Como um erro dos cientistas há mais de 50 anos me fez aprender a desconfiar de previsões

Como um erro dos cientistas há mais de 50 anos me fez aprender a desconfiar de previsões

Meus filhos têm medo do aquecimento global (eu também). Mas quando entrei na faculdade em 1974, meu medo era a explosão populacional, que havia substituído o medo anterior, o holocausto nuclear. E nem se falava em mudanças climáticas. E se o medo de hoje vem da leitura das previsões contidas nos relatórios do IPCC, em 1974 eu estava arrancando os cabelos com as previsões do relatório do Clube de Roma e de Paul Ehrlich.

Para mim tudo começou com a leitura do livro do biólogo Paul Ehrlich, que morreu semana passada. Sua morte me trouxe essas lembranças. Paul lançou em 1968 um livro chamado “The Population Bomb”. Nele analisava os dados do crescimento exponencial da população humana e os dados do parco crescimento da produção de alimento. Usando essas curvas para modelar o futuro da humanidade, Paul demonstrava que nos anos seguintes a fome era inevitável. E com ela viria um colapso das sociedades, com pessoas disputando o pouco alimento disponível. Os modelos previam que nas décadas seguintes centenas de milhões de pessoas morreriam de fome e os recursos naturais do planeta se esgotariam. Era urgente controlar a população.

Perplexo, fui atras de mais informações e logo encontrei o primeiro relatório do Clube de Roma, uma sociedade criada em 1968 por cientistas, economistas e intelectuais. Era o IPCC da época.

Em 1972, publicaram o primeiro e mais importante dos seus relatórios chamado “The Limits of Growth” que devorei em poucos dias. Nesse livro, não somente confirmavam as suspeitas de Ehrlich, mas projetavam que a humanidade também iria exaurir os recursos naturais do planeta nas próximas décadas. Se hoje nosso futuro é quente, na época ele era negro. Me engajei em desarmar a bomba populacional.

Foram essas ideias que fundamentaram os programas de controle de natalidade, alguns bem conduzidos, outros claramente imorais, como as grandes esterilizações de mulheres nas décadas seguintes. Eram os projetos de fixação de carbono da época.

As previsões contidas nesses livros estavam erradas. A realidade se impôs. Mas antes de criticar é bom lembrar que eles tiveram o mérito de popularizar a ideia de que existem limites para o crescimento e despertar a preocupação com a preservação dos recursos naturais, meio ambiente e de nosso planeta.

Ehrlich errou duas vezes. A população do planeta não continuou a crescer de forma exponencial e a produção de alimentos aumentou rapidamente. O que Ehrlich não podia prever, pois era um fenômeno que nunca havia sido observado, é que as populações humanas, à medida que enriquecem e são educadas, adotam métodos anticoncepcionais (a pílula já existia na década de 1960), o que faz com que a quantidade de filhos por mulher se reduza rapidamente para valores inferiores a 2,1 filhos por mulher. Essa é a taxa necessária para manter a população estável.

Hoje, um número crescente de países já possui taxas menores que 2,1 e a população mundial caminha para crescimento zero por volta de 2050. E provavelmente para uma redução até o final do século (olha outra previsão). Além disso, a revolução verde, com a adoção de adubos e agroquímicos, melhoramento genético e mecanização, tem levado a produções crescentes de alimentos por unidade de área. Hoje a fome existe, mas não pela falta de alimentos, e sim pela pobreza que impede a compra de alimentos.

Muitos economistas questionaram os argumentos de Ehrlich afirmando que novas tecnologias evitariam o colapso dos recursos naturais. E isso gerou a famosa aposta feita em 1980 entre Ehrlich e o economista Julian Simon. Eles fizeram uma lista de metais: cobre, níquel, estanho, tungstênio e cromo. Simon previu que em dez anos os preços desses metais, corrigidos pela inflação, iriam cair devido a novas tecnologias de exploração e produção, apesar de seu uso aumentar. Ehrlich previu que subiriam. Em 1990 os preços haviam caído. Simon venceu.

E foi assim que entre 1980 e 2026 troquei de medo. Ontem temia a superpopulação, hoje temo as mudanças climáticas. Mas aprendi a ser cauteloso. Previsões baseadas em extrapolações do passado nunca incorporam fenômenos ainda desconhecidos. E como ainda somos ignorantes sobre a atmosfera e o planeta, vai que a Terra começa a esfriar devido a algum fenômeno ainda desconhecido. É uma esperança. Pois se depender de nossas iniciativas em controlar as emissões de gases de efeito estufa nosso futuro será mesmo mais quente. Mas como diz a frase atribuída a Niels Bohr, a Yogi Berra ou mesmo a Mark Twain: “Previsões são sempre difíceis, principalmente se forem sobre o futuro”.

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