El Niño ameaça piorar pressão no crédito rural e atrasar recuperação do BB

El Niño ameaça piorar pressão no crédito rural e atrasar recuperação do BB

Analista Nícolas Merola, da EQI Research, diz que as culturas mais afetadas devem ser de milho e soja Foto: Daniel Teixeira/Estadão – 25/03/2026

O risco de uma versão mais severa do fenômeno meteorológico El Niño ameaça retardar a recuperação do já combalido crédito ao agronegócio. Meteorologistas alertam para perspectivas de chuvas excessivas no Sul e secas intensas no Norte e Nordeste, em uma dinâmica que pode comprimir as margens dos produtores rurais e dificultar a capacidade de pagamentos de dívidas na safra 2026/2027.

Em relatório na semana passada, a Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (Noaa, na sigla em inglês) confirmou a chegada do El Niño e projetou 63% de chance de que sua intensidade se torne “muito forte”, ou seja, de que ocorra o chamado “Super El Niño”.

O fenômeno tende a agravar a “tempestade perfeita” que se instalou sobre a produção agrícola desde o ano passado, em meio aos efeitos de juros restritivos, endividamento elevado e eventos climáticos extremos. Em abril de 2026, a inadimplência na carteira de recursos direcionados ao segmento rural saltou para 7,4%, um avanço de 4,2 pontos porcentuais em relação a igual mês de 2025, de acordo com os dados mais recentes do Banco Central.

Em paralelo, a guerra no Irã e o consequente vaivém nos preços de commodities impuseram novas dúvidas sobre o ritmo de cortes dos juros básicos. Na última quarta-feira, o Banco Central cortou a Selic pela terceira vez seguida, para 14,25%, mas a curva de juros futuros já sugere que uma pausa no ciclo de relaxamento monetário é iminente.

“Em um ano que já é de incertezas, o El Niño entra no jogo adicionando uma camada extra de dificuldades”, afirma o diretor associado da equipe de instituições financeiras da S&P Global Ratings, Henrique Sznirer, em entrevista à Coluna.

Com a produtividade em alta, analistas ainda veem um cenário favorável para a safra das principais culturas brasileiras, como soja, milho, açúcar e café. O problema é que a recente queda nos preços das commodities pode apertar as margens, principalmente se o El Niño levar a uma quebra na safra.

“É ai que pode entrar o impacto para os bancos: o produtor, que já está endividado com juros altos, vai ter que pagar um empréstimo e pode não ter um contraponto da geração de caixa”, diz a também diretora na S&P, Flávia Bedran.

Para analistas da Genial Investimentos, um novo choque climática pode deteriorar a qualidade de crédito rural no sistema financeiro. Em um quadro de consequências mais fortes, os bancos podem ser obrigados a elevar provisões, intensificar renegociações e alongar prazos. O resultado potencial disso seria uma pressão sobre o capital regulatório e revisões negativas nos lucros, de acordo com a análise. Banco do Brasil, Banco ABC e Banrisul são citadas como as instituições mais sensíveis a esse cenário.

Cenário já está sendo incorporado por bancos

Os eventuais efeitos só devem começar a aparecer no balanço mais para o fim do ano, mas os bancos já incorporaram aos modelos uma piora no cenário. Em um recente boletim econômico sobre o agronegócio, o Banco do Brasil chamou atenção para a “elevada probabilidade” de um El Niño de forte intensidade entre o final de 2026 e o começo de 2027. Assim, o banco agora prevê uma contração de 0,5% no Produto Interno Bruto (PIB) da agropecuária este ano.

Maior financiador do agro brasileiro, com uma carteira de R$ 418 milhões, o BB também é a mais vulnerável das instituições financeiras às consequências indiretas do El Niño. Em março, a inadimplência no portfólio rural do banco subiu a 6,22%, pelo critério de atrasos superiores a 90 dias. Com isso, o BB precisou reforçar a as provisões líquidas contra devedores duvidosos (PDD) em 86% no comparativo anual do primeiro trimestre, para R$ 18,9 bilhões.

No começo do ano, a gestão do BB vinha projetando uma virada do ciclo para o segundo semestre, após renegociar quase R$ 40 bilhões em dívida no âmbito do programa Regulariza Agro. As novas operações preveem mecanismos de aumento da robustez das garantias, principalmente em alienação fiduciária – mecanismo em que um bem fica legalmente em nome do credor até que a dívida seja totalmente paga pelo devedor. No entanto, com a guerra no Oriente Médio e agora o El Niño, o cronograma da retomada pode alongar-se.

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O analista Nícolas Merola, da casa de análises EQI Research, explica que as culturas mais afetadas devem ser milho e soja, justamente as que concentram os maiores pesos na carteira do BB. Como o fenômeno ainda era incerto na época da divulgação do resultado do primeiro trimestre, o banco público deve ter que reavaliar suas projeções para o ano para refletir o novo evento climático, afirma Merola à Coluna.

O analista ainda mantém uma recomendação neutra para a ação do BB, mas reconhece que as incertezas estão ficando mais fortes. “Agora, com a probabilidade do aumento dos impactos do El Niño, esse pessimismo começa a crescer”, ressalta.

Entre as demais instituições que têm exposição menor no agro, mas ainda assim relevante, o impacto do evento climático é ainda mais difícil de prever. Esses bancos, em geral, costumam emprestar para grandes empresas, que têm mais acesso a recursos no mercado financeiro e uma melhor gestão de risco. “Existem as condições para que essas empresas saiam (do El Niño) mais incólumes e, por consequência, o impacto para essas outras instituições seriam marginais”, diz Merola.

Esta notícia foi publicada na Transmitir+ no dia 19/06/2026, às 14:18

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