Jô Soares contra o regime

Jô Soares contra o regime

Depois de dois anos de sucesso no Rio de Janeiro, o humorista Jô Soares (1938-2022) estreava em 21 de agosto de 1980 o seu show “Viva o Gordo e Abaixo o Regime” em São Paulo. O nome do espetáculo brincava com o peso do artista e com o regime militar ainda em vigor, naqueles dias vivendo o período da chamada abertura. No dia da estreia o Jornal da Tarde dedicou uma página inteira da seção Divirta-se a uma conversa em que Jô falava sobre o show e outros assuntos. Leia a íntegra:

Jornal da Tarde – 21 de agosto de 1980

Humor e inteligência no palco. E o teatro ganha alguns recordes.

O público paulista está em contato com ele semanalmente, apesar do seu afastamento de mais de oito anos dos palcos da cidade. Seus personagens humorísticos chegam a milhões de lares todas as segundas-feiras, fazendo com que os expectadores incorporem ao seu dia-a-dia, em pouco tempo, frases como “vai pra casa, Padilha”, ou muy amigo, muy amigo”. Agora esse contato será ampliado e não se dará apenas através de milhares de televisores. Também em horário nobre. Jô Soares estará, a partir de hoje e sempre de quinta a domingo, ao vivo, no espetáculo Viva o Gordo e Abaixo o Regime, que estréia para o público no Teatro Procópio Ferreira, em São Paulo.

Esse reencontro direto com o público paulista deveria ter acontecido, na verdade, há pelo menos um ano. Entretanto, Jô Soares não pôde deslocar o seu espetáculo para cá antes que ele fosse visto por aproximadamente 280 mil pessoas no Rio de Janeiro, um verdadeiro recorde de bilheteria naquela cidade. Durante dois anos inteiros, o Teatro da Praia, em Copacabana, teve seus 600 lugares ocupados em todas as apresentações de Viva o Gordo e Abaixo o Regime. Os personagens ficaram conhecidos pelos cariocas (todos são interpretados por um único ator em cena, o próprio Jô, as piadas foram comentadas e repetidas, mas, seja como for, todos queriam ver o humorista de perto.

RENOVANDO O SHOW

Jô comenta o êxito do seu terceiro grande trabalho em teatro com muita calma. Ajeita-se muito comodamente numa poltrona, apesar dos seus 120 quilos, fuma seus cigarros importados e, falando baixo, explica que Viva o Gordo não é apenas um show.

— Show de humorista no Brasil tem muito a ver com o imobilismo de alguém que se coloca diante de um microfone para contar piadas. O meu espetáculo conseguiu ficar tanto tempo em cartaz no Rio de Janeiro porque tem sua característica vital. Ele se renova. É uma montagem de teatro com suficiente abertura para ser atualizada sempre que necessário. Por isso é que, apesar de ter um enorme volume de riso, o espetáculo também comove a platéia.

Viva o Gordo e Abaixo o Regime chega a ser um fenômeno teatral. Nunca um humorista lotou uma casa por tanto tempo, e nunca um espetáculo teatral no gênero ficou tanto tempo sendo exibido. Mas o que Jô Soares faz de tão excepcional em uma hora e 50 minutos de representação no palco?

UM ATOR DO RISO

— Bem, eu faço de tudo. Canto, danço, pulo, mas, antes de tudo, eu represento.

E, aqui, Jô faz a sua primeira distinção: em Viva o Gordo, não está em cena um comediante e sim um ator. Mesmo porque, para ele, personagens vividos no palco não tem nada a ver com os apresentados pelo programa de televisão Planeta dos Homens. Jô parece ser multo rigoroso a esse respeito

— Personagem de vídeo é com a televisão. Personagem de palco é com o teatro.

Feita mais esta distinção, conta o que todo mundo gostaria de saber como é que Jô Soares cria estes personagens? No caso de Viva o Gordo, ele apresentou algumas idéias aos outros dois autores do texto, Armando Costa e José Luiz Arcanjo — este último é, inclusive, o diretor da Jô Soares Produções Artísticas. Os três juntos criaram todo o espetáculo, num perfeito processo de integração artística. Ou de comunhão de risos.

— Por exemplo, no show, eu represento um figurante de cinema que, de tão gordo, consegue se vestir de várias maneiras a partir de uma mesma roupa. Esse problema do gordo que nunca encontra uma roupa que lhe sirva é uma idéia que vem comigo desde garoto. Mas eu sempre deixava a sua execução para mais tarde. Até que decidimos acabar o personagem a tempo de incluí-lo no roteiro de Viva o Gordo.

Mas o figurante não conseguia ser convincente no palco e Jô sabia que havia algo de errado com o personagem. Até que, durante um ensaio, descobriu que não poderia jamais ser um tipo carioca e, sim, um paulista nascido na Mooca. “Pronto, estava tudo resolvido numa única sacada”, comenta Jô.

Entretanto, os momentos iniciais de Viva o Gordo não foram escritos por ele. Nem por José Luiz Arcanjo e Armando Costa. Os risos iniciais são provocados, na verdade, por um texto de Millôr Fernandes escrito especialmente para o espetáculo. “O Millôr é um cara genial”, diz Jô, “um amigão que sempre esteve presente aos meus trabalhos em teatro”.

HUMOR E COTIDIANO

É difícil dizer, com exatidão, quantos personagens foram criados até hoje por Jô Soares. Estão por volta de uma centena, mais ou menos. E a produção dos novos tipos está muito longe de terminar. “Eu tenho o meu processo de armazenamento. Vou colocando tudo em gavetas. Por exemplo, já existe uma boa gaveta de personagens novos para o próximo espetáculo de teatro.

Mas a próxima montagem deverá demorar ainda um bom tempo. Jô já tem pedidos para apresentar Viva o Gordo em quase todas as capitais brasileiras e ainda há a insistência dos empresários portugueses em levar o espetáculo para aquele pais.

Entre um cigarro e outro, Jô passa a mão nos cabelos, parece ser uma pessoa vaidosa. Mesmo entretido em responder às perguntas, mantém um olhar atento para o fotógrafo, como que conferindo se o que se focaliza são os seus melhores ângulos. A calça e o paletó são de couro, e botas de camurça. Na orelha direita, um pequeno brinco de ouro.

“Sou um observador do cotidiano. Aliás, como todo mundo”. E com estas poucas palavras que ele justifica o seu interesse por tipos humanos. As vezes, ele não tem tempo para curtir as diferentes vozes, sotaques e posturas dos novos personagens. Nesses momentos de aperto, sabe que é capaz de sentar-se numa máquina e se obrigar a escrever um texto de humor.

PERSONAGENS

Na sua galeria de personagens, os preferidos são de modo geral, os que estão em contato com o público no momento. Por exemplo, atualmente, Jô está muito apegado a Gardelon, um argentino de boa fé, cabelos glostorados, terno de risca de giz, bigode ralo e cigarro na ponta dos lábios. Esse tipo facilmente confundido com o estereótipo do cantor de tangos, sempre é capaz de, no último momento, se safar de urna certa “malandragem à brasileira”.

Gardelon e outros personagens mais recentes estão no pacote de atrações oferecido semanalmente pelo Planeta do Homens, onde o humor passou também a abordar problemas como custo de vida, inflação, dívida externa, eleições diretas, contratos de risco e acordos nucleares.

Porém, agora, praticamente não existe um personagem de Jô Soares que seja eminentemente político. Até mesmo o dr. Sardinha, cuja função é planejar, não tem surgido nesta nova fase do Planeta dos Homens. Haveria agora algum tipo de freios à produção de personagens desse tipo? Jô garante que não.

— Em primeiro lugar, eu acredito que, de certa forma, todos os personagens são um pouco políticos. Além disso, o conteúdo político não é garantia de aceitação por parte do público. Por exemplo, o dr. Sardinha, inspirado no ministro Delfim Neto, não foi sucesso apenas por caricaturar urna figura de destaque do governo. O público gostou dele porque é, na verdade, um personagem muito bom mesmo. Aliás, eu acho que o ministro soube curtir, com muito bom senso e humor, o dr. Sardinha. Trata-se, enfim, de um personagem não tão inteligente quanto o Gardelon ou a cantora Norminha, um personagem antigo, mas um dos mais fortes que já criei até hoje. E Norminha não tem, aparentemente, nada de político.

A galeria dos personagens femininos pode ser modesta, mas, sem dúvida, muito expressiva. Além de Norminha, Jô criou a aeromoça medrosa, a comunicóloga da PUC, Namayá, a folclorista, e a truculenta enfermeira alemã. Nesses casos, a metamorfose do humorista é total. E, se no momento ele não vem apresentando um tipo novo, é por mero acaso: “Nos últimos dois anos não pintou nenhum personagem feminino na minha cabeça. Só recentemente eu criei uma mulher ótima, que já está no gavetão de novidades para o próximo ano” (Jô preserva a sua “cria”, fazendo questão de não adiantar nenhum detalhe sobre u nova personagem.)

APELAR, NUNCA.

No entanto, ele não parece ser um pai possessivo dos seus tipos. No Planeta dos Homens, por exemplo, alguns quadros criados por Jô são animados pelos scripts feitos por outros autores. Assim, o quadro do amigo do Padilha, apesar de sua autoria, recebe textos semanais de Max Nunes. E as reações do público são as mais diversas diante daquele amigo aproveitador, que fica elogiando os dotes físicos da esposa do pacato Padilha, “aquela potra, uma fêmea esplêndida, no bom sentido, é claro…“

— Há pouco tempo, recebi a carta de uma senhora que me repreende por abusar de uma esposa de respeito daquela forma. Por outro lado, também recebi outra carta, desta vez de um homem pedindo pelo amor de Deus que eu mostre em público a mulher do Padilha, porque ele já não agüenta mais o sufoco.

Apesar dos 120 quilos bem pesados, Jô procura não tirar partido da obesidade para fazer o público rir.

— Os meus três espetáculos maiores em teatro fazem alusão ao meu peso no titulo. Por ordem, foram os seguintes: Todos Amam um Homem Gordo, Ame o Gordo antes que Acabe e, finalmente, Viva o Gordo e Abaixo o Regime. São títulos que me identificam. Mas eu jamais farei um personagem que entala em cadeiras ou em portas giratórias. Não há graça em cenas grosseiras como essas. Sempre me convenci de que ser gordo é um estado de espírito. E eu, como todos sabem, sou um gordo leve.

MANEIRA DE PENSAR

E também, por que não dizer, um gordo agitado. Jô Soares grava o Planeta dos Homens sempre às segundas-feiras — de uma hora da da tarde até trés horas da madrugada —, faz teatro durante o resto da semana e ainda cumpro, com muita pontualidade, todos os contratos publicitários.

— Também faço exercícios de técnica vocal e relaxamento. Mas a ginástica maior é, sem dúvida, passar quase duas horas sozinho num palco.

Jô Soares entende humor como uma visão do mundo. Por isso, durante os seis anos em que estudou na Europa e Estados Unidos — isto, em meados da década de 60 —procurou ver e conhecer tudo relacionado aos bons humoristas franceses, italianos e americanos. Além disso, lê muito a respeito e procura estar absolutamente em dia com cinema e teatro.

— Eu acho que não me decidi pelo humor. O humor é que se decidiu por mim. A minha maior preocupação é sempre ficar na faixa do humor inteligente e criativo. E, por incrível que pareça, consigo atingir público de todos os níveis culturais. O humor que faço tem repercussão porque reflete, no fundo, uma maneira de pensar.

É esse humor inteligente que estará no palco do Teatro Procópio Ferreira a partir de hoje. A casa foi toda reformada para receber o novo espetáculo e, por noite, tem capacidade de acomodar mil pessoas. Viva o Gordo e Abaixo o Regime, apresentado sempre de quinta a domingo, tem ingressos custando Cr$ 400,00, exceto aos domingos, quando também são vendidas meias entradas para estudantes. Os horários paro as sessões são os seguintes: quinta e sexta-feira, As 21 horas; sábado, ás 20 e 22h30, e domingo, às 19 horas. O Teatro Procópio Ferreira fica na ruo Augusta, 2823.

JORNAL DA TARDE

Por 46 anos (de 4 de janeiro de 1966 a 31 de outubro de 2012) o Jornal da Tarde deixou sua marca na imprensa brasileira.

Neste blog são mostradas algumas das capas e páginas marcantes dessa publicação do Grupo de Estado que protagonizou uma história de inovações gráficas e de linguagem no jornalismo.

Um exemplo é a histórica capa do menino chorando após a derrota da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1982, na Espanha.

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