
O escritor e filósofo italiano Umberto Eco, que antecipou a crise provocada pela desinformação – Foto: Oliver Mark/Creative Commons
Diz o ditado que “a ignorância é uma bênção”. Ou seja, saber pouco preservaria a tranquilidade, enquanto o conhecimento cobraria seu preço. Mas esse alívio é breve e seu custo é profundo. A boa informação pode incomodar, mas é ela que sustenta qualquer ideia de autonomia e responsabilidade social.
Na nossa sociedade online, onde a informação corre solta, essa máxima ganha contornos ainda mais perigosos, pois a ignorância vira matéria-prima para a desinformação em escala. Longe do benefício propagandeado, o poder de todos falarem o que quiserem, conferido pelas redes sociais, constrói a ignorância não pelo silêncio, mas por uma cacofonia ensurdecedora em que todos falam sem propriedade, e poucos estão dispostos a ouvir. É uma ilusão de liberdade que nos aprisiona.
Em 10 de junho de 2015, o escritor e filósofo italiano Umberto Eco disse que as redes sociais haviam dado voz a uma “legião de imbecis”, antes restrita a “um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade”. Afirmou ainda que “eles eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra que um Prêmio Nobel” e que “o drama da Internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”.
Na ocasião, eu o critiquei, pois sempre defendi que todos devem ter o direito de falar e que crescemos ao contrapor discordâncias. Cinco anos depois, pedi desculpas a ele publicamente.
Umberto Eco estava certo. Ele previu a implosão da sociedade pela desinformação.
Sua fala foi lembrada na quinta passada, no evento “O jornalismo entre a sobrevivência e a relevância”, no Instituto de Estudos Avançados da USP. “Essa função crítica que Eco antecipou, o jornal como mediador e intérprete da própria rede, torna-se ainda mais urgente no ambiente atual”, afirmou o jornalista e pesquisador Rodrigo Mesquita.
Eco não era contra a Internet. Para ele, a liberdade de expressão era um valor absoluto, mas ela se deteriora quando vira ruído. A imprensa ajuda, por outro lado, a impedir que o debate público seja nivelado por baixo. Ao contrário da lógica viral das redes, em que relevância é medida por engajamento, o jornalismo busca restabelecer a credibilidade, preservando a racionalidade do espaço público.
Criou-se o discurso de que, para combater a desinformação, basta conferir educação midiática às pessoas. Ela é essencial, mas achar que isso basta chega a ser perverso! Ao cidadão médio, envolto pela sedução dos algoritmos, infelizmente faltam muitas outras habilidades para escapar desse controle.
“Longe de configurar um debate enraizado em compromissos estruturais, o que se observa com frequência é sua redução a slogans convenientes, enunciados vazios que oscilam para o marketing de ocasião e gestos simbólicos de indignação estrategicamente calculados”, explicou a professora da PUC-SP Lucia Santaella.
A sociedade precisa encontrar meios para escapar da “ditadura dos imbecis da rede”. “Quando a gente pensa, a gente erra”, alertou o jornalista e professor da USP Eugenio Bucci. “O pensamento é uma atividade de risco”, concluiu. Portanto, é preciso romper com a “nova ignorância” e resgatar o propósito original da Internet de as pessoas crescerem com acesso à informação qualificada.
Com o avanço da inteligência artificial, esse desafio ganha ares geopolíticos. Estamos no meio do embate entre a China, que estatiza a tecnologia, e os EUA, que privatizam a democracia com as big techs.
Dependemos de instituições que sustentem uma esfera pública funcional e limitem o poder do Estado e do mercado. Como antecipou Eco, o jornalismo precisa retomar seu objetivo de mediação cognitiva para equilibrar a autonomia humana em um ambiente algorítmico.
Em um mundo cada vez mais dominado pela inteligência artificial, nosso desafio civilizatório é garantir que as máquinas que aprendem a falar não destruam nossa capacidade de ouvir e de entender.
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