Qual é o filme definitivo sobre os Estados Unidos? Lista tem ‘Sangue Negro’, ‘Dia D’ e mais

Qual é o filme definitivo sobre os Estados Unidos? Lista tem ‘Sangue Negro’, ‘Dia D’ e mais

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Obras começam em maio e reabertura está prevista para junho de 2027. Crédito: Danilo Casaletti e Leo Souza/Estadão

A forma como o mundo enxerga os Estados Unidos, e como o próprio país se vê, pode ser creditada, pelo menos em parte, a Hollywood. Desde que o cinema existe, os filmes têm reforçado as histórias que contamos a nós mesmos sobre a nossa identidade nacional — como a de que a sua posição na vida não é ditada pelo seu nascimento e de que tudo é possível, incluindo a justiça e riquezas incomensuráveis, se você for determinado o suficiente.

É claro que versões mais sombrias dessa narrativa também se desenrolam nas telas. Existe um filme definitivo sobre a nossa nação? A resposta, sem dúvida, varia de acordo com a época e o entrevistado. Mas com o país celebrando seu 250º aniversário e profundamente dividido, este é um bom momento para analisar a questão sob uma nova perspectiva.

Por isso, perguntei a 10 jornalistas e críticos quais filmes eles escolheriam para definir a os Estados Unidos e o porquê. Suas escolhas variaram de blockbusters a produções independentes, de comédias nacionais a um enigmático drama italiano, de um recente indicado ao Oscar de melhor filme a uma estreia pouco conhecida — em suma, filmes tão variados quanto o próprio país.

‘Sangue Negro’, ‘Dia D’ e ‘Dirty Dancing: Ritmo Quente’ estão na lista do NYT de grandes filmes sobre os EUA. Foto: Paramount Vantage, Niko Tavernise/Universal Pictures and Amblin Entertainment e Vestron Pictures/Divulgação

O Matador de Ovelhas (1978)

A obra-prima de Charles Burnett se passa no bairro de Watts, em Los Angeles, em meados da década de 1970, dez anos após os distúrbios civis que ocorreram ali. Filmado em preto e branco, o longa é, ao mesmo tempo, um retrato expressionista de uma família negra pobre e do país em que vivem, com seu idealismo e suas verdades amargas. Há uma beleza sublime, bem como uma comédia melancólica na visão de Burnett, além de uma dor que corta até os ossos. Aqui, cada parede com cicatrizes e cada lote vazio falam de promessas quebradas, assim como o rosto desolado do pai, um trabalhador de um matadouro (Henry G. Sanders).

Burnett é um dos maiores poetas do cinema, mas também é um dialético de olhar lúcido, como fica evidente na cena de crianças brincando no que parece ser um canteiro de obras abandonado — um interlúdio embalado por The House I Live In, na voz de Paul Robeson. Uma ode ao idealismo americano que se tornou famosa na voz de Frank Sinatra, a canção abre com a pergunta: “O que é a América para mim?”. Ela ganha um sentido muito diferente quando cantada por Robeson, um ativista dos direitos civis cuja carreira foi descarrilada durante o Pânico Vermelho. Com um único filme indelével, Burnett evoca a história americana e, ao mesmo tempo, a escreve.

Outros grandes filmes sobre os EUA: Star Spangled to Death, de Ken Jacobs; Em Jackson Heights, de Frederick Wiseman; A 13ª Emenda, de Ava DuVernay. — MANOHLA DARGIS

Sangue Negro (2007)

Um magnata implacável que construiu o próprio império com base em uma série de negócios obscuros em seu passado. Um pregador oportunista mais interessado em poder do que em santidade. Um país onde uma riqueza fabulosa está ao seu alcance, desde que você esteja disposto a pisar com sua bota nas costas do seu vizinho. O épico de 2007 de Paul Thomas Anderson, Sangue Negro, que deu a Daniel Day-Lewis um de seus maiores papéis, estraçalha o sonho americano, pegando emprestada a linguagem cinematográfica dos grandes faroestes de Hollywood, mas invertendo seus temas.

Nessa visão do Oeste, a fronteira produz um petróleo tão negro quanto a noite e exige sangue em troca, à medida que as forças gêmeas da prosperidade americana — capitalistas desenfreados e sem escrúpulos e vigaristas que roubam a religião para seus próprios fins — avançam em direção a uma conclusão explosiva. Nesta grande terra, sugere Sangue Negro, você pode ganhar o mundo inteiro, desde que esteja preparado para perder sua alma também. — ALISSA WILKINSON

Sangue Negro (2007) Foto: Reprodução/Paramount Vantage

Jovens, Loucos e Rebeldes (1993)

Logo no início de Jovens, Loucos e Rebeldes, enquanto estudantes de um colégio no Texas saem em disparada das salas de aula para as férias de verão em 1976, o professor descolado grita sobre o iminente bicentenário do país: “Não se esqueçam do que estão celebrando: o fato de que um bando de homens brancos, aristocratas e donos de escravos não queria pagar seus impostos”.

O marco nacional paira na mente dos adolescentes — “Este país foi fundado por pessoas que curtiam alienígenas, cara”, insiste o maconheiro do grupo —, mas serve principalmente como pano de fundo para uma noite turbulenta. À medida que os grupos sociais se misturam, surgem conflitos: entre velhos costumes e novas correntes culturais, entre patriotismo e rebeldia, entre uma liberdade sem limites e o fato de não ter para onde ir. É nessa fricção que o caráter americano da comédia dramática de 1993 de Richard Linklater se torna inegável.

Como uma estudante do segundo ano do ensino médio apaixonada por esse retrato da adolescência americana, eu reassistia a esse filme constantemente em fita VHS. “Escolha com sabedoria”, o filme parecia me alertar — a mim, uma filha de imigrantes agudamente ciente de que quem somos agora define o rumo de quem podemos ser, e se esse nosso “eu” futuro irá se render ao pensamento de grupo ou se rebelar eternamente contra ele. — MAYA SALAM

Scarface – A Vergonha de uma Nação (1932)

Fale sobre arquétipos americanos: o ápice do caos do estilo slapstick (pastelão) e a sensação que atormentou os censores em 1932, Scarface foi financiado por um lendário magnata nascido no Texas (Howard Hughes) e dirigido por um grande autor de Hollywood (Howard Hawks), a partir de um roteiro escrito principalmente por um célebre repórter policial de Chicago (Ben Hecht), servindo de veículo para um antigo ídolo do teatro iídiche de Nova York (Paul Muni), que interpreta um retrato ficcional do homem mais notório do país na época (Al Capone).

Scarface não foi o primeiro filme de gângster dos estúdios, apenas o mais violento e barulhento. Emergindo em meio a uma sonoridade de pneus cantando, metralhadoras barulhentas e diálogos cheios de gírias, este “Capone estilizado” é ladeado por duas grandes namoradas de bandido, uma provocante (Ann Dvorak) e outra fria (Karen Morley). Devido a questões de direitos autorais, o patriarca dos filmes de gângster americanos ficou inacessível por 33 anos, o que só aumentou seu status de cult. A sobrevida em formato de memes do remake de Brian De Palma, de 1983, atesta sua força.

Outros grandes filmes sobre os EUA: Meu Ódio Será Sua Herança, de Sam Peckinpah; Quanto Mais Quente Melhor, de Billy Wilder; Pecadores, de Ryan Coogler. — J. HOBERMAN

Projeto Flórida (2017)

Existe uma cidade mais americana do que Orlando, na Flórida? Suas atrações prometem grandes sonhos, muita diversão e fuga total da realidade. Mas isso frequentemente mascara a tremenda luta da classe trabalhadora necessária para manter esses sonhos vivos. O diretor Sean Baker interpreta as complicações de Orlando, e da própria América, em forma de cinema com este drama ensolarado que se desenrola do outro lado do mundo da Disney. Motéis baratos com nomes como Futureland Inn e Magic Castle são as casas e os parquinhos improvisados de crianças que passam os dias envolvidas em brincadeiras e pequenas travessuras, em meio a arredores decadentes.

Brooklynn Prince brilha como Moonee, de 6 anos, o coração e a alma otimistas do filme. Ela cria sua própria magia enquanto os adultos desanimados ao seu redor (incluindo sua mãe, interpretada por Bria Vinaite) tentam se virar para pagar as contas. Baker está profundamente sintonizado com essa dicotomia e conduz o filme com um escopo épico e um foco íntimo. O resultado é ao mesmo tempo encantador e devastador.

Outros grandes filmes sobre os EUA: A Cor Púrpura, de Steven Spielberg; Lendas da Paixão, de John Sayles; Nós, de Jordan Peele. — MEKADO MURPHY

Nashville (1975)

Há poucos cineastas cuja obra abranja a América, em todas as suas complexidades e contradições, de forma tão completa quanto Robert Altman. Em seus melhores filmes, ele enfrentou vacas sagradas, instituições engessadas, a mitologia da fronteira e as noções convencionais de heroísmo, e fez isso com uma piscadela cúmplice e uma risadinha contida. Há algo intrinsecamente americano em sua obra-prima de 1975, Nashville — a forma como ele busca algo grandioso, abrangente e audacioso ao entrelaçar 24 personagens de origens e camadas sociais variadas ao longo de alguns dias na capital da música country.

A estrutura indisciplinada e não convencional do filme tornou-se uma das marcas registradas de Altman, porque ele adorava as intersecções caóticas das vidas reais; como um excêntrico forasteiro pode acabar convivendo com uma figura desdenhosa do sistema e sair por cima. É um filme cheio de música, de dores de cotovelo, de patriotismo e de violência política; é a experiência americana completa em 160 minutos.

Outros grandes filmes sobre os EUA: Quando os Homens São Homens, de Altman, a história de uma terra movida a sexo e trapaça; Nascido em 4 de Julho), de Oliver Stone, que lida com o que realmente significa amar seu país (e servi-lo); O Homem Máfia, de Andrew Dominik, um dos filmes mais agudamente cínicos sobre o nosso país e o nosso tempo. — JASON BAILEY

Dirty Dancing: Ritmo Quente (1987)

Um estudo sobre divisões de classe, trabalho, identidade, direitos das mulheres, saúde pública e muito mais, disfarçado de um romance leve sobre amadurecimento, Dirty Dancing tem todos os elementos certos para compreender a América do pós-guerra — além de uma trilha sonora avassaladora.

Ambientado em meio às agitações sociais dos anos 60 em um hotel nas Catskills, o filme acompanha o despertar, sexual e geral, de Baby, uma jovem hóspede — Jennifer Grey, em um papel que definiu sua carreira — quando ela conhece Johnny, o provocante instrutor de dança interpretado por um Patrick Swayze frequentemente sem camisa. (Note os sobrenomes dos personagens: o Houseman dela contra o Castle dele; ela é judia e rica, e ele — apesar do sobrenome aristocrático — não é. O caso deles quebrou tabus na época.)

Uma subtrama franca sobre o aborto era uma raridade cinematográfica — Eleanor Bergstein, a roteirista, lutou para mantê-la. A mensagem é que a cultura pode liderar mudanças sociais e políticas — ninguém deixa a Baby de lado! —, especialmente quando é impulsionada por dançarinos e músicos (notadamente, as únicas pessoas negras do filme). — MELENA RYZIK

Zabriskie Point (1970)

Ambientado no verão de 1968 no deserto de Mojave, Zabriskie Point, de Michelangelo Antonioni, é uma meditação hipnótica sobre os ideais americanos contada por meio de estranhos que se tornam amantes: um jovem que largou a faculdade e está foragido e uma secretária que está cruzando a região em uma viagem de trabalho. Eles passam uma tarde que parece um sonho febril vagando pela paisagem, discutindo as tensões sociais e esbarrando em uma orgia extremamente empoeirada. (Afinal, estamos falando de Antonioni e dos anos 60.)

“Há milhares de lados — não apenas heróis e vilões”, diz a secretária (Daria Halprin) ao fugitivo (Mark Frechette), o que parecia ser a visão do diretor italiano sobre os Estados Unidos. Entre as cenas fascinantes do Oeste americano e a trilha sonora pulsante do Pink Floyd e de Jerry Garcia, há momentos de intensa agitação social, crime e ganância corporativa. O FBI investigou o filme por antiamericanismo, mas Antonioni constrói uma carta de amor de um estrangeiro para a América, seu povo e tudo o que ela pode conter, com todos os seus defeitos.

Outros grandes filmes sobre os EUA: Nomadland, de Chloé Zhao; The Sweet East, de Sean Price Williams; Os Bons Companheiros, de Martin Scorsese. — AMANDA WEBSTER

Nada Além de Um Homem (1964)

O diretor Michael Roemer nasceu em Berlim, em 1928. Ele não sabia o que era ser jovem, negro e ter um emprego precário no Alabama antes da Lei dos Direitos Civis, como Duff Anderson, o personagem admirável, mas autodestrutivo, no centro de seu primeiro longa-metragem. O que Roemer conhecia — a sensação de não ser bem-vindo em seu próprio país, o preço espiritual de uma servidão de fato — ele despejou em seu roteiro milagroso que, na tradição de Tocqueville e Gunnar Myrdal, reflete a América de volta para si mesma como só um estrangeiro consegue fazer.

Estrelando um inesquecível Ivan Dixon (como Duff), com um elenco de apoio excepcional (Abbey Lincoln, Yaphet Kotto, Gloria Foster), Nada Além de Um Homem conta uma história política em um tom pessoal. Seus personagens — moldados por viagens de pesquisa que Roemer fez pelo Sul com seu co-roteirista, diretor de fotografia e colega judeu, Robert Young — nunca deixam de ser profundamente humanos, para o bem e para o mal. — REGGIE UGWU

Dia D (2026)

O mundo, como define um vilanesco Colin Firth, está à beira do abismo. Agentes quase governamentais operam nas sombras. A paranoia e a desconfiança, às vezes com boas razões, enchem o ar. A luta para revelar a verdade é tão violenta quanto a luta para suprimi-la. Sim, Dia D é um épico do tipo “os alienígenas estão aqui”, mas, em termos de tom, quando os cardeais, os círculos nas plantações e as perseguições de carro dão lugar a pessoas comuns lutando em uma nação caótica, o filme transmite a ansiedade e a incerteza que impregnam a vida americana moderna, longe da ficção científica.

Percebi isso na cena em que Emily Blunt e Wyatt Russell param em uma loja de conveniência: ainda não chegamos às grandes sequências de ação e revelações, mas eles estão cercados por pessoas estocando mantimentos freneticamente, preparando-se para uma guerra que surge ao fundo. No final, quando nossos heróis finalmente revelam a verdade ao público, o clima muda para um otimismo trêmulo e provisório, e Blunt diz a palavra final que soa como um apelo por compreensão: “Escutem”.

Algo nisso também se parece muito com quem somos como país.

Outros grandes filmes sobre os EUA: Bonnie e Clyde: Uma Rajada de Balas, de Arthur Penn; Minari: Em Busca da Felicidade, de Lee Isaac Chung; Southland Tales: O Fim do Mundo, de Richard Kelly. — ANDREW LAVALLEE

Assista ao trailer final de ‘Dia D’, nova ficção científica de Steven Spielberg

Novo longa conta com Emily Blunt e Josh O’Connor no elenco. Crédito: Universal Pictures Brasil via YouTube/Reprodução

Este artigo foi originalmente publicado no The New York Times.

Este conteúdo foi traduzido com o auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial e revisado por nossa equipe editorial. Saiba mais em nossa Política de IA.

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