E se o acusado ocupa o cume da hierarquia social e tem a lealdade de um poderoso conjunto de elos sociais? Como tirar do jogo político um presidente ou ex-mandatário da República com sinal de realeza e, eis a questão, capaz de um dia voltar para ferrar conosco?
Como metê-lo na cadeia como um cidadão comum, na sociedade do “Você sabe com que está falando?”. Terra na qual a submissão às leis é sinal de inferioridade e isolamento? Onde o cargo eletivo revive privilégios aristocráticos e soma votos a relações. Pois o eleito pertence a um partido, mas tem mais lealdade às suas “turmas” que podem estar na casa, na fábrica, quartéis, indústrias, imprensa televisiva, bancos, esquerda e direita jornalística?

O ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro na entrada de sua casa, onde está em prisão domiciliar, em Brasília. Foto: Luis Nova/AP
Como fazê-lo ver o sol nascer quadrado se ele certamente pode voltar a esse nosso “poder” que é relacional, personalizado, salvacionista e tem a capacidade de anular conflitos de interesse e de anistiar condenações? Não se esqueçam: no Brasil, quem foi rei sempre é majestade.
Ao contrário dos puritanos e calvinistas americanos que hoje Donal Trump desonra com sua agressiva e belicosa incoerência, oposta ao ascetismo, a disciplina e ao autocontrole puritano, no Brasil ter capital financeiro sem prestígio ou força política pode dar cadeia ou processo. Entre nós, prestígio político é sinônimo também de malandragem, que elege pelo inadmissível slogan do “rouba, mas faz” justamente porque o povo tem o realismo de saber que política e ladroagem malandra são sinônimos.
Como, pois, condenar?
Lembrem-se de que no nosso “outro mundo” temos o Purgatório, que tudo equilibra com sua leniência equivalente às demoras dos nosso processos jurídicos. Quem lá chega, sobe ao andar superior, graças a todo esse aparato de oitivas, audiências de custódia, presunções de inocência e outras mil figuras legais destinadas a promover os jeitinhos das indulgências.
Nosso sistema jurídico, como nossa ética política, confirma uma cosmologia religiosa católica romana que resiste à ética do culpado ou inocente, do tudo ou nada do individualismo. Nosso sistema moral ignora os conflitos de interesse sem os quais é difícil praticar a igualdade como um valor.
Para os que cancelam o meu pensamento, retruco que minhas observações não têm como fim amarrar o Brasil ao seu passado colonial aristocrático e escravocrata. O que realço são as implicações histórico-culturais desses fantasmas de um passado que todos temos o dever de encarar nas suas sobrevivências antidemocráticas.