Rotundo, terrestre e destemido diante dos humanos, o famoso pássaro dodô tornou-se um ícone da extinção quando desapareceu da ilha Maurício e da Terra no século XVII, logo após os colonizadores holandeses terem encontrado a ave pela primeira vez.
Agora, ornitólogos brasileiros afirmam ter descoberto um análogo do dodô na remota Amazônia: a tinamu-de-máscara-ardósia, uma ave semelhante a uma galinha que demonstra total ausência de medo das pessoas. Os pesquisadores estão analisando o desaparecimento do dodô para evitar que a tinamu tenha um destino semelhante.

Tinamu-de-máscara-ardósia foi descoberta recentemente na Serra do Divisor. Foto: Luis Morais/Universidade Federal do Rio de Janeiro
A comparação com o dodô foi “cientificamente precisa”, disse Luis Morais, doutorando em zoologia pelo Museu Nacional do Rio de Janeiro e principal autor do artigo que anuncia a descoberta, publicado na revista Zootaxa. “O comportamento da ave reflete relatos históricos do dodô extinto, e seu risco de extinção é igualmente real.”
Descoberta nas remotas montanhas da Serra do Divisor, no oeste do Brasil, a tinamu-de-máscara-ardósia tem aparência, canto e comportamento muito diferentes de qualquer parente conhecido. A maioria das tinamus são aves tímidas e crípticas, com coloração que lhes permite se camuflar no ambiente. A tinamu-de-máscara-ardósia, por outro lado, é adornada com uma plumagem viva de cor canela-ruiva com uma faixa escura sobre os olhos, daí o “máscara” em seu nome.
O mais incomum é seu comportamento despreocupado. A equipe de Morais passou três anos tentando avistar a ave, depois de detectá-la pela primeira vez em outubro de 2021, no Acre. Mas, uma vez revelada, ela parecia notavelmente dócil, vagando calmamente pelo sub-bosque da floresta e sem mostrar aversão à presença humana. Os pesquisadores ficaram surpresos quando aves individuais se aproximaram deles em várias ocasiões.
Suas vocalizações são igualmente bizarras: chamados longos e assustadores que se difundem pela floresta de forma tão completa que confundem a sensação de distância e direção do ouvinte. Os tinamus tendem a empregar assobios, pios e trinados simples, repetitivos e às vezes melancólicos. Mas a voz complexa do tinamu-de-máscara-ardósia aumenta em frequência, crescendo como um pianista trabalhando uma escala, um passo cuidadoso de cada vez.
“Este pássaro tem uma aparência totalmente maluca e é um cantor de ópera”, disse Diego Calderón-Franco, biólogo colombiano e especialista em aves neotropicais, acrescentando um adjetivo colorido para dar ênfase. Calderón-Franco não participou da pesquisa, mas revisou suas descobertas, incluindo as gravações de áudio, antes da publicação. “Ela tem uma voz como nenhuma outra, uma voz que ganha energia à medida que canta e ecoa por todas as paredes dos vales onde vive.”
Seu nome científico, Ressonância de Tinamurefere-se ao eco impressionante e à acústica desorientadora de seu canto. Acredita-se que a ave seja a primeira nova espécie de tinamu da floresta descoberta em 75 anos.
“Alguém encontrar um tinamu totalmente novo em campo é simplesmente absurdo”, disse Calderón-Franco. “O fato de essa ave ter se escondido em um cantinho remoto do Brasil por tanto tempo é impressionante.”
Assim como o dodô, o tinamu-de-máscara-ardósia vive em uma espécie de ilha: toda a sua área de distribuição conhecida se limita a uma estreita faixa de altitude na Serra do Divisor, uma cordilheira isolada na fronteira entre o Brasil e o Peru. Essa região remota e pouco conhecida, a extensão mais oriental dos Andes, funciona como uma “ilha celeste” ecológica cercada pelas planícies amazônicas, com picos de 800 metros de altura e plantas e animais distintos que ocupam nichos estreitos e microhabitats.

Esqueleto e reconstrução de um dodô no Museu de História Natural de Oxford, na Inglaterra. Foto: BazzaDaRambler/Museu de História Natural da Universidade de Oxford
Outras cinco pequenas tinamus florestais estão presentes na Serra do Divisor, mas nenhuma vive em altitudes mais elevadas. A tinamu-de-máscara-ardósia foi detectada exclusivamente acima de 300 metros. A faixa de altitude restrita coloca a ave em uma situação ecológica delicada, extremamente vulnerável às crescentes pressões externas, disse Morais.
Analogias à parte, a tinamu-de-máscara-ardósia não tem nenhuma relação evolutiva significativa com o dodô. (O dodô era mais próximo dos pombos e das rolas.) Mas as semelhanças — viver no solo, ser ingênua em relação aos humanos como predadores em potencial — são impressionantes e preocupantes, disse Morais. Sua população total é estimada em 2.000 indivíduos.
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“A área é quase desabitada e praticamente intacta, mas a sobrevivência a longo prazo da espécie está longe de ser garantida”, disse Morais. “Espécies restritas a faixas de altitude restritas são altamente sensíveis às mudanças climáticas.”
As florestas montanhosas são como prédios de apartamentos, com diferentes animais habitando diferentes andares, e as espécies muitas vezes sobem para altitudes mais elevadas à medida que as temperaturas aumentam. As espécies que chegam ao topo não têm para onde ir — um fenômeno que os cientistas chamam de “escada rolante para a extinção”.
A tinamu-de-máscara-ardósia reside no que é efetivamente o último andar da Serra do Divisor. Como tal, as mudanças no uso da terra e as atividades humanas representam um grande risco, disse Morais. O fogo é um perigo particular. As florestas da Serra do Divisor situam-se em solos antigos de arenito, onde um único incêndio poderia apagar milhares de anos de habitat.
Outras potenciais ameaças humanas incluem a construção de uma rodovia proposta entre o Brasil e o Peru, bem como um projeto ferroviário transcontinental que, segundo ambientalistas, aceleraria a destruição da Amazônia. Atualmente, a área abrange o quarto maior parque nacional do Brasil, mas o governo brasileiro tem considerado enfraquecer seu status de proteção para permitir uma maior exploração econômica da região, e a legislação poderia abrir a Serra do Divisor para a mineração.
“Tudo isso me faz pensar que a espécie não terá um futuro fácil”, disse Morais. “Estamos trabalhando duro para garantir que ela seja reconhecida antes que essas políticas avancem ainda mais.”
Diego Mendes, analista ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação e Biodiversidade (ICMBio), órgão governamental responsável pela conservação de espécies no Brasil, disse que a agência realizou monitoramento contínuo e ações de fiscalização na área. Os esforços da agência para controlar atividades ilegais ajudaram a reduzir o desmatamento na região em mais de 11% em 2025, disse ele.
Em dezembro, a equipe de Morais se reunirá com o ICMBio para determinar o status oficial da tinamu-de-máscara-ardósia e discutir sua conservação.
“As ações de mitigação serão definidas com base em evidências científicas obtidas em estudos em andamento e na avaliação do risco de extinção”, disse Mendes em um e-mail. “A espécie requer mais estudos sobre sua distribuição e ecologia, que servirão de base para definir ações de mitigação e conservação.”
Reportagem publicada originalmente no O jornal New York Times
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