Brasil de ponta-cabeça: como os 150 anos de Censos revelam um país em rápido envelhecimento

Brasil de ponta-cabeça: como os 150 anos de Censos revelam um país em rápido envelhecimento

O recente Censo de 2022 é um marco histórico: ocorreu exatos 150 anos após nosso primeiro Censo oficial, em 1872.

Nesta coluna, examinarei algo do que os 13 Censos realizados no Brasil contam sobre o passado e o futuro.

Comecemos pela população total:

No primeiro Censo, ainda no Brasil Império, éramos um país relativamente pouco populoso, com menos de 10 milhões de habitantes. Houve um crescimento vertiginoso no século passado, principalmente na década de 60, quando a população cresceu 3,1% ao ano em média. Já entre os Censos de 2010 e 2022 crescemos apenas 0,7% ao ano – pela primeira vez, abaixo de 1%.

Os 211 milhões de 2022 (calculados após pesquisa de pós-enumeração) representam cerca de 2,5% da população total do mundo – contra os 0,7% do mundo que éramos há 150 anos. Nossa população cresceu muito, tanto em termos absolutos e relativos.

Algo que salta à vista na linha do tempo dos Censos é a periodicidade não-uniforme.

Começou num ano arbitrário (1872), e idealmente seria realizado novamente a cada 10 anos. Como estamos no Brasil, sabemos que nem sempre o ideal é possível: o de 1880 foi cancelado e o segundo Censo foi realizado apenas 18 anos depois, em 1890, já no Brasil República.

Vale lembrar que o IBGE ainda não existia e a estrutura de coleta e consolidação de dados era extremamente precária – tanto que os últimos dados deste Censo levaram 10 anos para sair, junto ao Censo de 1900. O Censo de 1910 foi cancelado por distúrbios políticos, e um novo só ocorreria em 1920. Também por distúrbios políticos o Censo de 1930 foi cancelado.

A partir do Censo de 1940, a pesquisa passou a ser feita pelo recém-criado IBGE – e, a partir daí, com periodicidade decenal. Houve duas exceções: os de 1990 (pela crise econômica, só feito em 91) e o de 2020 (só em 2022, devido à pandemia). Pode parecer um detalhe menor, mas ter um intervalo de 11 ou 12 anos em vez de 10 anos atrapalha demais os estatísticos e gestores públicos, pois é preciso ajustar os dados retroativamente e perde-se precisão.

Agora voltemos à série histórica da população, mas decomposta em faixas etárias:

Historicamente, o ranking de tamanho das faixas etárias era dos mais jovens para os mais velhos: 0 a 9 maior que 10 a 19, 10 a 19 maior que 20 a 29, e assim em diante. Esta sequência se manteve inalterada até o Censo de 2000, quando, pela primeira vez, a faixa dos 10 aos 19 passou a ser mais numerosa que a de 0 a 9 anos. No de 2010, foi a vez dos de vinte e poucos anos ultrapassarem os de 10 a 19 – e assim será sucessivamente daqui em diante.

Um ponto que muito me chamou a atenção foi uma anomalia no Censo de 1920:

Um grupo etário específico deu um salto: o de 10 a 19 anos (muito diferente dos demais). De onde teria vindo? Considerando que o último Censo fora em 1900, não há como buscar pistas no histórico.

Possibilidades teóricas: imigração ou aumento na natalidade. Mas há um porém: no Censo seguinte (de 1940), estes cidadãos teriam de 30 a 39 anos – mas já aí não conseguimos ver este crescimento anormal no gráfico. Em outras palavras, não há consistência. Aqui temos uma possibilidade alta de ser um erro nos dados – algo bem plausível, considerando a precariedade com a qual os Censos eram conduzidos antes da existência do IBGE.

Vale lembrar que os Censos não apenas medem nosso passado – eles ajudam o IBGE a fazer projeções para o futuro (lembrando que boa parte do que aparecerá nos próximos Censos já está “encomendado”).

Vejam aqui o passado recente e as projeções até 2050.

Observem o quanto aquele mix de gerações – que se mantinha constante – irá literalmente virar de ponta-cabeça. As crianças até 9 anos, até recentemente a faixa mais numerosa, serão a menor categoria já em 10 anos. Nossa transição demográfica não apenas é uma mudança grande – é uma mudança rápida. De acordo com o saudoso demógrafo José Alberto Magno de Carvalho, da UFMG, fizemos em quarenta anos o que a Inglaterra fez em 120”.

Um ponto simbólico nesta virada será o não tão distante ano de 2039: segundo as projeções do IBGE, será neste ano que teremos mais habitantes maiores de 65 anos que menores de idade (hoje são 2 menores de idade para cada maior de 65).

Aliás, vale lembrar que o número de crianças e adolescentes em idade escolar já está em queda há uma década – foram 19% de redução de tamanho de população entre 4 e 17 anos. Já começam a sobrar vagas em escolas – e vão sobrar mais!

E aqui algo que me surpreendeu: o início do declínio da população economicamente ativa (14 a 65 anos) ocorrerá já a partir de 2035 – daqui a dez anos somente!

Pela primeira vez, uma redução na disponibilidade de mão-de-obra. Já considerou as implicações disto?

Quanto à população como um todo, pelas projeções do IBGE, ela começará a decrescer em 2046.

Estes exemplos mostram o quão importantes os Censos são para entender o nosso passado e planejar o nosso futuro – e isto não vale apenas para os gestores públicos. Em negócios privados e mesmo na vida pessoal estas mudanças acabam se fazendo sentir no cotidiano.

Mais um motivo para reconhecer a importância e defender o devido financiamento dos Censos conduzidas pelo IBGE – lembrando que o último quase não saiu devido a restrições orçamentárias.

(Nota: a rigor, a categoria “70 anos e acima” não está seguindo o padrão das demais, com 10 anos de intervalo, mas é uma limitação imposta pelo não-detalhamento destas idades em Censos do início da série).

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