Garry Kasparov: ‘Estamos terceirizando a inteligência e perdendo a intuição’
Crédito: Leonardo Catto/Estadão
Foto: Lennart Ootes/Grand Chess TourGarry KasparovGrande Mestre, ex-campeão mundial de xadrez e ativista político
Calma, a inteligência artificial não vai nos dominar e se tornar um terror. Essa é uma das ideias de Garry Kasparov, Grande Mestre, ex-campeão mundial de xadrez e ativista político.
Ele explanou sua visão em conversa com o Estadão, com a propriedade de quem, há 30 anos, foi derrotado no tabuleiro por uma máquina, o Deep Blue. Três décadas depois, Kasparov reconhece, sim, a superioridade da tecnologia.
“As máquinas sempre tiveram um papel no progresso humano, desde sabe-se lá quando. Nos tornaram mais fortes, mais rápidos. Acho que as máquinas nos tornarão mais inteligentes. É um processo natural”, diz. “Mas e daí? Os melhores velocistas também não competem com uma Ferrari”, questiona.

Garry Kasparov no Grand Chess Tour 2025, em São Paulo. Evento ocorre pela primeira vez na América Latina. Foto: Lennart Ootes/Grand Chess Tour
Com uma visão que até pode ser chamada de otimista, Kasparov alerta para o papel da humanidade em solucionar problemas, no sentido de não perder o lado humano na criatividade e avaliação.
“O lado negativo: estamos perdendo a capacidade de confiar na intuição. O desafio é como aproveitar a força bruta das máquinas sem perder nossa habilidade única de avaliar e reconhecer padrões de forma diferente delas“, pontua.
No Brasil para o Grand Chess Tour, que vai até dia 3 de outubro, em São Paulo, Kasparov conversou com a reportagem do Estadão sobre o desenvolvimento do xadrez e a expansão do circuito (que está pela primeira vez na América Latina).
Candidato contra Putin para a presidência russa em 2008, embora depois tenha desistido, o ativista analisa também a geopolítica global, da Guerra na Ucrânia até críticas ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Kasparov é considerado por muitos o maior enxadrista de todos os tempos. Foto: Lennart Ootes/Grand Chess Tour
Por que o Grand Chess Tour demorou 10 anos para vir à América Latina?
Um evento é organizado por pessoas que precisam de patrocinadores, que têm certos interesses; Era muito natural que a base do Grand Tour fosse nos Estados Unidos, por causa de St. Louis e por causa do Rex Sinquefield e sua família, que provavelmente ainda é o maior patrocinador de xadrez do mundo, e de forma muito consistente.
E nós tínhamos vários parceiros europeus. Na Noruega, na Grã-Bretanha, na França, e eventualmente acabamos numa parceria muito forte com a Superbet, uma empresa romena em rápido crescimento. E, com base no interesse da empresa, nós expandimos o território. Começamos em Bucareste (Romênia), depois fomos para Varsóvia (Polônia), depois Zagreb (Croácia), o que claro foi um grande ponto positivo para mim, como cidadão croata.
Felizmente para a América do Sul e especialmente para o Brasil, eles estão expandindo seus negócios aqui. Foi uma grande coincidência unir o interesse do jogo com o interesse estratégico do patrocinador.

Grand Chess Tour 2025, em São Paulo vai até dia 3 de outubro. Foto: Lennart Ootes/Grand Chess Tour
Então, é por isso que São Paulo entrou no circuito. Eu já sabia disso há dois anos, porque eles estavam planejando abrir negócios e, para eles, todo país novo em que entram, eles querem usar o xadrez como seu cartão de visitas. Porque o dono da empresa, o Sacha Dragic, era um enxadrista muito forte, semiprofissional, e meu grande fã.
Então, estou muito contente que agora estamos começando no Brasil e, a não ser que haja um desastre de negócios, o que eu duvido muito que aconteça, São Paulo pode se tornar um local tradicional do Grand Tour, assim como Zagreb, Varsóvia, Bucareste e St. Louis.
O senhor compreende que o Sul Global tem o xadrez tão consolidado quanto o Norte?
Da minha perspectiva, a Índia é perfeita, a América Central também, e boa parte da Venezuela e da Colômbia…
Eu diria que o xadrez está concentrado em alguns poucos polos fortes. Quando eu cresci, obviamente. era na União Soviética e no Leste Europeu. A explicação é simples: havia enorme apoio estatal, baseado no interesse ideológico do regime comunista.
Depois do colapso da União Soviética, o jogo se espalhou, quando muitos jogadores soviéticos saíram, e também por causa da divisão da própria União. Muitos ficaram na Ucrânia, no Azerbaijão, na Armênia. Houve uma redistribuição gradual de talentos e estruturas.
Hoje o mapa é muito diferente. Obviamente, a Índia é de longe a força principal. E não é segredo. A Índia tem todos os componentes: tem números, o que é importante, tem infraestrutura para identificar talentos, que é o ponto mais crucial. Muitos não entendem isso: o talento existe em todo lugar do planeta, a diferença não está na falta ou abundância de talento, mas na falta de oportunidade.
E, se você não oferece oportunidade, não aparece talento. Não tenho dúvida de que o Brasil tem muitos talentos potenciais. Estatisticamente, com mais de 200 milhões de pessoas. Mas como todo garoto brasileiro quer ser Pelé, e os pais obviamente não olham o xadrez como opção, o talento não floresce.
Na Índia, além de números, houve infraestrutura, modelos como Vishwanathan Anand, apoio estatal ou municipal (como em Chennai) e também apoio privado. Por isso, acredito que a dominação indiana no xadrez está consolidada por anos.
A China, há 20 anos, era dominante, o Estado investia pesado, usava o xadrez como propaganda de capacidade intelectual, teve campeões mundiais, dominou o xadrez feminino, teve um time masculino muito forte. Mas como vemos hoje, só apoio estatal não basta; É preciso criatividade, como se vê na Índia.
E outro ponto importante: grandes eventos. É preciso números, oportunidades, rede, infraestrutura, modelos e grandes torneios. Começamos no Brasil com um grande evento. Vamos ver o que vem depois.
Em fevereiro de 2027, fará 30 anos desde que você enfrentou o Deep Blue. Naquela época você disse que a máquina não provava nada. Você acha que é possível comparar inteligência artificial com humanos, não apenas no xadrez, mas em outros os aspectos da vida?
As máquinas sempre tiveram um papel no progresso humano, desde sabe-se lá quando. As máquinas nos tornaram mais fortes, mais rápidos. Acho que as máquinas nos tornarão mais inteligentes. É um processo natural.
Temos de ser pragmáticos ao analisar a performance das máquinas. Não devemos esperar que elas resolvam todos os problemas. Não é um bilhete para o paraíso, mas também não é a abertura dos portões do inferno. Não é uma ameaça existencial iminente para a humanidade. Isso é bobagem total. Existe um exército de profetas do apocalipse vendendo essa ideia porque dá dinheiro e atenção. Vender medo é lucrativo.
Eu tento ser objetivo. Temos que manter os olhos bem abertos, mas prefiro me concentrar nas formas mais eficazes de colaboração. Como podemos colaborar? Porque vemos as limitações das máquinas. O ChatGPT e os Modelos de Linguagem de Grande Escala (LLMs na sigla em inglês), por exemplo. Há dois ou três anos, diziam: “Acabou. Em breve eles vão superar tudo”. Não, não é tão rápido assim. Eles têm efeito, às vezes efeitos estranhos. Muitos estudantes já fazem seus trabalhos com ChatGPT, e muitos professores corrigem com a própria ferramenta.

O campeão mundial de xadrez Garry Kasparov (esquerda) joga contra o supercomputador Deep Blue, da IBM, em 1997. Foto: IBM
Não é nem bom nem ruim, é novo. É um passo adiante. Precisamos aceitar isso, reconhecendo que toda moeda tem dois lados. O lado positivo é óbvio: acesso à informação, você pode aprender tudo, terceirizar tarefas repetitivas. O lado negativo: estamos perdendo a capacidade de confiar na intuição. O desafio é como aproveitar a força bruta das máquinas sem perder nossa habilidade única de avaliar e reconhecer padrões de forma diferente delas.
Máquinas podem resolver 95% dos problemas. Em muitos casos, melhor que os humanos. Mas nunca será 100%. Entre o que a máquina não resolve e a perfeição absoluta (que não existe no universo), é aí que entra o humano. Esse espaço é a arte.
Todo mundo tem computador parecido, mas a diferença está em como entendemos as lacunas da máquina ao resolver um problema específico e no que conseguimos acrescentar.
É como Fórmula 1: todos têm carros semelhantes, mas o diferencial é conhecer o motor, os limites e como extrair o melhor. Isso é uma nova ciência. E é aí que deveríamos nos concentrar, não em arrancar os cabelos, no meu caso, os poucos que restam, nem em achar que tudo está resolvido.
Muito dinheiro foi despejado no ChatGPT, e agora vemos gente como Sam Altman dizendo que talvez tenham superestimado. Não é a mesma bolha da internet há 25 anos, mas é parecido: houve expectativas exageradas. Eu falo com grandes corporações, bancos, e vejo nos rostos das pessoas quando menciono IA que não estão satisfeitas com os investimentos. Seguiram a moda. Precisam desacelerar. É por isso que a economia de mercado sempre supera o planejamento central: ela corrige os excessos rapidamente.
Voltando ao xadrez. Magnus Carlsen disse que é deprimente jogar contra máquinas. O senhor também acha?
Não é deprimente, não. Talvez “deprimente” seja a palavra errada. Eu vi em Bucareste um programa especial, um motor que joga com handicap (começando sem uma peça, por exemplo). Vi o Maxime Vachier-Lagrave jogar blitz de três minutos contra a máquina com uma peça a mais. Mesmo assim, foi devastador. Porque o motor cria problemas constantemente, e humanos cometem erros. Então, sim, pode ser frustrante, quase insultante. Mas e daí? Os melhores velocistas também não competem com uma Ferrari.
Dentro de sistemas fechados, como xadrez, shogi, go, pôquer, videogames, a máquina sempre domina. Ponto. Isso já está estabelecido. Mas a vantagem humana é outra, a nossa flexibilidade. A máquina precisa reaprender tudo se mudar o “mapa” ou contexto, enquanto nós reconhecemos semelhanças e transferimos conhecimento. No xadrez, que é um sistema fechado, a máquina domina. O jogo é matematicamente insolúvel, mas o impacto é enorme no preparo dos jogadores.
Hoje, ninguém quer ser vítima de uma preparação superior do seu adversário, então os grandes mestres tentam levar a partida para o meio-jogo, evitando linhas muito agudas. Por outro lado, os fãs de xadrez ganharam muito: podem acompanhar partidas em tempo real sem depender de comentaristas. Isso atrai milhões de pessoas. No balanço, é positivo para o jogo.
Sobre o impacto da tecnologia na criatividade humana, parece que as pessoas preferem utilizar ferramentas em vez de pensar por si mesmas. Estamos ficando mais burros?
Concordo. No xadrez isso é claro. Trabalho com jovens há mais de 20 anos e vejo: eles olham toda posição pela lente do computador. A questão é como combinar isso sem perder qualidades humanas.
Hoje, um garoto de 12 anos sabe mais teoria que (Bobby) Fischer sabia há 50 anos. Mas esse conhecimento vem “pronto”, sem base. É como consumir comida sem saber o gosto, só engolindo dados.
No meu tempo, eu anotava em cadernos, copiava de livros, precisava entender por que aquela peça ia para lá. Isso desenvolvia compreensão. Muitos jovens hoje, mesmo grandes mestres, não conseguem explicar por que uma jogada é boa. Só dizem: “a máquina mostrou”.
O diferencial de Magnus Carlsen é que ele resistiu à pressão das máquinas. Para ele, era só uma calculadora para confirmar o que já sabia. Essa é sua genialidade. Por isso, ele é único nesta era.
Há quem debata quem é o maior da história, citando o senhor e Carlsen…
Acho esse debate inútil e subjetivo, como comparar Pelé e Messi no futebol. Sou lisonjeado, claro, e tocado pelas palavras do Magnus me chamando de maior dos 100 anos, mas tudo depende da época, do contexto. Fischer teve um domínio absoluto sobre sua geração, mas por pouco tempo. Magnus manteve superioridade por muito mais anos. O resto cabe a vocês calcularem.
Mudando de tema, o mundo vive uma reorganização geopolítica. Há paralelos entre a guerra da Ucrânia e o conflito Israel–Palestina?
Há paralelos, mas talvez o oposto do que se imagina. O Irã apoia a Rússia na guerra genocida contra a Ucrânia e também sustenta o Hamas. Para mim, Israel e Ucrânia travam guerras semelhantes: contra o terrorismo. Apoio tudo que Israel faz? Não. Sou crítico de Netanyahu (primeiro ministro israelese), que é um obstáculo à paz. Mas apoio o Estado de Israel, a única democracia da região. Espero que resolvam seus problemas pela via democrática.
O que me irrita são líderes europeus usando a Palestina como cortina de fumaça para sua impotência política. Falam muito de Gaza, mas ignoram genocídios reais, como no Sudão, ou povos que merecem Estado, como os curdos, que lutaram contra o Isis, ou Taiwan. É política, não justiça. Gaza é um problema grave, mas não o maior do mundo.
Na Ucrânia, é claro: é uma guerra entre liberdade e tirania. A resistência ucraniana mostrou ao mundo como um povo livre pode lutar contra força superior. Ajudar a Ucrânia é vital não só para eles, mas também para um futuro pós-Putin na própria Rússia. Sou um grande apoiador da causa ucraniana porque acredito que o futuro do mundo está sendo decidido lá.
Para encerrar, o senhor acompanha a política brasileira e a relação com os EUA? Trump disse que teve “39 segundos maravilhosos” com o presidente Lula recentemente, mas ainda se espera um encontro formal para discutir as relações diplomáticas.
A política externa de Trump é previsível em termos simples: ele só se importa com Trump. Seus critérios são dois: dinheiro e glória. Não é “America First”, é “America Alone”. Seu discurso na ONU foi humilhante para os Estados Unidos, parecia mais um comício da Make America Great Again do que a fala de um líder mundial.
Sobre sua relação com o Brasil: não conheço todos os detalhes legais, não vou julgar. Mas, nos EUA, o 6 de janeiro (Ataque ao Capitólio, em 2021) foi uma tentativa clara de golpe. A falta de punição a Trump e seus apoiadores foi grave. Hoje, ele usa essa data como teste de lealdade. Isso divide ainda mais o país — estamos numa espécie de guerra civil fria. E ele gosta disso.
Se o Brasil conseguir evitar polarização nesse nível, já estará em vantagem. Pelo que vejo de fora, a situação aí não é tão dramática quanto nos EUA. Mas reconheço os limites do meu conhecimento. Sei o que sei e sei o que não sei. E sei quando não devo ultrapassar essa fronteira.
Grand Chess Tour em São Paulo
O Grand Chess Tour é o circuito internacional de xadrez, inspirado por Garry Kasparov. O torneio chega à América Latina pela primeira vez com realização da Superbet Foundation e do Saint Louis Chess Club, em parceria com a Xeque & Mate, responsável pela organização local, e a JNTO, agência responsável pela produção.
A etapa ocorre até sexta-feira, dia 3, com partidas diárias no WTC Events Center e cerimônia de encerramento programada para sexta-feira, às 13h.