Do ‘vira-lata caramelo’ ao pedigree: quando as raças de cachorro ficaram tão diferentes?

Do ‘vira-lata caramelo’ ao pedigree: quando as raças de cachorro ficaram tão diferentes?

Cachorros existem nos mais variados formatos e tamanhos. Do pequeníssimo chihuahua ao gigante dogue alemão, passando pelos esquisitíssimos pug e salsicha (o dachshund), entre tantos outros, as raças da atualidade são as mais diversas possíveis. Mas quando toda essa diversidade canina teria começado? Um novo estudo revela que foi há milênios, muito antes das práticas mais recentes de procriação.

Cientistas examinaram 643 crânios de cachorros domesticados e de seus ancestrais, os lobos, alguns com mais de 50 mil anos de idade. Segundo os especialistas, o início da diversidade física canina ocorreu há pelo menos 11 mil anos, quando terminava a última Idade do Gelo. As descobertas contradizem a ideia de que tamanha diversidade seria um fenômeno relativamente recente, derivado da procriação seletiva adotada nos últimos séculos.

“Tradicionalmente, acreditava-se que as grandes diversificações morfológicas, especialmente relacionadas a tamanhos e formatos de crânios, teriam ocorrido somente nos últimos séculos, acompanhando o surgimento formal das raças caninas, nos séculos XVIII e XIX”, afirmou o bioarqueólogo Allowen Evin, da Universidade de Montpellier, na França, coautor do novo trabalho, publicado na revista Ciência. “Nosso estudo constatou que, na verdade, a diversificação dos crânios já estava muito bem estabelecida na pré-história.”

De fato, uma significativa variação no tamanho e formato dos crânios dos cachorros domesticados começou a surgir logo depois que os cães divergiram de seus ancestrais, os lobos. Os cientistas basearam suas descobertas em análises tridimensionais de modelos de crânios de 158 cachorros modernos, 86 lobos modernos, 281 cachorros ancestrais e 118 lobos ancestrais.

Eles identificaram “morfologias caninas específicas” há 11 mil anos, em crânios encontrados em um sítio arqueológico no vilarejo de Veretye, na Rússia.

“Durante a domesticação, os crânios dos cachorros se tornaram, proporcionalmente, mais curtos e mais largos do que os dos lobos”, explicou o bioarqueólogo Carly Ameen, também coautor do estudo, da Universidade de Exeter, na Inglaterra. “Embora não tenhamos observado as morfologias extremas das raças atuais, cachorros do mesolítico e do neolítico já apresentavam pelo menos metade da diversidade craniana presente nos cães modernos”, afirmou Ameen, referindo-se aos últimos períodos da Idade da Pedra. “Esses animais viviam na Eurásia e já refletiam diversificações relacionadas a diferentes contextos ecológicos e culturais.”

O cachorro é descendente direto de uma população de lobos ancestrais diferente da dos lobos modernos. Trata-se do primeiro animal domesticado pelo homem. Cabras, ovelhas, vacas e gatos, por exemplo, foram domesticados posteriormente.

“A noção de raça é muito recente e não se aplica aos registros arqueológicos. Como só analisamos a morfologia dos crânios, nos falta informação sobre a cor da pelagem, o tamanho do corpo e o comportamento. Por isso, não podemos identificar raças específicas”, afirmou Ameen. “Entretanto, não observamos morfologias extremas, como as que vemos hoje nos pugs, nos bulldogs ou nos bull terrier.”

O exato momento e o lugar onde a domesticação dos cachorros começou ainda permanece desconhecido. Mas não há dúvidas da importância dos cães para os seres humanos há milênios. Os cachorros têm sido, nas palavras de Evin, “parceiros multifuncionais”.

“Para além de suas funções utilitárias, os cachorros têm profundo significado simbólico e social de companheiros, mediadores e marcadores de identidade”, afirmou Evin. “Os registros arqueológicos refletem tanto as utilitárias quanto as simbólicas, revelando que os cães estão totalmente integrados às sociedades humanas há milênios.”

“Ao longo de milênios, os humanos selecionaram os cães para diferentes funções utilitárias, como caçar, pastorear, proteger e puxar trenós, o que acabou resultando em diferenças morfológicas substanciais. Nos últimos séculos, estética e status, juntamente com a criação de kennel clubs, intensificaram e formalizaram tais diferenças em raças distintas”, concluiu Evin.

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