Além dos R$ 6,9 bilhões: quais números realmente importam na SAF do Fluminense
Proposta apresentada por LZ Sports e BTG mistura investimentos, gastos correntes e aporte para gerar um numerão e criar encantamento popular.
A venda de um clube de futebol, quando ainda associação civil, requer a aprovação dos sócios e um certo clamor popular. Não por acaso, valores comentados na opinião pública aumentaram tanto recentemente. Se a SAF da Portuguesa foi constituída supostamente com R$ 1 bilhão, a do Fluminense prevê R$ 6,9 bilhões em investimentos. Ambas fazem BotafogoAssim, CruzeiroAssim, Vasco e Bahia parecer maus negócios.
O truque para valores tão altos é somar tudo e chamar de investimento. Falemos do Fluminense, a pauta da vez. Na proposta negociada pelo BTG, do grupo de investidores chamado LZ Sports, R$ 1,14 bilhão estão previstos para a aquisição de jogadores e R$ 84 milhões para melhorias em infraestrutura, como os centros de treinamento profissional e de Xerém, das categorias de base. Esses são, de fato, investimentos.

Mário Bittencourt, presidente do Fluminense Foto: Marina Garcia/FFC
Também estão inseridos na oferta R$ 4,685 bilhões em folha salarial para o futebol pelos próximos dez anos, R$ 359 milhões para formação de jogadores na base e R$ 143 milhões em royalties para a associação — que ficará sem receitas e precisará disso para sustentar sua operação. É ótimo que tais valores estejam pré-determinados no acordo, só há um problema: eles não são investimentos, e sim gastos correntes.
O último número a ser destacado é o aporte de R$ 500 milhões dos investidores. Talvez seja o mais importante de todos, pois é o único que representa dinheiro novo. Verba que sairá das contas bancárias dos novos donos para ser injetado no caixa da empresa, que precisará dela para dar conta das promessas assumidas. De resto, todos os valores serão abatidos com receitas da própria SAF, receitas que a associação já tem.
Se você puxar a calculadora e somar cada uma das cifras, vai chegar a R$ 6,9 bilhões. Mescla de investimentos e gastos correntes, a ser cumprida em sua maioria com o faturamento que o Fluminense possui — oriundo de transmissão, patrocínios, bilheterias, sócios-torcedores e vendas de atletas —, e o aporte dos investidores. Do que vale o número grande? Tecnicamente, nada. Mas ele gera encantamento popular.
O que também interessa, e muito: o endividamento. O Fluminense afirma que tem uma dívida líquida de R$ 871 milhões, e a proposta é passar a responsabilidade sobre o pagamento dessa dívida para a SAF. A empresa será 66% dos investidores e 34% da associação tricolor. Com um gatilho. Se a dívida subir ou descer até o fechamento da operação, os percentuais variam para cima ou para baixo a fim de adequar à realidade.
O futebol do Fluminense está sendo vendido pela associação pelo valor da sua dívida — a dívida que ela, com seus dirigentes, não consegue pagar. O clube associativo poderá respirar com certo alívio, porque manterá um terço da propriedade sobre a SAF, receberá os royalties e poderá se ocupar das atividades sociais e dos esportes olímpicos. Sem ter de lidar com a penca de credores, um problema dos investidores.
Mas você, torcedor, que não está preocupado com a bocha ou o remo, precisa estar consciente do que significam todos esses números. A dívida será paga por nova figura, a LZ Sports, no entanto com dinheiro proporcionado pelas receitas da SAF. Os R$ 500 milhões do aporte vão ajudar, porém não darão conta de tudo: investimentos, gastos correntes e ainda credores. A empresa dependerá de outros fatores para faturar mais.
Não há uma “punição” prevista na oferta, na falta de palavra melhor, para o caso de os investidores descumprirem as promessas que compõem os tais R$ 6,9 bilhões. Quer dizer: há, mas para inglês ver. Os futuros donos não receberão dividendos enquanto não arcarem com tudo. Não faz diferença na prática, porque quase nenhum clube de futebol no mundo paga dividendos. Não é assim que investidor tem retorno no futebol.
Eu faria esse acordo? Com o que se sabe hoje, possivelmente. Não que a SAF em si mude as práticas da gestão e/ou garanta sucesso esportivo — Botafogo, Cruzeiro e Vasco provam que não, por motivos distintos. Mas as últimas três décadas de gestão amadora do Fluminense mostram que a associação não está apta a resolver problemas financeiros e administrativos que ela mesma criou. Talvez seja mesmo a hora de mudar.