O que aprendemos com a pandemia?

O que aprendemos com a pandemia?

O que aprendemos com a pandemia?

O fato de a pandemia ter sido um período traumatizante não pode nos levar a esquecê-la. Crédito: TV Estadão

Concluindo minha série de artigos sobre a pandemiahoje o artigo será mais longo: nove pontos que considero terem trazido aprendizados importantes – obviamente com foco qualitativo, não quantitativo como nos artigos anteriores.

1 – Liderança

Como políticos podem tomar decisões rápidas e unânimes, tão importantes num momento de emergência sanitária, num ambiente que tradicionalmente vive de antagonismos e longas negociações? Vale não apenas para o Brasil, mas para muitos países com cenário político menos inflamado que nosso. Não funcionou adequadamente na pandemia de covid – e continuará sendo uma barreira (em países democráticos). Em autocracias a barreira inexiste, mas aí depende-se da sorte que o autocrata opte pelas medidas corretas. Talvez o estabelecimento de planos de ação (vide ponto 2) como políticas de Estado, e não de governo, seja uma alternativa.

2 – Preparo

Nenhum país tinha estrutura física e de pessoal pronta para uma pandemia – e francamente exigiria uma redundância que é inviável financeiramente em tempos normais. Mas, o que é possível, sim, é ter planos de ação em caso de novos eventos parecidos. O Ministério da Saúde tem um grupo de trabalho que está elaborando um Plano de Prevenção e Resposta às Pandemias.

Vacinas passaram a ser uma poderosa ferramenta de poder – e continuarão sendo no futuro. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

3 – Centralização

Um ponto crítico em países de dimensões continentais, como Brasil e EUA: o quanto devemos descentralizar a tomada de decisão entre as autoridades de saúde? Isto pode gerar casos como o de Itajaí, com distribuição de ivermectina e promoção de ozonioterapia e homeopatia como meios de combater a doença – obviamente, sem embasamento científico algum. Este tipo de ação certamente é contraproducente e esta autonomia local deveria ser revista para casos futuros.

4 – Comunicação

A meu ver, aqui tivemos algumas das maiores falhas – a começar pela dificuldade em deixar claro que um evento absolutamente novo demandaria aprender fazendo. Mas a admissão de erros é especialmente difícil no meio político, pois não está na natureza deste meio. E a negação dos erros acabou gerando desconfiança (algo esperado) no grande público.

Mas o establishment científico, que deveria ser muito mais flexível, também foi falho em comunicar. Tudo era apresentado como tendo alto grau de certeza, unanimidade e infalibilidade – mas não é assim que a ciência funciona. Na fase inicial da pandemia, não havia conhecimento suficiente para dizer se medicamentos como a hidroxicloroquina e a ivermectina eram eficazes – mas foram rechaçados mesmo assim. Não é a forma adequada de lidar com o tema. Uma vez que as evidências da sua ineficácia foram se avolumando, aí sim havia embasamento formal para desconsiderar estas alternativas.

Numa eventual pandemia futura, é preciso que existam porta-vozes mais bem capacitados tanto na gestão pública quanto na ciência, que tenham habilidade em explicar o quanto a situação é extraordinária e, por isto, demanda adaptação e eventuais correções de rota.

5 – Vacinação

Vacinas passaram a ser uma poderosa ferramenta de poder – e continuarão sendo no futuro. As potências econômicas farão de tudo para que suas populações sejam vacinadas antes que qualquer outra. As implicações geopolíticas vêm primeiro, a preocupação humanitária depois.

Um ponto polêmico: vacinas têm efeitos adversos, sim – que precisam ser mais bem comunicados. O grande público precisa entender que reações adversas (quando raras) não são um problema em si – são sinal de que o medicamento é funcional. Se houver zero reações adversas é placebo ou homeopatia – porque estes não funcionam.

6 – Imunidade de rebanho

Diferente do que alguns previam no começo da pandemia, a imunidade de rebanho não chegou rapidamente – o que tem muito a ver com a natureza mutante do vírus. Aliás, este é o motivo pelo qual a vacina contra covid-19 (e tampouco a infecção) não confere uma proteção permanente – como ocorre também com a vacina contra influenza. A busca de uma imunidade de rebanho definitivamente não é o caminho a seguir numa nova pandemia por um vírus parecido.

7 – Medidas Não-Farmacológicas: são todos os demais meios (exceto vacinas e medicamentos) para tentar controlar a propagação.

A mais famosa: máscaras. Funcionam, se do tipo adequado e usadas corretamente. Infelizmente, aqui houve muito do “para inglês ver”.

Uma série de outras medidas não-farmacológicas foram amplamente usadas, como os painéis de acrílico em locais de atendimento ao público – a despeito de não haver evidências mostrando que impediam transmissão. E não esqueçamos da medição de temperatura corporal, inicialmente na testa, depois transferida para o braço. É algo que se acreditava ser uma medida fácil e rápida para segregar os potencialmente doentes, mas acabou se mostrando inútil. Mesmo assim, durou anos.

As autoridades sanitárias deveriam ser mais categóricas ao desestimular o que não funciona.

Por outro lado, uma medida extremamente eficaz de prevenir infecções, que praticamente sumiu do debate público, é a melhora dos sistemas de ar-condicionado em ambientes com grande aglomeração de pessoas, aumentando as trocas de ar por hora e adicionando filtros HEPA. Sabe-se que funciona muito bem, mas foi relegado ao esquecimento. Infelizmente, é um caso de conhecimento que não se traduziu em ações práticas amplas.

Possivelmente um dos pontos mais polêmicos e divisivos da pandemia foi o lockdown (que, vale lembrar, é um termo usado sem muita precisão). Por um lado, tivemos a China, que adotou medidas draconianas para restringir a circulação de pessoas (num grau que seria difícil em países democráticos) – o que resultou numa mortalidade baixa (mesmo se considerarmos o excesso de óbitos). No extremo oposto, tivemos a Suécia, que impôs poucas restrições aos cidadãos. O resultado foi desconcertante: nem a tragédia que alguns previam, nem o sucesso que outros esperavam. Seu excesso de óbitos foi comparável ao de vizinhos – mas lembrando que a autodisciplina é um componente cultural forte por lá (ajudado pela incomum alta parcela de moradores vivendo sozinhos).

Fato é: lockdowns/quarentenas são viáveis por períodos curtos, mas ainda não se sabe como gerenciar bem isolamentos por períodos inesperadamente longos, como foi nesta pandemia. E não existe uma fórmula única e universalmente aplicável.

8 – Ciência de Dados

Segundo o epidemiologista Isaac Schrarstzhaupt, um aprendizado fundamental nesta pandemia foi a integração entre ciência de dados e saúde pública, principalmente com o uso de dados adjacentes para aperfeiçoar a compreensão da situação epidemiológica. Exemplos são a pesquisa de sintomas usando Facebook e os dados de mobilidade (fornecidos por Google e Apple) e sua correlação plausível com transmissão. Outro proxy de infecções, este tradicional, mas também muito eficaz, é medir a carga viral nos esgotos das cidades.

9 – Qualidade dos dados oficiais

Um artigo recém-publicado pelo economista Ariel Karlinksy relata algo preocupante: governos foram muito mais propensos a ocultar do que a exagerar a mortalidade por covid. Cerca de metade dos países tiveram subnotificação severa no número de óbitos reportado – em parte, por falta de capacidade de registro mesmo em tempos normais (caso da Índia) ou por manipulação proposital (China, Rússia). Isto deveria deixar claro, de uma vez por todas, a importância de não considerar os óbitos oficialmente reportados, mas sim o excesso de óbitos calculado por epidemiologistas e estatísticos. Em outras palavras, ferramentas populares como o Worldometer, que registrava os dados oficiais, acabaram sendo enganosas devido à baixa qualidade dos registros públicos. Esta limitação deveria ser reforçada por comunicadores científicos e endossada por veículos de mídia.

No Brasil, uma ferramenta muito popular foi o Painel da Transparência do Registro Civil, que permitia o acesso diário aos óbitos por grupos de causas. No entanto, ele escondia uma grave deficiência: um grande atraso nas notificações – podia chegar a meses. E ainda assim não eram dados consolidados, diferentes daqueles do Ministério da Saúde. Assim, tínhamos duas fontes conflitantes entre si. Em poucas palavras, uma iniciativa interessante na teoria, mas que na prática se mostrou sem validade para gestores de saúde e geradora de confusão entre leigos. Não deveria ser usada em eventos futuros.

Esta é uma seleção de tópicos limitada, obviamente, pelo espaço – pois haveria muitos outros a comentar. De qualquer maneira, a mensagem é: o fato de a pandemia ter sido um período traumatizante não pode nos levar a esquecê-la. Pelo contrário: temos de analisar a fundo o que ocorreu, o que funcionou e o que não funcionou, pois estes aprendizados serão de extrema valia para um evento futuro (que inevitavelmente ocorrerá). As gerações futuras (ou até mesmo a nossa própria) agradecerão.

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