Foto: Fashion Revolution Brasil/DivulgaçãoMarina de LucasCoordenadora de mobilização no Fashion Revolution Brasil
Uma estimativa da organização Revolução da Moda Brasil aponta que só para o carnaval de Salvador (BA) em 2025 foram produzidos cerca de 326 mil abadás (camisetas usadas em camarotes e blocos de carnaval), tendo o poliéster a maior parte da matéria-prima. O volume resulta em aproximadamente 46 toneladas do tecido de origem fóssil em circulação para uso único.
O fato de serem peças facilmente sujeitas ao descarte, ainda que quando feitas de outras matérias-primas, faz dos abadás um problema para o meio ambiente, avalia a coordenadora de mobilização da instituição, Marina de Luca, em entrevista ao Estadão. As camisetas têm ainda como agravante a customização — processo em que as roupas passam por corte para serem adaptadas ao usuário, gerando resíduo têxtil.
“Nós vivemos em um mundo onde já produzimos muito mais roupa do que precisamos. Temos usado roupas por menos tempo e as descartado mais rapidamente. E, quando olhamos para o abadá do carnaval, é uma peça que demanda a mesma energia, matéria-prima, mão de obra e tempo para ser feita que uma roupa comum, só que ele é usado por apenas um dia. Isso é muito problemático.”
Para Luca, algumas saídas são possíveis para frear o descarte, se houver intenção das empresas patrocinadoras. Uma delas é fazer com que as peças sejam objeto de desejo de uso contínuo do usuário, como produzir abadás desmontáveis — como em formato de lenços, por exemplo — ou mesmo trabalhar com design afetivo, trazendo às estampas elementos e cores que tenham conexão emocional com o folião.

Marina de Luca é coordenadora de mobilização no Fashion Revolution Brasil Foto: Fashion Revolution Brasil/Divulgação
A gestora cita especificamente como exemplo com maior chance de reúso os abadás lançados neste ano pelo Camarote Brahmaem Salvador, que fazem referência a uniformes de jogadores de futebol, em alusão à Copa do Mundo de 2026. Nos sambódromos de São Paulo e no Rio de Janeiro, os camarotes Bar Brahma e Nº1 também recorreram aos tons de verde e amarelo nas camisas.
Leia abaixo os principais trechos da entrevista:
Em um artigo publicado no ano passado, a sra. afirma que os abadás do carnaval se tornaram ‘um problema ambiental’. Em linhas gerais, o que isso significa hoje?
Nós vivemos em um mundo onde já produzimos muito mais roupa do que precisamos. Isso na moda em geral, não só nos abadás. Temos usado roupas por menos tempo e as descartado mais rapidamente. E quando olhamos para o abadá do carnaval, é uma peça que demanda a mesma energia, matéria-prima, mão de obra e tempo para ser feito que uma roupa comum, só que ele é usado por apenas um dia. Isso é muito problemático. Quando calculamos a eficiência ambiental de uma roupa, consideramos toda a matéria-prima, a água, a energia e a mão de obra que foi necessária para produzi-la, e distribuímos ao longo da sua vida útil. O cálculo de eficiência ambiental depende de quantas vezes aquela peça é usada. E uma peça de roupa que é usada uma vez e depois perde o valor ela é muito problemática para o meio ambiente, porque não estamos nem honrando aquela matéria-prima retirada do planeta.
Em 2025, somente no carnaval de Salvador, a Fashion Revolution Brasil estimou que foram produzidos aproximadamente 326 mil abadás, a maioria vinda do poliéster. O que isso impacta nesse contexto de um problema ambiental?
Podemos pensar na matéria-prima, porque são mais ou menos 46 toneladas de tecido de poliéster que são usados um único dia e depois, no ano seguinte, vão ser retiradas de novo do planeta mais 46 toneladas. O poliéster vem do petróleo, através das refinarias, e passa por um processo industrial para se transformar em fio, um processo que utiliza bastante energia elétrica. E a partir do momento que ele vira fio e vai virar o tecido, ele já começa a liberar microplástico, que é um outro impacto ambiental bem importante. Então, desde a manipulação do fio até usarmos as camisetas no carnaval, (como) qualquer produto de poliéster continua liberando o microplástico ao longo da sua vida, e ele vai direto para o oceano. Grande parte da produção de microplástico do oceano é do mercado têxtil. Então, não dá para ignorar essas 46 toneladas anuais que estão liberando microplástico e que são completamente descartadas depois do carnaval.
Há uma mudança histórica para o poliéster nos abadás, frente ao padrão anterior das mortalhas (vestimentas anteriores aos abadás), com tecido de algodão. Sua proposta é parar de fabricar os abadás em poliéster?
O mais importante nem é tanto a composição do tecido, mas que possamos ter um produto que não seja de uso único. E as mortalhas de algodão não eram produtos de uso único. Tem toda uma cultura de reutilização para fazer almofada, toalha de mesa, roupa. Todo mundo que já usou mortalha alguma vez na vida, principalmente dos blocos de afoxé, que têm estampas que contam alguma história, ainda tem a sua mortalha e já usou para decoração da casa. Se eu fosse falar de um mundo ideal, os abadá deveriam ser feitos de algodão agroecológico, porém eu entendo também que o custo é muito alto. O algodão agroecológico hoje tem um custo totalmente diferente tanto do poliéster quanto do algodão tradicional. E a indústria é movida pelo dinheiro. Nenhuma indústria está, de fato, se preocupando em fazer algo com impacto menor. O próprio índice de transparência (Índice de Transparência da Moda, publicado em 2025) é uma prova disso, pois temos cinco anos de dados mostrando o quanto foi fraco o crescimento da transparência das empresas em relação às suas práticas socioambientais. Então, o ideal para o abadá é que fizéssemos uma peça que não fosse de uso único, e para isso temos muitas estratégias de ecodesign que podem ser utilizadas.
Quais estratégias?
Além da estética, com certeza o tecido. Quando escolhemos um tecido para fazer uma peça, você precisa pensar no uso. O poliéster esquenta (muito)e para usar no carnaval, às vezes, é incômodo na pele. Então, escolher materiais que tenham o menor impacto. Temos que pensar também se essa peça pode ser usada depois. Se é uma peça que conseguimos desmontar facilmente, o design desmontável, para usar de outra forma depois. As mortalhas eram um vestidão reto, muito fácil de cortar e fazer uma almofada, um forro, uma saia. Mas o abadá, hoje, é uma regata de poliéster com viés. Quando começa a cortar, ele já começa a se desfazer. E nós também colocamos um monte de brilho e lantejoula, que depois você não consegue usar também. E talvez uma redução no tamanho do produto. Muita gente transforma o abadá em top. Será que não deveríamos fazer um lenço e cada pessoa customiza e usa no corpo como quiser?

Abadá do Camarote Bar Brahma, de São Paulo, para o carnaval de 2026 Foto: Camarote Bar Brahma/Divulgação
Nessa questão da customização, de qualquer modo, a pessoa está descartando e diminuindo as chances de reutilizar a roupa em outro contexto. Como fica essa questão de ‘responsabilidade compartilhada’?
É muito difícil dizer: não customizem, não colem franjinhas, não cortem. Vejo que a culpa não é do folião. Existem formas de customização que mantêm o produto como ele está, tornando mais fácil a reutilização. Só que a customização também tem que ser pensada pelo designer, em como ele pode criar um produto que pode receber uma customização divertida, mas ainda assim ser reutilizado depois. Eu não tenho a solução pronta, mas não faz sentido na minha cabeça dizer que não customizem. A ideia é como que a customização pode ser de menor impacto.
O que influencia no impacto?
Uma coisa importante no mundo do abadá é a estética, o design. O design é uma ferramenta muito poderosa para influenciar no impacto ambiental de uma roupa. Se você faz um design de um abadá que não dá vontade de usar depois, que é muito marcador daquele dia do carnaval, daquele camarote, a chance de essa blusa ser reutilizada depois é menor ainda. Agora, há um caso muito legal para pontuar que é o do Camarote Brahma (de Salvador)que fez um abadá que é uma versão do uniforme da seleção brasileira de futebol masculino. Eles acertaram muito por ser um ano de Copa, em que as pessoas vão querer ter uma camiseta da seleção para usar. Então, a chance de as pessoas guardarem o abadá para continuar usando no mínimo ao longo deste ano já é muito grande. Chamamos isso de design afetivo.
Quando falamos em abadás, há uma cadeia de moda responsável por essas confecções, mas há também grandes patrocinadores estampados nessas camisas. De quem é a responsabilidade?
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É uma ótima pauta (discutir) de quem é a responsabilidade. Quem encomenda o abadá são os blocos, os camarotes. Só que os camarotes são feitos pelos patrocinadores. Então, a marca da cerveja coloca um camarote para que ela construa uma imagem de marca. A culpa não é de quem produz o abadá. Quem produz foi contratado por alguém para fazer uma camiseta barata, rápida e cheia de logos. Então, poderíamos dizer que parte da responsabilidade é do camarote. Mas o camarote foi contratado pela marca. Então, eu acredito que a grande responsável é a empresa que mais lucra em cima desse processo, que é a marca de cerveja, por exemplo. E apesar de eles apertarem muito as fábricas para fazerem o mais barato possível, o custo da peça para o camarote é um dos menores perto da estrutura toda. Se um abadá custasse um valor muito mais alto do que ele tá custando hoje, mas que permitisse utilizar eventualmente um algodão agroecológico, não creio que isso faria o camarote ou a marca falirem. Entendo que ficar falando que precisa ser barato não pode ser o argumento final para que não possamos mudar o impacto ambiental do abadá.
Então, cabe às marcas fazerem esse tipo de revisão de produção?
Acredito que sim. Entendo que sempre as demandas vêm do povo, o poder público enxerga, mas não tem muito poder em relação ao dinheiro, e quem tem o dinheiro é que toma a decisão. Então, quem tem o dinheiro são as marcas.
No fim das contas, a própria adoção do ESG passa por pressão de investidores, não é diferente na questão da indústria do carnaval também…
Exato. Porém, o poder público tem o seu lugar. Uma regulamentação, uma diminuição de impostos para quem tem práticas (ESG)uma equipe de fiscalização… Em tudo isso o poder público poderia contribuir, pois também entendemos que os sócios, financiadores, acionistas etc. são movidos a partir disso também. Vemos o exemplo das regulamentações europeias ficando mais rígidas em relação à transparência de cadeia produtiva e isso começando a chegar no Brasil. Isso veio a partir do poder público. Então, existe um poder do poder público, uma responsabilidade dele também.