A inteligência artificial vai potencializar ou atrofiar nossas mentes?

A inteligência artificial vai potencializar ou atrofiar nossas mentes?

O progresso tecnológico pode ser acompanhado através das engenhocas que criamos para ampliar as capacidades de nosso corpo. A bicicleta ajuda o andar. Livros ampliam nossa memória coletiva. Microscópios e telescópios melhoram nossa visão. Telefones facilitam as conversas. Nosso relacionamento com cada uma dessas tecnologias é cheio de surpresas. Telescópios nos removeram do centro do universo, telefones destruíram barreiras geográficas.

Quanto mais poderosa a tecnologia, maior a mudança. As mídias sociais permitem a todos divulgarem globalmente seus pensamentos, algo impensável quando Gutenberg imprimiu o primeiro livro. E, assim, as parcas habilidades que possuíamos quando éramos simples caçadores nômades se multiplicaram, tornando nossa sociedade mais complexa e nossa vida mais intensa.

Hoje estamos vivendo a aurora de uma tecnologia que promete expandir a capacidade do instrumento que usamos no passado para criar todas nossas tecnologias: nossa mente, nossa inteligência. É a inteligência artificial (IA). Ela promete potencializar nosso raciocínio como a bicicleta acelerou o andar e o telescópio alongou o olhar. E tudo indica que estamos fadados a levar muitos sustos no convívio com essa tecnologia.

Inteligência artificial promete potencializar nosso raciocínio. Foto: hqrloveq/Stock Adobe

Alguns desses sustos têm aparecido em estudos científicos que analisam os primeiros sinais de como tratamos e somos tratados pela IA. Aqui vão algumas dessas descobertas.

Milhares de pessoas foram convidadas a escrever seu currículo e um pequeno ensaio sobre o motivo pelo qual desejavam o emprego. Mas tinham de produzir duas versões, uma escrita sem auxílio de IA, outra em que podiam utilizar livremente sistemas de IA para criar ou melhorar os textos. Todos esses currículos foram submetidos para uma triagem inicial, a um sistema de IA que deveria fazer uma lista dos melhores candidatos. O resultado é surpreendente.

Todos os sistemas de IA testados mostraram uma preferência estatisticamente significante por currículos escritos por sistemas de IA. Ou seja, elas preferem textos escritos por elas mesmas. Como muitas empresas estão usando sistemas de IA para fazer essa seleção inicial, a recomendação é clara, se você deseja um emprego é melhor deixar uma IA escrever seu currículo. É um dos exemplos que demonstram que a IA exerce preferências e gosta de si mesmo.

Outro resultado interessante. Em muitas empresas, pessoas que lideram times estão substituindo empregados físicos que fazem trabalhos rotineiros (como preencher planilhas e controlar estoques) por agentes de IA, treinados para fazer a tarefa. Os cientistas investigaram se os chefes confiam mais nos empregados ou no sistema de IA. Fizeram isso medindo o tempo gasto pelo chefe na conferência e correção do trabalho dos dois tipos de subordinados.

A descoberta foi que os trabalhos dos agentes de IA eram muito menos examinados e corrigidos apesar de conterem mais erros. Os chefes continuaram com essa atitude mesmo sabendo que a IA erra mais. Ou seja, pessoas tendem a confiar menos em outras pessoas do que em sistemas de IA. E, ao investigarem a razão, os cientistas descobriram que preferimos exercer o poder e criticar seres humanos que sistemas de IA. Desconfiar de humanos parece ser um desvio de nossa mente. A solução que está sendo tentada é permitir que sistemas de IA chefiem seres humanos.

Em uma escola onde os alunos foram liberados para usar IA na elaboração de trabalhos e exercícios, mas onde a IA não podia ser usada durante as provas, os cientistas observaram que as notas dos trabalhos e sua qualidade aumentou muito. Mas, em compensação, a nota nas provas despencou. Ou seja, os alunos não aprenderam com a IA. Mas, quando a IA foi liberada nas provas, as notas subiram rapidamente.

Se desejamos que os alunos aprendam de verdade, basta barrar o uso de IA nas provas e diminuir o peso dos trabalhos na nota. Mas, se na vida eles vão poder usar IA em todas as situações, qual o sentido de proibir IA nas provas?

Em um experimento semelhante, alunos de programação foram estimulados a usar IA para ensiná-los a programar. Não funcionou, os sistemas de IA não conseguem encaminhar o raciocínio do aluno na direção certa. Eles não aguentam, resolvem o problema em vez de ensinar a resolver. Mas para que aprender a programar se no futuro essa tarefa vai ser feita por IA?

Da mesma maneira que a bicicleta diminui nossas caminhadas, e o celular acabou com o hábito de nos encontrarmos para conversar, a IA vai mudar nosso mundo. Mas a grande diferença é que essa é uma tecnologia que compete e supera o que talvez seja o que mais nos diferencia dos outros seres vivos, nossa capacidade de pensar, imaginar, julgar, deduzir e generalizar. A bicicleta sem dúvida deixou nossas pernas mais fracas, mas nos permite ir mais longe. O que vai acontecer com nossas mentes com o advento da IA?

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