Imagine algo muito simples: eu te mostro uma folha de papel e pergunto o que você está vendo. Você responde: um quadrado vermelho. Vamos esquecer os dois extremos desse experimento: o início quando seu sistema auditivo levou minha pergunta ao seu cérebroe o final, quando sua boca emitiu a resposta. Entre essas duas pontas quem trabalhou foi seu sistema visual. Sua retina capturou a imagem da folha de papel e a transmitiu para seu córtex visual, a região do cérebro que processa a informação visual. De alguma maneira você (ou seja, sua mente) identificou um quadrado e a cor. Essa mesma mente conclui que a imagem é de um quadrado vermelho e transmitiu essa informação à área do cérebro responsável por emitir a resposta “um quadrado vermelho”.
Perceba os verbos que usei: capturou, transmitiu, processou, identificou e transmitiu. São ações da mente, mas são também um conjunto de atividades exercidas por neurônios. A mente, acreditamos hoje, não passa de um produto dos neurônios cerebrais, da mesma maneira que a circulação do sangue é o produto do coração e a urina é o produto dos rins. Por esse motivo, para cada verbo que listei acima corresponde a grupos de atividades elétricas de neurônios localizados no cérebro.
Uma das maneiras de entender a relação entre o cérebro e a mente consiste em descobrir e descrever os correlatos neuronais de processos mentais. Por exemplo, a mente identificar a cor como vermelho, corresponde a que atividade em quais neurônios?

O cérebro é muito plástico e atividades como o reconhecimento de cores depende muito de nossas experiências. Foto: ImageFlow /Adobe Stock
Nas últimas semanas, descrevi experimentos em que eletrodos eram colocados no cérebro de uma pessoa e atividades neuronais específicas eram correlacionadas a palavras, frases ou pensamentos. Um computador treinado para reconhecer os padrões colocava por escrito na tela essas palavras, frases e pensamentos. De certa forma ele estava lendo os pensamentos da pessoa.
Nesses experimentos o computador é treinado para identificar os pensamentos de uma pessoa e passa a ler os pensamentos dessa mesma pessoa. Mas será que um computador treinado para ler os pensamentos de uma pessoa é capaz de ler o pensamento de outras pessoas? Ou seja, será que os processos neuronais são suficientemente semelhantes entre diferentes pessoas? A resposta parece ser sim, pelo menos no caso da identificação de cores.
Os experimentos foram feitos utilizando um equipamento de ressonância magnética semelhante aos existentes nos hospitais, mas que além de mostrar o interior da cabeça registra, como se fosse um filme, a atividade de todos os pequenos grupos de neurônios. Assim, se a pessoa está na máquina e aparece na sua frente uma dada imagem a máquina mostra todas as áreas do cérebro que vão sendo ativadas a partir do momento que a imagem apareceu. E entre essas áreas ativadas estão as responsáveis pela identificação do quadrado, da cor, e de outras atividades relacionadas à imagem.
O que os cientistas fizeram foi submeter mais de vinte voluntários a um grupo de imagens de círculos concêntricos, como se fossem anéis, de três cores diferentes, azul, vermelho e amarelo. Após terem coletado os dados da ressonância para cada cor, eles usaram os dados para treinar um computador a distinguir que neurônios eram ativados no cérebro de cada pessoa quando olhavam cada cor. Ou seja, treinaram o computador a encontrar os correlatos de atividade neuronal associada à identificação da cor.
Até aí é um experimento que já foi feito inúmeras vezes com os mais diferentes estímulos visuais. A novidade foi o passo seguinte.
Os cientistas colocaram na máquina pessoas que nunca haviam sido submetidas ao experimento e repetiram o mesmo experimento com as diferentes cores. Mas em vez de usar os dados para treinar o modelo, como na primeira parte, eles usaram o modelo criado a partir do primeiro grupo de voluntários para testar se ele era capaz de identificar a cor que estava sendo mostrada. E, de fato, o modelo treinado com um grupo de voluntários se mostrou capaz de identificar cada cor corretamente em outras pessoas. Isso demonstra que, pelo menos em alguns casos, o padrão de atividade neural relacionado a um acontecimento na mente de um cérebro (no caso a identificação de cores) é o mesmo em outros cérebros.
Essa descoberta é importante pois até agora se suspeitava que a maior parte desses padrões de atividade neuronal eram diferentes em diferentes pessoas. Isto porque o cérebro é muito plástico (as interações entre neurônios se modificam a partir das experiências que vivemos) e atividades como o reconhecimento de cores depende muito de nossas experiências. Uma criança aprendeu o que é vermelho vendo o fogo, outro observando o pôr do sol e assim por diante.
Mas, se essa descoberta se confirmar em outros padrões de atividade, é possível que algum dia uma máquina treinada para ler pensamentos num grupo de pessoas possa ler os pensamentos de qualquer pessoa. Mas estamos muito longe disso, não se preocupe.
Mais informações: Vieses de cores em larga escala na arquitetura funcional retinotópica são específicos da região e compartilhados entre cérebros humanos. J. Neurosci. https://doi.org/10.1523/jneurosci.2717-20.2025 2025