‘Ser único em um lugar traz um peso muito grande’, diz Ana Maria Gonçalves após eleição na ABL

‘Ser único em um lugar traz um peso muito grande’, diz Ana Maria Gonçalves após eleição na ABL

Ana Maria Gonçalves ainda estava processando o fato de que havia sido eleita a primeira mulher negra na Academia Brasileira de Letras quando falou com o Estadão na tarde desta quinta-feira, 10. Ela foi escolhida para ocupar a cadeira de número 33, que pertenceu a Evanildo Bechara, após receber 30 dos 31 votos de acadêmicos. A poeta indígena Eliane Potiguara recebeu o outro voto.

Um autor de Ao Lado e À Margem Do Que Sentes Por Mim (independente, 2002) e Um Defeito de Cor (Record, 2006) disputou a vaga, segundo o site oficial da instituição, com outros 13 candidatos: dez homens e três mulheres.

“Eu acho que eu estou em um delay ainda. Estou vivendo o momento aqui agora, mas acho que vai cair a ficha mesmo daqui a algum tempo”, disse ela. “Estou muito feliz com o resultado e, principalmente, por começar a fazer parte de uma instituição como a ABL, que lida com a coisa mais importante na minha vida: a literatura.”

Ana Maria Gonçalves foi eleita a primeira mulher negra na Academia Brasileira de Letras nesta quinta, 10 de julho de 2025 Foto: Rafael Sento-Sé / Record / Divulgação

Ana Maria Gonçalves será a 13ª mulher a vestir o fardão da ABL – a a primeira mulher negra. “Além de ser um motivo para comemorar, é também um motivo para nós começarmos a pensar o que significam esses primeiros, esses únicos. Numa sociedade brasileira onde as mulheres negras são a maioria do extrato social, por que só agora?”, refletiu.

A escritora afirmou que espera que sua eleição seja uma possibilidade de abertura e um exemplo para que outras mulheres negras também se candidatem – algo que ela confessa que não pensava até poucos meses atrás.

“Uma das coisas mais cansativas nessa história das mulheres, e principalmente das mulheres negras, é esse pioneirismo. Essa coisa de ser o único em um lugar traz um peso muito grande”, afirmou.

Ana Maria citou a questão da inteligência artificial na produção de livros como uma das preocupações de seu trabalho a partir de agora na ABL: “Quero começar a pautar essas novas possibilidades de uso da língua portuguesa de uma maneira a se preservar o trabalho dos escritores e dos artistas”.

“Eu também gostaria muito de levar um público para a ABL que não se via representado lá dentro”, disse a escritora. “Para que mais do que se ver representado, esse público também possa estar lá, presencialmente”, finalizou.

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