No meio do desfile que levou a história de sua vida para a avenida, o cartunista Mauricio de Sousa ora sorria, ora acenava para o público no Sambódromo do Anhembi, em São Paulo, neste domingo, 28. Aos 90 anos, o criador da Turma da Mônica acompanhava, do último carro alegórico, sua própria trajetória ser celebrada. Para um “cara low profile”, como o filho o descreve, a reação não foi de naturalidade — mesmo sendo reconhecido como um dos principais cartunistas do Brasil —, mas de espanto.

Maurício de Sousa ao lado do filho Mauro, neste domingo, 28, no Sambódromo do Anhembi Foto: Fábio Vieira/Estadão
“Tinha horas que ele parecia meio incrédulo, perguntando: ‘Tudo isso pra mim?’ E eu respondia: claro que é pra você, pai, aproveita”, conta o filho, Mauro Sousa, ao Estadão.
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Discreto nos últimos anos e pouco afeito a grandes exposições públicas, a presença de Maurício no evento era, até então, uma incógnita. Aos olhos do público, a mobilidade do artista parece estar mais reduzida por conta da idade — inclusive utilizando cadeira de rodas em algumas ocasiões para garantir mais conforto e segurança. Por isso, a disposição de viver o momento também foi considerada especial pela família.
Uma infância que não envelheceu: Mauricio de Sousa é homenageado por gerações em desfile no Anhembi
Com presença de crianças e adultos nostálgicos, evento em homenagem a Mauricio de Sousa levou 30 mil pessoas e personagens da Turma da Mônica ao Anhembi. Crédito: Fábio Vieira/Estadão
“Foi um momento feliz para a família toda”, diz Mauro. “Ele ria, acenava e, em alguns momentos, ficava olhando assim, como quem não estava entendendo muito bem a dimensão daquilo. Eu falava: olha quanta gente, pai. Ele dava aquela risada típica dele e continuava acenando.”
Para Mauro, a reação do pai reforça um traço intrínseco a sua personalidade: Maurício sendo Maurício. “Ele sempre foi meio assim… tem essa humildade de achar que o que ele faz é o mínimo, o que ele sabe fazer, sem se preocupar com quantidade ou reconhecimento. Ele faz isso de coração… Mas, obviamente, saiu daqui mais feliz — mas sempre com o jeitinho ‘low profile’ dele”, diz Mauro.

Filhos e netos também subiram no carro alegórico que levava Maurício — sua presença no evento, até então, era uma incógnita Foto: Fábio Vieira/Estadão
Os cinco atos de Maurício
A homenagem pelos 90 anos de Mauricio de Sousa — que levou o nome de “Eu tive uma ideia”, frase que, segundo o Instituto Mauricio de Sousa, está entre as mais repetidas pelo cartunista ao longo da vida — reuniu cerca de 30 mil pessoas no Anhembi e levou à avenida mais de 40 personagens da Turma da Mônica em um desfile que percorreu diferentes fases da vida do cartunista.
O desfile foi dividido em cinco atos: a infância, os primeiros trabalhos — como “Dick Tracy”, repórter policial na extinta Folha da Manhã —, a criação do universo da Turma da Mônica, os personagens que representam novas gerações e o futuro da obra.

Carro alegórico com as diferentes fases do cartunista – da infância ao trabalho de jornalista investigativo na extinta Folha da Manhã Foto: Fábio Vieira/Estadão
Ao longo da apresentação, mais de 40 personagens em tamanho real participaram do desfile — entre eles Mônica, Cebolinha, Cascão, Magali, Chico Bento, Milena, Denise, Penadinho e Paulistinha, personagem criado por Maurício em homenagem à cidade de São Paulo.
A avenida também destacou personagens que refletem a busca da Turma da Mônica por ampliar sua representação, como Dorinha, personagem que representa pessoas cegas, além de personagens indígenas e Milena, uma das primeiras protagonistas negras do universo criado por Mauricio.

O evento reuniu desde crianças até gerações nostálgicas, que tiveram uma infância marcada pelos personagens da Turma da Mônica Foto: Fábio Vieira/Estadão
A construção do desfile levou cerca de três meses e envolveu artistas ligados à tradicional festa de Parintins, no Amazonas, além de profissionais do carnaval paulistano.