Você já ouviu falar que a agricultura familiar é responsável por 70% dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros? É uma afirmação que consta em inúmeros sites. Mas será que o porcentual é verdadeiro? E de onde veio?
A fonte mais citada é o IBGE. Em 2006, ele realizou o Censo Agropecuário, cujos primeiros números foram publicados em 2009. Pela primeira vez se usou o novo critério de agricultura familiar, que fora definido por lei em 2006. Mas vejam que interessante: nos dois relatórios que contêm os resultados do Censo não consta absolutamente nada sobre o consumo. Por quê? É simples: ele foca na produção.
Os estabelecimentos familiares até têm uma participação alta (em valor) na produção de horticultura e em extração vegetal – mas estes dois segmentos são bem pequenos, representam cerca de 2% do valor total da produção agropecuária. Nos outros segmentos, ficou bem distante dos 70%. Então ficou claro que a fonte não poderia ser o Censo Agropecuário do IBGE.

Novo critério de agricultura familiar foi definido por lei em 2006. Foto: Adobe Estoque
Em 2014, o agrônomo Rodolfo Hoffmann escreveu um artigo técnico dizendo o quanto aquela porcentagem era inverossímil e, além disso, seria extremamente difícil calcular de forma precisa, por a cadeia de valor entre a produção até a chegada à mesa ser bastante longa e complexa. Em 2017, Marco Antônio Mitidiero Júnior escreveu um artigo que embasava aqueles 70%. Mas havia um grande problema: ele usou um critério diferente do oficial para definir o que é agricultura familiar. Podemos desconsiderar, pois comparou bananas com laranjas.
Mas, afinal, de onde veio? Fazendo uma busca retroativa (antes de 2009), cheguei a algumas publicações do Instituto Lula de 2007 e 2008. Nos textos, fica evidente que não era esta a fonte primária.
Depois de mais buscas em outros sites, descobri que a fonte era o Portal do Ministério do Desenvolvimento Agrário, em 2007. Mas este portal não existe mais, foi apagado. E isso é normal porque, quando os governos se sucedem, eles mudam a estrutura dos ministérios e a estrutura dos próprios sites também (lembrando que o MDA chegou a ser extinto em 2016).
Mas descobri uma referência indireta. Recentemente, em 2023, Guilherme Cassel, que era ministro do Desenvolvimento Agrário naqueles anos, deu uma entrevista ao site O Joio e o Trigona qual ele fala que aqueles 70% foram um slogan criado pelo ministério que pegou por bater com a sensibilidade das pessoas comuns. Então ficou claro: cheguei à fonte primária e descobri como ela foi criada. Foi simplesmente um slogan que não tinha embasamento nos números do Censo Agropecuário do IBGE.
A mensagem que fica: muito cuidado com números que circulam aí como sendo verdades absolutas, com fontes apócrifas, porque, como podemos ver nesse caso, a fonte primária era uma declaração verbal, algo anedótico. E nunca considere o anedótico pelo valor de face.