O que vento forte em SP (acompanhado de apagão) tem a ver com degelo da Antártida

O que vento forte em SP (acompanhado de apagão) tem a ver com degelo da Antártida

Moradores relatam transtornos causados por falta de luz em São Paulo

Há relatos de munícipes há 24 horas sem energia; abastecimento de água também foi afetado. Crédito: Andresa Bernardo da Silva Miguel e Danilo Gouveia Garcia

A redução do gelo marinho na Antártida no último ano está diretamente relacionada à intensidade do ciclone extratropical que atingiu a Grande São Paulo na quarta-feira, 10, quando a região registrou o maior vendaval de sua história. A velocidade alcançada pelos ventos – 98km/h na zona oeste – nunca tinha sido aferida pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) desde o início das medições, em 1963.

A relação direta entre a redução da área congelada do mar antártico e o intenso vendaval que paralisou São Paulo revela como o sistema climático planetário é totalmente interligado; e, como, por conta disso, o aquecimento global nunca é localizado. A alta da temperatura do planeta provocar eventos extremos nos mais diversos – e aparentemente improváveis — pontos do planeta.

“De três a cinco anos para cá, temos observado que o mar congelado em volta da Antártida é menor do que o esperado, tanto no verão quanto no inverno”, explica Francisco Aquino, chefe do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

“Alguns trabalhos que fizemos recentemente revelaram que a redução do gelo marinho interfere na circulação atmosférica, favorecendo a formação de ciclones extratropicais do Sul para o Sudeste, sobre o continente”, acrescenta o climatologista.

O aumento da temperatura dos oceanos eleva a evaporação da água, aumentando a umidade na atmosfera e, portanto, o volume de chuvas, que estão por trás da formação dos ciclones. Do encontro de uma frente de ar frio com uma frente de ar quente, se formam ciclones extratropicais.

Ocorre que nesta época do ano, em que já estamos praticamente no verão, as frentes quentes do continente estão ainda mais quentes (do que no inverno, época em que os ciclones são mais comuns).

Quando encontram as frentes frias vindas da Antártida ainda mais carregadas de chuvas, a intensidade do fenômeno formado é maior. Foi o que aconteceu nesta quarta-feira, 10, em São Paulo.

“Esse ciclone tem algumas características atípicas”, continua o climatologista. “Ele se formou sobre o continente nesse fim da primavera, com uma massa de ar frio avançando do Sul para o Norte no Brasil, o que é mais normal no inverno. Nesta época do ano, o contraste (da frente fria com a quente) é ainda maior.”

Segundo os especialistas, os ciclones extratropicais são muito comuns. Porém, em mais de 90% dos casos eles se formam no oceano e, por lá, se dissipam. Em geral, também não são muito intensos. Entretanto, dizem, ciclones sobre o continente e com a intensidade vista nesta semana em São Paulo são muito raros.

“Este tipo de ciclone como esse de agora (mais intenso e sobre o continente) aumentou nos últimos 40 anos. Isso é consenso”, afirmou o coordenador geral de Operações e Modelagem do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Marcelo Seluchi.

“Isso faz todo o sentido porque há dois elementos que contribuem para intensidade dos ciclones e que estão diretamente relacionados às mudanças climáticas: o aumento da temperatura dos oceanos (que gera mais evaporação e mais chuva) e o aumento da temperatura do ar (que provoca o aumento da umidade).”

O aumento das chuvas e da umidade são os principais combustíveis para a formação dos ciclones. Por isso, segundo Seluchi, “temos e continuaremos tendo ciclones desse tipo com mais frequência”.

“Não conseguimos dizer que tudo o que está acontecendo é resultado direto da mudança do clima, mas é preciso admitir que um oceano e uma atmosfera mais quentes geram mais eventos extremos. E o planeta mais quente favorece a intensificação dos eventos extremos”, diz o climatologista Francisco Aquino.

“O aumento da intensidade dos ciclones nos últimos 30 a 40 anos está diretamente associado ao aumento da temperatura do planeta. A circulação atmosférica ganha intensidade, a velocidade ajuda na gênese dos ciclones.”

A climatologista Karina Lima, diretora científica do comitê nacional da Associação de Pesquisadores Polares em Início de Carreira (Apecs-Brasil), lembra que a maior frequência de eventos extremos gera desastres em cascata. Em São Paulo, houve queda de árvores, corte de energia, danos materiais, cancelamento de voos.

“Eventos severos ou extremos, junto das vulnerabilidades locais, são os deflagradores de desastres”, afirma a climatologista.

“É essencial que haja ambição e cumprimento de medidas mitigatórias para rápida redução das emissões de gás carbônico (principal causador do aquecimento global)pois só assim será possível zerá-las o quanto antes. E é também essencial que, ao mesmo tempo, as medidas de adaptação venham sendo implementadas para aumentar nossa resiliência”, diz a pesquisadora.

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