Os fiscais dos 27 Creas espalhados pelo Brasil terão, até o primeiro bimestre de 2027, uma plataforma que promete revolucionar a fiscalização das atividades ligadas tems áreas de engenharia civil, agronomia e geociências. A ferramenta digital, integrada ao monitoramento via satélite, será uma arma poderosa para aferir atividades do agronegócio, por exemplo — tradicionalmente mais difíceis de ser avaliadas —, segundo Vinícius Marchese, presidente do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea).
“Quem é inspetor da modalidade de agronomia sabe o quanto é complexa a fiscalização do setor. É uma dificuldade não apenas no Estado de São Paulo, mas em todos os Estados do País. Quando você compara os números da agronomia, eles estão muito abaixo dos registrados em outras modalidades, justamente por causa dessas dificuldades”, afirmou Marchese, engenheiro de formação, durante o Colégio de Inspetores 2026, evento promovido pelo Crea-SP que reuniu 4 mil participantes, entre gestores e engenheiros, em São Paulo, neste sábado (28). Segundo o executivo, trata-se de uma mudança de paradigma. “A plataforma vai iluminar a fiscalização.”
Com relatos de animosidade — e até de violência física — contra fiscais, chegar ao campo com informações mais embasadas passa a ser decisivo. Por isso, a nova plataforma nacional de fiscalização é considerada estratégica pelos dirigentes do Crea. Os dados de sensoriamento remoto serão cruzados com outras bases, como a da Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAEs), para identificar se há atividades de engenharia — conhecidas ou não — nas áreas sinalizadas pelo sistema, criado pela atual gestão do Confea.
“Fiscalizar o agronegócio é realmente desafiador, seja pela dimensão territorial, seja pela dificuldade de identificar atividades específicas. Além disso, há questões de acesso e, em alguns casos, até riscos à integridade dos fiscais. Nesse sentido, o sensoriamento remoto se torna fundamental. Com imagens de satélite — de diferentes origens e com alta resolução —, será possível monitorar propriedades, identificar mudanças ao longo do tempo e entender o tipo de atividade em curso. Isso permite uma atuação mais precisa e segura”, afirma Igor de Mendonça Fernandes, gerente de Fiscalização do Confea.
Na prática, o funcionamento da plataforma seguirá um fluxo integrado. O sistema definirá as áreas de monitoramento; os satélites identificarão mudanças; e essas informações serão processadas por um núcleo de inteligência, responsável por cruzar dados e validar os alertas. A partir daí, os pontos serão distribuídos para fiscalização em campo.
Os fiscais, então, receberão as demandas pelo aplicativo, coletarão informações e poderão gerar processos administrativos, quando necessário — tudo com acompanhamento em tempo real pelos gestores. A função principal dos Creas é identificar se as obras de engenharia em curso tanto em áreas rurais quanto urbanas estão legais e sendo acompanhadas corretamente por um engenheiro registrado nos conselhos de seus Estados.
“Outro ponto relevante é a transparência e a mensuração de desempenho. Com base nos dados, será possível identificar quais regiões estão respondendo melhor às demandas e onde há necessidade de ajustes”, disse Marchese. Segundo o presidente do Confea, a fiscalização terá efeito direto no fortalecimento da profissão. “Experiências anteriores mostram que ações intensivas aumentam a contratação de profissionais e empresas, gerando mais oportunidades no mercado.”
São Paulo servirá de laboratório
O cronograma de implantação da plataforma aponta São Paulo como o primeiro Estado a utilizar o sistema, já a partir de agora. Após essa fase inicial, a operação será expandida para Sergipe, antes de alcançar todo o País.
“Essa plataforma vai agilizar muito nosso corpo funcional. Hoje, a maior parte das fiscalizações ocorre a partir de denúncias, seja da sociedade ou dos nossos inspetores, que estão reunidos neste evento. Agora, poderemos ser mais proativos”, afirma Lígia Mackey, primeira mulher a presidir o Crea-SP.
Em âmbito nacional, segundo Igor, do Confea, a principal contribuição da plataforma será ajudar a definir prioridades nas ações das equipes de fiscalização. “O sistema vai identificar tanto questões ambientais quanto eventos como desabamentos”, afirma. Segundo ele, a ferramenta também poderá ser útil, no futuro, no enfrentamento de grandes tragédias climáticas. “Em um caso como o do Rio Grande do Sul, por exemplo, poderia ter auxiliado no mapeamento de áreas alagadas”, completa o gerente do Confea. A ferramenta também tem o potencial de incrementar as atividades de fiscalização sobre a segurança do trabalho, outra frente bastante enfrentada pelos Creas. A integração dos dados monitorados pela plataforma com outras instituições públicas, no futuro, vai fazer com que a gestão sobre atos irregulares fique mais completa, segundo os representantes do Confea.