Analistas não têm meios de prever a trajetória do dólar, como os recorrentes erros demonstram

Analistas não têm meios de prever a trajetória do dólar, como os recorrentes erros demonstram

Não final de 2023, ou dólar estava em R$ 4,84. Um ano antes, a expectativa dos analistas consultados pelo Banco Central era de R$ 5,27, pouco acima do preço da moeda americana no encerramento de 2022, R$ 5,22. A previsão era de uma valorização do dólar. Houve uma queda de 7,3%. Foi mal. Para o final de 2024, as cartomantes do Mercado imaginavam um dólar a R$ 5 – não muito diferente dos citados R$ 4,84. Pois o dólar no último dia de 2024 estava em R$ 6,19, 24% acima do palpite médio do mercado.

No final do ano passado, o minueto se repetiu: a previsão para o ano que se iniciava pouco diferiu da cotação vigente no momento da adivinhação. Com o susto da forte desvalorização em 2024 (27,9%), os mesmos analistas cravaram a previsão de R$ 6 para o final de 2025 – novamente perto da cotação da época. A explicação estava na ponta da língua: Para analistas, dólar continua no nível de R$ 6 em 2025era o título da matéria do jornal Valor Econômico em 27 de dezembro de 2024.

O raciocínio era simples: o risco fiscal no Brasil continuaria elevado em 2025, impedindo a queda da moeda americana. Desde então, a situação das contas públicas não mudou muito. Multiplicaram-se os exercícios de prestidigitação para contornar a meta fiscal. Estima-se que o total de gastos aprovados fora da meta alcance quase R$ 400 bilhões no final de 2026.

Faltam ao governo não só os meios, mas também o apetite para ajustar suas contas. A dívida bruta do governo geral, por exemplo, aumentou nada menos do que R$ 404,56 bilhões no primeiro semestre, atingindo R$ 9,39 trilhões. Vai continuar subindo a um ritmo superior ao crescimento do PIB. O governo comete um rosário de erros na gestão das finanças públicas. Ainda assim, houve valorização do real de 10,5% no acumulado até julho.

Também a volatilidade despencou, de 14,6% ao ano em dezembro de 2024 para 8,2% em julho último. Claro, o “tarifaço” de Trump pode explicar a surpresa (surpresa é como o mercado chama seus erros de previsão). Da mesma forma, a aplicação extensiva da Lei Magnitsky pode causar um tumulto inédito em tempos de paz (se guerra isso não for), resgatando do limbo a previsão do mercado.

O fato é que os analistas simplesmente não têm meios de prever a trajetória do dólar, como os recorrentes erros demonstram. O Banco Central acredita que isso não é importante porque a própria previsão seria um termômetro das expectativas, essas sim relevantes. Mas nem isso pode ser aceito sem ressalvas, já que é difícil argumentar que economistas consigam refletir com mínima fidelidade a opinião dos agentes econômicos. Nas pesquisas eleitorais, é praxe incluir a opção “não sabe/não quis opinar”. Para aferir a improvável humildade dos economistas, a pesquisa Focus poderia fazer o mesmo (atenção: contém ironia).

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