Microplásticos nos oceanos pesam o mesmo que 10 mil baleias
Estudo publicado na revista científica Plos One aponta que nada menos do que 171 trilhões de partículas de plástico. Crédito: TV Estadão
A AmoKarité, focada em maquiagens sustentáveis, lançou glitter biodegradável em 2023, substituindo microplásticos por celulose. A demanda cresceu, com vendas de biopurpurina quase dobrando em 2025. Apesar do custo maior, a marca aposta na redução de danos ambientais. O Grupo Boticário também oferece glitter ecológico, refletindo a tendência de unir sustentabilidade e performance. Especialistas destacam a necessidade de educar o público sobre os impactos ambientais do glitter tradicional.
Focada em maquiagens de baixo impacto ambiental, a AmoShea começou a trabalhar com glitter biodegradável em 2023. Para não usar microplásticos, tradicionalmente utilizados para a produção de purpurinas, a marca tem produzido os brilhos a partir de matérias-primas de origem vegetal, principalmente celulose, para que o material se decomponha mais rápido no meio ambiente.
A empresa, criada em 2020, é uma das marcas no Brasil a oferecer aos clientes opções ecologicamente amigáveis de purpurina, frente à predominância da produção dos materiais de origem plástica (com PVC, PET ou poliéster), nocivos à saúde animal e ambiental.
Com a demanda do carnaval, os produtos têm sido destacados pelas empresas em materiais de marketing e conquistado a preferência do público. Segundo a sócia da AmoKarité, Clara Klabin, a procura pelo produto aumentou significativamente no período, que quase dobrou o número de vendas em relação ao ano passado.

Glitter biodegradável da AmoKarité Foto: AmoKarité/Divulgação
“Em 2024, vendemos aproximadamente 7 mil unidades de biopurpurina durante a temporada. Em 2025, até o momento, já ultrapassamos 12 mil unidades vendidas, demonstrando um crescimento expressivo e um interesse cada vez maior do consumidor por alternativas mais conscientes”, diz.
O produto, contendo 2,5 gramas, é vendido por R$ 35 a embalagem, enquanto a versão feita com microplástico no mercado pode oferecer a mesma quantidade por pouco mais de R$ 1, principalmente na versão destinada ao uso escolar.
O glitter comum, apesar de barato, tem uso corporal desaconselhado pela Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC), segundo nota da entidade ao Estadãopor ser “fabricado com materiais não destinados ao contato direto com a pele e oferecer sérios riscos à saúde”. A entidade orienta os consumidores a usar somente o glitter cosmético regulamentado pela Agência Nacional de vigilância Sanitária (Anvisa).

Demanda pela purpurina cresce no carnaval Foto: Tiago Queiroz/ Estadão
A advertência de saúde não consegue frear o consumo da opção bem mais barata do produto, e concorrer com o preço baixo é o principal desafio para enfrentar uma indústria historicamente baseada no plástico, que ainda oferece produtos mais baratos e distribuídos amplamente, comenta Klabin.
“A única maneira de oferecer produtos ultra baratos é ter escalas enormes como a indústria plástica tem, porém o preço que se paga ambientalmente é enorme”, ressalta. “Optar pelo glitter biodegradável é uma escolha por redução de danos. Não é o caminho mais barato nem o mais fácil, mas é o mais coerente com o futuro que acreditamos.”
Vazamento de microplásticos
A opção por diminuir a produção de microplásticos têm base em cálculos preocupantes, como os fornecidos em junho de 2025 pela Organização das Nações Unidas (ONU). Segundo a entidade, por meio do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, 2,7 milhões de toneladas de microplásticos vazaram para o meio ambiente em 2020. A estimativa é que esse número dobre até 2040.
As partículas, que tem até 5 milímetros, podem prejudicar o crescimento de plantas e animais marinhos, além de interferir na qualidade do solo, de acordo com mapeamento da entidade a partir de pesquisas científicas.
Mesmo com os danos ambientais do glitter comum, os alertas ainda não são suficientes para dar mais robustez ao mercado de bioglitter, fazendo com o que o segmento ainda seja incipiente. Na avaliação da professora e curadora do Hub de Beleza e Wellness da ESPMPatricia Diniz, esse é um mercado que está se desenvolvendo e ganhando maior visibilidade, mas exige um trabalho de formação junto ao público.

AmoKarité vende glitter biodegradável desde 2023 Foto: AmoKarité/Divulgação
“Esse tipo de produto precisa passar por um trabalho prévio de educação do público. Eu arrisco dizer que a maior parte das consumidoras de glitter nem sabe que é ele um produto tão nocivo para o meio ambiente e para a vida marinha. Algumas marcas apostam (na purpurina ecológica)principalmente no carnaval, mas ele ainda não chegou ao grande público”.
Além da barreira de preço, o desempenho da versão com microplástico ainda conta como um diferencial. “Quando falamos de performance, o público de carnaval quer brilho intenso e fixação. Tecnicamente, o microplástico reflete a luz de forma quase imbatível. O desafio é criar uma alternativa biodegradável que entregue o mesmo ‘impacto visual’. Se brilhar ou durar menos, a adesão cai, independentemente do apelo ecológico”, pondera a professora.
Performance e responsabilidade ambiental
Não Grupo Boticárioo glitter livre de microplástico é vendido desde 2022, sendo comercializado por duas marcas: Vult e Quem Disse, Berenice?. A diretora de Marketing Make-up da companhia, Ariela Bonemer, explica que a empresa acredita que é possível oferecer aos consumidores alternativas mais conscientes, sem abandonar inovação, qualidade e criatividade.
“A decisão (de adotar o glitter ecológico no portfólio) nasce de um entendimento muito claro de que maquiagem é expressão criativa, e essa criatividade pode evoluir junto de escolhas mais conscientes. Existe uma demanda crescente por produtos que unam tendência, performance e responsabilidade ambiental, e nossas marcas acompanham de perto as necessidades do mercado.”
As marcas do Grupo Boticário não abriram números de vendas de glitter à reportagem, mas pontuaram que, apesar de o carnaval ser um dos períodos culturais mais relevantes do ano para as linhas, os produtos estão no portfólio permanentemente, sinalizando que há demanda frequente pelo produto.
“Em Vult, a linha Ecoglitter teve procura crescente. Começou como edição especial e segue no portfólio, com um diferencial importante de ser multifuncional. Em Quem Disse, Berenice?, também vemos esse aumento, impulsionado pelo interesse do público da marca por alternativas que entreguem brilho e conversem com valores da comunidade, como escolhas mais conscientes.”
Ainda que o segmento esteja em fase de buscar se firmar, o cenário é promissor. Conforme avalia a especialista da ESPM, o alinhamento da purpurina à proposta sustentável feita pelas empresas pode ser um aliado poderoso para as marcas, em termos de diferencial nos negócios, havendo um trabalho que converta intenção em compra, para ganho de escala e diminuição de preço.
“Hoje, alinhar cosméticos à sustentabilidade já traz um diferencial competitivo, especialmente entre gerações mais jovens e no mundo digital. Porém, ainda existe um lacuna (lacuna) entre a boa intenção e a compra. Quando bem comunicada e com preço competitivo, a sustentabilidade pode virar um diferencial poderoso.”