Em dezembro saiu um estudo que deixou muita gente confusa. Ele dizia que a desigualdade de renda no Brasil aumentou nos últimos dez anos, sendo que o governo fala que a desigualdade de renda diminuiu. Afinal de contas, o que aconteceu? O que os dados contam?
Começando pela versão do governo: ele considera o Índice de Gini, calculado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). O Ipea usa os dados da PNAD Contínua, que coletam, entre outros, a renda (via entrevistas). Este índice pode parecer um conceito inacessível e complexo, mas não é:
- Reta de Igualdade: representa uma sociedade utópica onde 10% da população cumulativa ganha 10% da renda cumulativa, 30% ganha 30%, e assim por diante.
- Curva Real: no mundo real, os 10% mais pobres ganham menos de 10% da renda total – e os 10% mais ricos ganham mais de 10% da renda total. O formato é sempre uma curva e quanto maior a curvatura, maiores as diferenças de renda.
- Cálculo: o Índice de Gini é o resultado da multiplicação por dois da área entre a reta de igualdade e a curva real.
A representação gráfica ajuda a entender:
Segundo a PNAD Contínua, houve uma queda discreta na desigualdade de 2015 a 2024.
Outra série do Ipeaque une dados da PNAD antiga e da contínua (via uso de um fator de correção), mostra uma queda considerável no longo prazo, mas que ocorreu principalmente antes de 2015.
A respeito do recorte temporal, vale notar que os últimos dez anos foram marcados por duas catástrofes: a recessão de 2015-2016 e a pandemia de 2020-2022 (o impacto é visível no gráfico).

De acordo com pesquisa publicada em agosto, os 10% mais ricos no Brasil aumentaram sua concentração de renda de 54% para 55%, entre 2001 e 2015 Foto: Clayton de Souza/Estadão
Ó outro estudo foi elaborado pela World Inequality Database, liderada, entre outros, pelo economista Thomas Piketty. Este estudo utiliza uma metodologia diferente: compara a renda dos 10% mais ricos com a dos 50% mais pobres. Há diferença também na fonte usada: além das entrevistas da PNAD Contínua, utiliza dados da Receita Federal, que captam melhor a renda do topo da pirâmide, segundo especialistas.
Os resultados mostram uma estabilidade na renda dos 10% mais ricos e uma leve redução na renda dos 50% mais pobres (que caiu de pouco mais de 10,3% para 9,3% da renda total do País). Isso resultou em aumento no fator que mede a distância entre estas duas faixas, que subiu de 53 para 63 nos últimos 10 anos.
Fato é que são metodologias distintas: uma analisa todas as faixas de renda simultaneamente (Gini), enquanto a outra foca na distância entre duas faixas específicas usando também dados fiscais. Portanto, não são diretamente comparáveis.
Em ambas, as variações foram pequenas. Quando as diferenças são sutis, os índices podem não captar a realidade com precisão absoluta devido ao grau de imprecisão inerente. Portanto, no meu entender, o panorama dos últimos dez anos no Brasil é inconclusivo. Será necessário aguardar mais alguns anos para confirmar se estamos caminhando para uma maior igualdade ou desigualdade.
Nota: apenas para reforçar o quanto é difícil cravar algo definitivo a respeito, veja no gráfico a evolução da renda dos 1% do topo da pirâmide no Brasil. Ela caiu (levemente) entre 2015 e 2024 – diferente do que vimos antes no percentual da renda do top 10%.
E se fôssemos considerar um intervalo temporal levemente distinto, iniciando em 2016, já teríamos outro resultado: a renda dos top 1% aumentando. Isto mostra o quanto a própria escolha do intervalo, mesmo que seja começando apenas um ano depois, também influi muito na conclusão (no caso de séries temporais nas quais não há uma tendência inequívoca).
E não custa lembrar: em assuntos como este, que envolvem questões políticas, as pessoas muitas vezes esquecem da racionalidade e partem para uma análise apaixonada – que invariavelmente não leva às conclusões corretas.