Mart’nália lança álbum de Pagode 90 e confessa: ‘Não ouvia’
Cantora regravou clássicos como ‘Essa Tal Liberdade’ e ‘Domingo’ e convidou nomes como Caetano Veloso, Martinho da Vila e Luísa Sonza.
Nos tempos em que trabalhei no aeroporto de Congonhas, no final dos anos 1990, havia pelo menos um dia no qual minha resiliência era testada ao limite máximo: na madrugada de domingo, o ônibus que eu pegava na avenida Brigadeiro Luís Antônio em direção ao trabalho, na zona sul de São Paulo, chegava apinhado de frequentadores do Só pra Contrariar, um bar de samba localizado no Bixiga. E para quem encara o batente cedo, não há nada pior do que a animação de um público que entoa no veículo o repertório da noitada anterior – seja samba, rock, reggae ou até polca.
Cansado e sem ter até onde sentar, eu passava a viagem rogando praga para os cantores e grupos que deram horas de alegria para aquelas pessoas. Aparentemente, as maldições não surtiram efeito (como, aliás, não funcionaram os meus sortilégios contra Haaland, atacante da seleção da Noruega): poucos anos depois, já no meu primeiro emprego como jornalista, eu acompanhei a história de sucesso de boa parte dos partideiros que deram expediente na casa de samba. Dessa vez, claro, sem o mau humor daquele período.
Anos 90: A Explosão do Pagodede Emílio Domingos e Rafael Boucinha, que a Globo exibe nas noites de quarta (e com exibição posterior na Globoplay), me reconecta com alguns astros daqueles tempos. O filme estreou na edição 2025 do In-Edit, ótimo festival dedicado a documentários musicais, e chega agora “fatiado” em três partes: mostra desde as raízes desse segmento, que teria nascido no bloco Cacique de Ramos, no Rio de Janeiro – de onde saiu o Fundo de Quintalpioneiro nessa maneira mais moderna de se fazer partido alto –, e chega até alguns dos nomes do novo samba, como Belo, Salgadinho, Netinho e Chrigorque brilharam respectivamente no Soweto, Katinguelê, Negritude Júnior e Exaltasamba. A Explosão do Pagode traz ainda gente do cenário contemporâneo – entre eles Ludmilla, Glória Groove e Thiaguinhoque revisitam as pegadas do samba pop.
O caminho trilhado por esses nomes – e mais Leandro Lehartfazer Arte Popularque ficou de fora por, creio eu, motivos extra musicais – foi eivado de preconceitos. Um deles, por exemplo, era de que a música feita pelos sambistas de São Paulo não podia ser classificada como tal, a ponto do estilo ganhar o epíteto de “pagode mauricinho”. Na verdade, os grupos tinham referência do batuque do Rio, mas por outro lado foram impactados pela black music dos bailes de São Paulo nos anos 1970, em especial os da Chic Show. Nessas festas, os temas de Martinho da Vila e Fundo de Quintal conviviam com soul music dos Jackson 5 e o funk de James Brown. E foram as equipes de bailes, como a Chic Show e a Zimbabwe, que bancaram os primeiros discos dessa garotada.
A combinação foi assimilada pelos jovens daquele período e adaptada para os pagodes. Lehart me falou de bailes onde seu grupo, o Art Popular, fazia versões de Stevie Wonder em ritmo de samba; o Negritude Júnior trouxe para o gênero roupas e coreografias inspiradas no grupo Earth, Wind & Fire e usou um tema musical do Jackson 5 no hit Cohab Citye conjuntos como Exaltasamba e Só pra Contrariar (que é mineiro, mas assimilou essa linguagem paulistana) se inspiraram no soul americano dos anos 1990. O Art Popular foi ainda pioneiro no uso do reggaeton (que era então chamado de “reggae em espanhol”) na batucada: a canção eu seria reprovadosaiu em Mesmo Tun Tundo DJ El General. Longe de serem diluidores, foram esses garotos que fizeram que muita gente da sua geração se apaixonasse pelo samba.
Os meninos dominavam a linguagem do Rio: atuaram como grupos de apoio de vários artistas cariocas, entre eles Jovelina Pérola Negra e Beth Carvalho – esta última nunca viu com bons olhos e ouvidos essa facção pop. O sucesso de suas músicas está, além da qualidade (sim, é um entretenimento de primeira), na junção de respeito à tradição, uma sonoridade contemporânea e apresentação ao vivo impecáveis, com direito a coreografias e muita interação com a plateia.
O Botequim do Camisa, localizado do lado da escola de samba Camisa Verde e Branco, na zona central de São Paulo, era uma espécie de quartel general dessa geração. Ali, assisti a performances dos emergentes Negritude Júnior e Raça Negra – que trouxe de volta o samba rock perpetuado por Jorge Ben Jor – e vi Carica, do Sensação, derrotar o veterano Beto Sem Braço (parceiro de, entre outros, Martinho da Vila e Zeca Pagodinho) na escolha do samba de enredo do Camisa em 1992, cujo tema era Banho de Luz que Me Seduz. O queixume dos partideiros do Rio não surtiu efeito nos astros mais jovens: em entrevista recente, Xande de Pilares admitiu que era fã do samba paulista, embora nunca tivesse elogiado o gênero publicamente para sua “madrinha” Beth.
A Explosão do Pagode dá voz a diversos personagens cruciais do “sampop”, que raramente tiveram sua importância reconhecida. Jorge Hamilton, dono do Só pra Contrariar; Pelé Problema; empresário (e que levou essa turma para os showmícios); Prateado, produtor que moldou a sonoridade do samba moderno, e Délcio Luiz, autor de vários hits da vertente “mauricinha” – entre eles Marrom Bombomcom Os Morenos, e faixacom o Exaltasamba. Por outro lado, omite a Transcontinental, emissora de Mogi das Cruzes dedicada às batucadas e que chegou a ficar em primeiro lugar em audiência. Não há depoimentos do Raça Negra e Gina Garcia, ex-backing vocal do grupo de samba rock e mãe da cantora Gloria Groove, é praticamente uma figura decorativa. São detalhes que, no entanto, não tiram o mérito do diretor Emílio Domingos, que nos últimos anos tem feito documentários importantes sobre a música preta brasileira.
De volta aos meus tempos de aeroporto, penso que deveria ter superado a minha rabugice e ido ao Só pra Contrariar ao invés de ficar esperando o horário de entrar no serviço. Pelo menos eu assumiria o posto cantando com a mesma alegria que interpretei os sucessos presentes em A Explosão do Pagode.

Chrigor e Márcio Art em cena o documentário ‘A Explosão do Pagode’ Foto: Lucas Seixas/Globo/Divulgação