Como é usual, todo início de ano tentamos enxergar o que nos espera ao longo dos próximos meses. Uns com visões mais otimistas, outros pintando um quadro com cores mais escuras. Mas, algo é comum – a nossa percepção nem sempre corresponde aos fatos e dados, principalmente num mundo digital em que as notícias falsas correm à solta.
Para 2026, nós vamos ter que prestar muito maior atenção nesse aspecto. Se, de um lado, EUA e Europa discutem acessibilidade, de outro, o Brasil deve falar de carestia e segurança. Em todos os casos, a sensação de crise avança mais rápido que os indicadores.

No caso brasileiro, questão da segurança é um dos principais problemas percebidos pelos eleitores, disputando com temas como saúde e economia Foto: Foto Tiago Queiroz/Estadão
A mídia internacional e analistas têm discutido a ideia de que há a percepção pública de uma “crise de custo de vida”, mas os números contam uma história; as pessoas no geral e os políticos contam outra. Nas economias avançadas, a ideia de uma crise de “acessibilidade” se espalha apesar de sinais objetivos de estabilidade. No Brasil, o mesmo descompasso se repete: o termo “carestia” volta à moda e a segurança pública domina as preocupações, mesmo com avanços pontuais.
O resultado é um cenário em que a percepção de deterioração supera a realidade mensurável, moldando discursos eleitorais e reorganizando prioridades públicas. Mas, por que a vida parece mais cara do que os números sugerem? O fato é que a inflação desacelera, mas os preços não descem. O dado melhora, o bolso não. O índice oficial nem sempre capta essa mudança do peso no orçamento. É por isso que a sensação de crise é maior que o indicador.
Isso tem implicações políticas poderosas — especialmente em anos eleitorais — porque a economia sentida (pelo cidadão) pesa mais no voto do que a economia medida pelas estatísticas. Políticos amplificam a narrativa porque ela funciona eleitoralmente e, sem dúvida, moldará as eleições em 2026 na União Europeia, nos Estados Unidos e no Brasil.
No entanto, no caso brasileiro, a questão da segurança é um dos principais problemas percebidos pelos eleitores, disputando com temas como saúde e economia. Nesse cenário, não importa apenas o dado; importa o ambiente emocional no qual esse dado é lido. E isso que torna “incerteza” a palavra-chave oculta do debate — no Brasil e no mundo.
Insegurança e carestia são duas faces da mesma experiência emocional: o medo. O maior risco para o eleitor não é ignorar a carestia ou a insegurança — elas são reais e precisam ser enfrentadas. O risco está em quem transforma essas dificuldades em instrumento de manipulação.
A democracia enfraquece não quando reconhecemos nossos problemas, mas quando deixamos que o medo determine as respostas. O cuidado que devemos ter é quando a insegurança real do cidadão vira combustível político. A política deixa de enfrentar problemas e passa a explorá-los.