O ser humano possui um sofisticado sistema de defesa contra o ataque de outros seres vivos. Quando observamos um leão que se aproxima, essa informação chega ao nosso cérebro e provoca respostas imediatas: hormônios são liberados nos preparando para fugir e músculos são ativados. Com essas providências, e um pouco de sorte, muitos escapam.
Quando a ameaça é um vírus ou micro-organismo, a resposta é dada pelo sistema imune, que só reage quando a infecção se instala. Ameaças macroscópicas (leões, por exemplo) são detectadas via órgãos dos sentidos (visão) e a resposta é comandada pelo cérebro. Ameaças microscópicas (vírus) são detectadas pelo sistema imune após a infecção e combatidas por ele.
Mas agora foi descoberto que nosso sistema imune pode ser ativado diretamente pelo cérebro quando ele visualiza uma ameaça.

Cientistas descobrem que nosso sistema imune pode ser ativado pelo cérebro quando o corpo capta uma ameaça. Foto: Estoque de Siriphiroon/Adobe poravute poravute
Faz décadas que sabemos que existe uma via de comunicação entre o sistema nervoso central e o sistema imunológico. Estresse e outros processos psiquiátricos alteram o funcionamento do sistema imune e isso é mediado pelo hipotálamo (uma região do cérebro).
Sabemos também que em humanos e em outros primatas, quando observamos uma pessoa com sinais visíveis de doença (espirrando, por exemplo) tendemos automaticamente a nos distanciar, dificultando a contaminação. Todos nós já nos desviamos na rua ou seguramos a respiração ao cruzar com pessoas visivelmente doentes.
Com base nesses fatos, um grupo de cientistas imaginou que talvez a simples visualização de uma pessoa doente pudesse fazer com que nosso cérebro ativasse o sistema imune preventivamente. Ou seja, será que o sistema imune pode ser ativado pela simples imagem visual de uma pessoa infectada por um vírus antes mesmo de o vírus entrar no corpo? E eles foram testar essa hipótese.
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Os experimentos foram realizados em grupos de voluntários que vestiam óculos de realidade virtual. As pessoas foram divididas em dois grupos. Ambos os grupos observavam uma mesma pessoa caminhando em direção contrária. Em um dos grupos, a pessoa tinha aparência saudável que podia ser constatada à medida que ela se aproximava (grupo saudável).
No outro grupo a pessoa que se aproximava apresentava todos os sintomas de gripe, tosse, coriza, olhos vermelhos (grupo doente). Num primeiro experimento, foi possível medir a reação dos voluntários nesses dois grupos.
Os do grupo doente manifestavam reações de repulsa e ansiedade, o que não ocorria no grupo saudável. Isso demonstra que o sistema de realidade virtual provoca a mesma reação que observamos normalmente nas pessoas.
Em seguida, o experimento foi repetido com as pessoas usando equipamentos de eletroencefalograma. Nesse experimento, ficou claro que áreas diferentes do cérebro eram ativadas nos dois grupos, demonstrando que a visão de uma pessoa doente provoca um padrão de atividade cerebral distinta.
No terceiro experimento, os voluntários usaram os óculos dentro de um equipamento de ressonância magnética funcional, que permite mapear detalhadamente as áreas do cérebro que são ativadas quando o voluntário identifica a pessoa como um doente. Nesse experimento, foi possível demonstrar que as áreas ativadas são as que participam do eixo de comunicação entre o sistema visual e o sistema imune.
Finalmente, o experimento mais importante: os voluntários foram divididos em três grupos, os dois primeiros receberam as imagens de pessoas saudáveis e doentes e um terceiro grupo recebeu uma dose de vacina da gripe, que sabidamente ativa o sistema imune.
Oito horas após o início do experimento, o sangue foi coletado das pessoas nos três grupos e marcadores de uma resposta imune foram medidos. Como era de se esperar, nas pessoas que somente observaram uma pessoa saudável, não houve resposta do sistema imune.
Nas pessoas que haviam recebido a vacina, foi observada a resposta imune típica de uma pessoa imunizada. E o mais impressionante é que as pessoas que somente observaram uma pessoa doente com óculos de realidade virtual também desenvolveram sinais claros de ativação do sistema imune. Isso demonstra que nosso sistema imune pode ser ativado só através de uma estimulação visual.
Essa descoberta muda muito nossa compreensão das relações entre o sistema nervoso central e o sistema imune. É a primeira vez que essa relação é observada e, claro, esses experimentos vão ser repetidos para termos certeza que eles representam mesmo o que ocorre no nosso corpo. É o tipo de descoberta que, se confirmada, pode vir a merecer o Prêmio Nobel de Fisiologia.
Mais informações: A antecipação neural da infecção virtual desencadeia uma resposta imune. Neurociência da natureza.