Vou descrever duas estratégias de vida. Utilizei pessoas próximas a mim. Trocarei os nomes pelo bem da privacidade. Todo o resto é real. Por que escolhi as duas? Porque de forma autônoma conseguiram representar duas atitudes radicalmente distintas. Servirão para nossa reflexão. Em língua clássica, ambas seria epítomes de uma atitude, símbolos bem delineados de uma postura.
Elas são jovens e com boa formação universitária. Ambas casadas e ambas com um filho. Eis as duas situações.
Helena está casada há quase vinte anos e tem um filho adolescente. Trabalha com empenho e possui bons amigos. Inteligente e produtiva, tem uma dificuldade: o enfrentamento direto. Combinou com seu marido que sairiam juntos em um sábado para escolher o aparador para a sala do novo apartamento. Viajou a trabalho e, ao voltar, descobriu que Clóvis tinha tomado a iniciativa de realizar a compra enquanto ela estava fora. O móvel não era ruim. O preço era adequado. Talvez fosse provável que tivesse sido o mesmo que teriam adquirido juntos, caso ele tivesse feito o que tinha sido acordado. Mas… o marido ignorou a decisão conjunta e saiu sozinho. Helena foi ignorada. Observou a sala com espanto seguido de tristeza. Não era a primeira vez que isso ocorria.

Juntando dois seres humanos em um casamento, o drama individual fica potencializado Foto: Mark – Stock.ADOBE.com
O que ela fez? Foi para o banheiro chorar. Estava magoada, mas não desejava uma briga por causa de uma mobília. Apanhou o golpe calada e hidratou a mágoa no chuveiro. Macerou um incômodo que, agora, atendia pelo nome de aparador. Conciliadora, avessa a escândalos, desejosa de harmonia com o cônjuge, silenciou. Sacrificou o que achava ser sua dignidade para evitar “clima”.
Paula é inteligente como Helena. Seu casamento de dez anos produziu um menino nascido há pouco. Vive bem com o marido e ambos usam profissionalmente as redes sociais.
Estavam em uma fazenda com outros amigos. O casal Paula e Gabriel decidira publicar fotos do filho somente após algum tempo. Fariam um post comum. No amanhecer daquela sexta-feira, despertando no campo, Paula soltou um grito! Gabriel não tinha resistido e fizera uma publicação com foto do menino apenas no perfil dele. Paula foi até a sala onde estavam os amigos e, sem controle, atacou o companheiro. Gritava. As mãos estavam crispadas. Usou palavras fortes sobre quebra de confiança e cumplicidade. Quando ele tentou se desculpar e dizia que agora já tinha feito, ela mandou que ele apagasse a publicação, que já tinha milhares de curtidas. Tudo foi feito com dureza extrema e na frente de outras pessoas. Ele achou mais seguro apagar e ficar em silêncio, aguentando os golpes de cabeça baixa e envergonhado.
Helena cedeu sem argumentar. Paula reagiu gritando. Uma evitou demarcar uma fronteira. Outra ergueu a muralha da China com canhões. Uma chorou, a outra berrou. São duas estratégias extremas.
Testemunha da cena na fazenda e tendo ouvido a narrativa do ocorrido com o aparador, fiquei imaginando com meus botões. Se Paula tivesse visto o aparador, teria exigido, aos gritos, que o marido devolvesse a peça naquele instante. Falaria que ele tinha errado e que deveria arrumar o erro. Se Helena estivesse naquela fazenda, ao ver a publicação que promovia um distrato, teria ido chorar longe da casa.
Posso pensar que há exagero em ambas. Helena poderia argumentar com franqueza e deixar claro que foi uma quebra de acordo. Em vez de chorar, poderia conversar, pedir que a falta não se repetisse. Paula poderia fazer o mesmo, sem gritos e sem exposição pública. Ambas viveram a experiência de um marido que errou. Ambas exageraram na reação: uma para mais e outra para menos. Houve excesso nos dois casos.
Imagino que dentro de toda pessoa exista uma Paula e uma Helena. A tradição patriarcal cobra da mulher a manutenção da paz no casamento. Helena seria elogiada por conservadores, afinal, o marido comprou bem e ela nem precisava ter chorado. A iniciativa masculina poupou o sábado dela.
Porém, todos temos impulsos de Paula. Se eu deixar claro com firmeza qual a fronteira que não pode ser ultrapassada, respeitarão mais o que foi combinado comigo. A dureza é eficaz, quase sempre. Provavelmente o marido de Paula pensará muito antes de quebrar um acordo no futuro. Não existe aprendizado mais rápido do que a dor.
Vale a pena? Seria desejável misturar as duas e obter uma reação mais equilibrada? Não concordo que você quebre um pacto, porém… não despejo napalm sobre nosso casamento. Funciona? Há pessoas que só concordariam com o combinado se tivessem medo da reação? Gentileza gera mais licença para ações tóxicas? Não tenho uma resposta universal.
É o desafio de toda relação. Qual a dose adequada diante de uma falta? Paula conseguiria dialogar e Helena enfrentar? Deveríamos entrevistar os maridos e obter o contraditório? O indivíduo sempre será uma incógnita impossível de ser submetido a leis exatas. Juntando dois seres humanos em um casamento, o drama individual fica potencializado. E hoje falam em trisal… Você tem esperança em bodas de prata a três?