pais, e do meio ambiente em que vivemos. Até hoje se acreditava que a longevidade era determinada principalmente pelo meio ambiente, responsável por algo entre 75% e 94% da nossa longevidade. Nossos genes seriam responsáveis por somente 6% a 25% do tempo que permanecemos vivos. Como mais de 75% da duração de nossa vida depende do meio ambiente, faz todo sentido controlar os efeitos do meio ambiente sobre nosso corpo. São esses resultados que forneceram a base científica para a procura de receitas de vida que levem a uma vida mais longa. Essas receitas incluem desde os antigos elixires da juventude, até as atuais receitas de exercícios e alimentação saudável.

A novidade é que um reexame dos estudos sobre a contribuição da genética e do meio ambiente para a longevidade elevou a contribuição da genética para mais de 50% e diminuiu a contribuição do meio ambiente para menos de 50%. Para entender essa mudança, precisamos entender os problemas nos estudos anteriores.

O método clássico para medir a contribuição dos fatores ambientais e genéticos consiste em comparar gêmeos univitelinos. Gêmeos idênticos possuem exatamente os mesmos genes e, portanto, qualquer diferença observada em um par de gêmeos é causada pelo meio ambiente.

O ideal é estudar pares de gêmeos separados no momento do nascimento. Se cada par de gêmeos morresse no mesmo momento, mesmo vivendo em ambientes diferentes, poderíamos concluir que o único fator que importa é a genética. Mas eles vivem tempos diferentes, mesmo possuindo os mesmos genes. Portanto podemos dizer que a causa dessa diferença é o ambiente de maneira geral (alimentação, educação, esporte etc.).

O principal problema encontrado pelos cientistas para estudar a longevidade usando grupos de gêmeos é o tempo que leva para executar e concluir o experimento. Você precisa recrutar um grande grupo de gêmeos univitelinos recém-nascidos e acompanhar a vida deles até que quase todos tenham morrido. E isso leva quase 100 anos. Os estudos que geraram os dados que temos hoje foram iniciados na Dinamarca, no fim do século 19, início do século 20.

No maior dos estudos, os gêmeos foram identificados entre 1886 e 1925. São 3.477 pares de gêmeos idênticos e 6.403 gêmeos distintos que foram acompanhados. Foi com esse estudo, e com quatro outros parecidos, que se concluiu que a contribuição dos genes para a longevidade era de 25%.

O problema é que esses estudos somente registraram a data da morte de cada uma dessas pessoas, mas não a causa. Esse fato faz com que a longevidade de pessoas que morreram de causas extrínsecas, que não têm relação com a genética ou o meio ambiente (assassinatos, atropelamentos, acidentes e doenças infecciosas), fossem incluídos na conta. Também foram incluídas pessoas que morreram na Primeira e na Segunda Guerra Mundial. Na verdade, essas causas externas deveriam ter sido excluídas. Com essa inclusão, a contribuição do meio ambiente foi superestimada.

O que foi feito agora foi corrigir os dados a partir das estatísticas de mortes extrínsecas que ocorreram na Dinamarca nesse período (mortalidade na guerra, por doenças infecciosas e acidentes). Com essa correção, que foi checada de diversas maneiras, os dados mostram que a genética contribui com um pouco mais de 50% e o ambiente um pouco menos que 50%. Um resultado semelhante aos obtidos com ratos e camundongos. Nas próximas décadas teremos os resultados de grupos de gêmeos agrupados depois da Segunda Guerra Mundial e se espera que esses novos dados confirmem o que foi descoberto agora.

Além de mostrar que a genética contribui mais do que imaginávamos, esses estudos exemplificam como é longo o processo usado para medir de maneira precisa os efeitos de modificações no meio ambiente sobre a longevidade. A grande maioria dos estudos demora quase 100 anos para chegarem a uma conclusão definitiva. Pense nisso quando estiver lendo uma matéria jornalística ou uma propaganda que afirma, por exemplo, que caminhar aumenta a longevidade em 10 anos. Medir com precisão um efeito como esse demora quase 50 anos.

Essa descoberta demonstra que a genética é mais importante do que imaginávamos na longevidade e, portanto, nossa expectativa de vida é menos influenciada por nossos hábitos do que acreditávamos. Mas, como 50% da nossa longevidade ainda é determinada por efeitos ambientais, é bom continuar a se exercitar, comer bem e cuidar do corpo. Não dá para relaxar.

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