Gramado 2025 termina com nova vitória do Centro-Oeste

Gramado 2025 termina com nova vitória do Centro-Oeste

GRAMADO – Como escrevi ontem, o longa do Mato Grosso Cinco Tipos de Medo, de Bruno Bini, havia entrado com força na reta final. Tanto assim que ganhou o troféu Kikito de melhor filme. Venceu também nas categorias de roteiro, montagem, além de ator coadjuvante para Xamã.

O filme tem méritos. A construção é muito interessante, colocando em cena cinco personagens, cujos destinos se entrelaçam numa história trágica de periferia, banditismo, mas também de amor, desejo e paixão. Há o músico internado por Covid (João Vitor Silva), que no hospital conhece uma enfermeira (Bella Campos). Esta quer se livrar de um antigo e perigoso namorado (Xamã) e engatar novo relacionamento. Há também um advogado de porta de cadeia (Rui Ricardo Dias) com motivações ocultas, e uma policial (Bárbara Colen), que leva consigo as marcas de uma tragédia. Cinco personagens, cada qual com seus medos e desejos.

As cenas de ação são muito bem filmadas e o elenco é superlativo. Tem alguns expoentes, mas a força mora mais no conjunto que em suas partes. Algumas inverossimilhanças? Sim, mas não a ponto de atrapalhar a fruição do todo.

Com Cinco Tipos de Medo, o centro-oeste vence pela segunda vez seguida o Festival de Gramado. Ano passado foi Oeste Outra Vez, um filme precioso. É uma vitória da descentralização.

Outros concorrentes bem cotados também garantiram seu quinhão. O paranaense Nó levou os Kikitos de melhor direção para Laís Melo, fotografia (Renata Corrêa) e o prêmio da crítica. Põe em cena a situação da protagonista, Glória, separada do marido, operária em uma fábrica e tendo de criar três filhas. Enquanto disputa a guarda das crianças com o ex-marido, submete-se a uma dura disputa por promoção na firma. A vida pode ser um nó. Górdio. Mas, insinua-se, pode conter outros enlaces, e a palavra ganhará novos sentidos, não tão óbvios.

Outro favorito, A Natureza das Coisas Invisíveis, de Rafaela Camelo, levou o Prêmio Especial do Júri, atriz coadjuvante (Aline Marta Maria) e trilha musical. Neste que é o primeiro longa de Rafaela, encontramos muitas coisas que não são ditas, mas se infiltram na trama, depurada por uma espécie de discrição voluntária da cineasta. Tudo parece muito singelo. Mas apenas parece porque traz um fundo de reflexão sobre a situação das mulheres, das crianças, das pessoas idosas, da morte e, como não poderia deixar de ser, uma questão de gênero oculta sob um trabalho de luto.

Papagaios ganhou o júri popular, direção, desenho de som e ator (Gero Camilo).

O filme parte do registro documental ao levar muito em conta a ambiência onde a história se passa. No caso, Curicica, bairro da Zona Oeste carioca. Evita, assim, cartões postais do Rio, onde são gravadas a maioria das produções da cidade.

Nesse subúrbio encontra sentido o personagem de Gero Camilo, Tunico, um “papagaio de pirata” que leva sua atividade ao estado da arte. Ele procura se informar sobre todas as atividades em que possa exercer seu métier. Sobretudo enterros de políticos ou gente famosa. Neles, dá sempre um jeito de segurar uma alça de caixão, ou buscar ângulos em que seja filmado pelas câmeras. É um artista dedicado. Um veterano artista, hoje talvez substituído por influencers.

A melhor atriz foi Malu Galli, por Querido Mundo, de Miguel Falabella. História de mulher maltratada, que reencontra a felicidade num improvável prédio em ruínas, a trama fornece a Malu a oportunidade de expor sua arte. Filme um tanto artificial, vindo do teatro para o cinema, tem em Malu seu ponto mais forte e verossímil.

Sonhar. Os Leões, que dividiu opiniões entre a crítica, ganhou uma menção honrosa.

Entre os documentários, Lendo o Mundo, de Catherine Murphy e Iris de Oliveira, foi considerado o melhor filme. O favorito Para Vigo me Voy, de Lírio Ferreira e Karen Harley, ficou apenas com uma menção honrosa. Foi a decisão mais controversa dos júris de Gramado 2025.

Tudo somado e subtraído, foi bonita a festa, pá! Ano que vem tem mais.

Vencedores completos:

Melhor Filme: “Cinco Tipos de Medo”, de Bruno Bini

Melhor Direção: Laís Melo, por “Nó”

Melhor Ator: Gero Camilo, por “Papagaios”, de Douglas Soares

Melhor Atriz: Malu Galli, para “Dear World”, de Miguel Falabella

Melhor Roteiro: Bruno Bini, por “Cinco Tipos de Medo”

Melhor Fotografia: Renata Corrêa, por “Nó”, de Laís Melo

Melhor Montagem: Bruno Bini, por “Cinco Tipos de Medo”

Melhor Trilha Musical: Alekos Vuskovic, por “A Natureza das Coisas Invisíveis”, de Rafaela Camelo

Melhor Direção de Arte: Elsa Romero, por “Papagaios”, de Douglas Soares

Melhor Atriz Coadjuvante: Aline Marta Maria, por “A Natureza das Coisas Invisíveis”, de Rafaela Camelo

Melhor Ator Coadjuvante: Xamã, por “Cinco Tipos de Medo”, de Bruno Bini

Melhor Desenho de Som: Bernardo Uzeda, Thiago Sobral e Damião Lopes, por “Papagaios”, de Douglas Soares

Prêmio Especial do Júri: “A Natureza das Coisas Invisíveis”, de Rafaela Camelo

Menção Honrosa: “Sonhar com Leões”, de Paolo Marinou-Blanco

Melhor Filme pelo Júri Popular: “Papagaios”, de Douglas Soares

Melhor Filme pelo Júri da Crítica: “Nó”, de Laís Melo

Melhor Longa-metragem Documentário: “Lendo o Mundo”, de Catherine Murphy e Iris de Oliveira

Menção Honrosa Documentário: “Para Vigo Me Voy!”, de Lírio Ferreira e Karen Harley

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