Crônica: ‘Cadê a crônica que estava aqui?’

Crônica: ‘Cadê a crônica que estava aqui?’

Escrever sobre o cotidiano, o ordinário de cada dia foi sempre o que me encantou e o que me levou de leitora de crônicas de Fernando Sabino a Danuza Leão. Mas, para minha tristeza, parece que a crônica tem sido posta à prova, invadida e forçada a se disfarçar constantemente de posicionamentos, como se tivesse sempre que dizer algo nas entrelinhas: “Se ela disse isso é porque apoia aquilo”.

A leitura através das lentes que relatam detalhes da vida parece ter perdido o interesse para uma agenda secundária. Montei, então, a página com notas que me pareciam interessantes e pensei em seguir esse caminho também para o sábado, retirando assim a minha crônica semanal. Quem iria notar? Um fim sem adeus. Daí a surpresa das mensagens e emails indagando “cadê a crônica?” – pergunta para a qual eu não tinha resposta. Mas, afinal, cadê a crônica, Alice?

Um amigo me disse certa vez que sou uma pessoa sem agendas secundárias. Não é para tanto. Mas admito, tenho mais gosto por miudezas da vida, por olhar de perto particularidades de cada ser humano do que pelas grandes façanhas que esses gostam de contar ou mostrar.

Parece que a crônica tem sido posta à prova, invadida e forçada a se disfarçar constantemente de posicionamentos

Alice Ferraz

Cheguei à conclusão de que quanto mais sem graça um dia da minha vida pode parecer aos outros, mais graça eu acho. Normalmente meus dias mais glamourosos são ocos de significado. Uma casca fina de interesses superficiais que precisam de tempo para fazer sentido, quando fazem.

Bem, e foi daí, de achar que a parte que tem menos graça é sobre o que quero escrever e a que menos deve interessar às pessoas, que pensei em parar. Não estou interessada em tomar algum partido, em me posicionar nas minhas crônicas. Não estou interessada no ataque nem na defesa. Quero observar o nosso tempo – com tempo – e sobre ele escrever.

Mas depois de receber as mensagens, pensei e me recompus! Talvez meus leitores, assim como eu, tenham prazer em ler uma crônica que é um retrato – pessoal, sim – da sociedade atual, mas não faz da panfletagem sua meta. Talvez a gente aqui nesse breve espaço possa se dar ao luxo, eu de escrever e meus leitores de lerem, sem com isso ter mais nada em mente a não ser a graça de olhar as camadas dos viveres do nosso tempo.

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