Uma das regras econômicas mais conhecidas diz: quando a confiança aumenta, as pessoas consomem mais, as empresas investem e a economia cresce. Essa lógica econômica era uma sequência intuitiva. Mas algo curioso parece estar acontecendo. As manchetes continuam pessimistas. As guerras se acumulam. As disputas comerciais persistem. A dívida pública cresce. A geopolítica se deteriora. Ainda assim, a economia mundial insiste em não obedecer ao roteiro esperado.
O economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI)Pierre-Olivier Gourinchas, resumiu recentemente esse momento de forma simples: “o mundo continua extremamente incerto”. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) vê fenômeno semelhante. Continua projetando desaceleração da atividade global, mas reconhece que alguns motores seguem surpreendentemente fortes: os investimentos em inteligência artificial, a reorganização das cadeias produtivas e os gastos públicos.

O Lloyds Business Barometer registrou queda da confiança empresarial no Reino Unido Foto: Toby Shepheard/AFP
O contraste aparece também nos indicadores de confiança. O Lloyds Business Barometer registrou queda da confiança empresarial no Reino Unido. Entre os consumidores, o índice global da Ipsos voltou a melhorar, mas permanece abaixo do nível observado antes da guerra entre Israel e Irã. Ou seja, empresários e consumidores continuam desconfiados, mas a economia segue andando.
O exemplo mais curioso dessa mudança ocorreu nesta semana. Os dados do mercado de trabalho americano vieram mais fracos do que o esperado. Em outros tempos, essa notícia provocaria turbulência nos mercados. Desta vez, a reação foi positiva. A interpretação predominante foi outra: uma economia menos aquecida reduz a probabilidade de novas altas dos juros. É como se a economia tivesse aprendido a conviver com más notícias.
Talvez estejamos olhando para o mundo com um modelo mental que já não descreve bem a realidade. Durante décadas tratamos a confiança como o principal combustível do crescimento. Hoje, ela parece dividir espaço com forças mais estruturais como investimentos em tecnologia, transformação energéticareorganização da produção mundial, políticas industriais e mercados de trabalho ainda relativamente robustos.
Mas isso não significa que os riscos desapareceram. Muito menos que o pessimismo esteja equivocado. Significa apenas que empresas, governos e famílias passaram a reagir de maneira diferente aos choques. Depois da pandemia, da inflaçãodas guerras e das disputas comerciais, desenvolvemos uma capacidade de adaptação que talvez tenhamos subestimado. Talvez essa seja a grande mudança do capitalismo contemporâneo.
Não vivemos em um mundo mais previsível. Nem mais seguro. Vivemos num mundo que aprendeu, ainda que imperfeitamente, a continuar funcionando em meio à incerteza. Não ficamos menos vulneráveis. Ficamos mais adaptáveis.